Breve história da internet

Por Gregorio Duvivier


Ligue os pontos mostrou que Gregorio Duviver tem talento não só no humor, mas também na poesia. Com sua coluna semanal na Folha de S.Paulo, o ator, roteirista, comediante, cronista e poeta atingiu com seus textos quem ainda não havia tido contato com seu trabalho no Porta dos Fundos. Sendo no YouTube ou no jornal, Gregorio se espalha pela internet – às vezes até parando num veículo do exterior. E agora está de volta nos livros.

Put some farofa reúne as principais crônicas publicadas no jornal, roteiros das melhores esquetes do Porta dos Fundos e textos inéditos do autor para esta edição, uma mistura entre ficções, memórias de infância, ensaios sobre artistas que o influenciaram, artigos panfletários, exercícios de linguagem e outras experimentações. Abaixo, leia uma das crônicas do livro que chega nas livrarias em novembro.

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Agosto de 2013

Conheceram-se na sala ‘10 a 15 anos’ do bate-papo UOL. De onde teclas? Ele teclava de Belo Horizonte, ela de Caxias do Sul. Ele deu um número de ICQ. Passaram dias ao som de oh-ou e navios partindo. Ele pediu uma foto. Ela não tinha foto. Descreveu-se ruiva (não era). Ele se apaixonou perdidamente. Pediu o e-mail dela: era do iG, por causa do cachorrinho. O dele era Zipmail, por causa da Luana Piovani. Mandou um poema. Ela respondeu dez minutos depois. Trocaram todo tipo de poemas e cartas de amor. Até a caixa postal dele lotar, na semana seguinte. Ele apagou todos os e-mails que não eram dela (ou pra ela). Não eram muitos. Logo lotou de novo. Migraram para o Hotmail. A caixa postal era um pouco maior. Conheceram o MSN. Ele pediu uma foto. Ela pintou o cabelo de vermelho só pra foto. Mandou. Ele gostou mais ainda. Ela fez um Fotolog só com fotos dela. Pra ele. O Fotolog fez sucesso, não só com ele. Combinaram de se encontrar em São Paulo. Ele foi, ela não. Pararam de se falar por um tempo. No Orkut, se encontraram dois anos mais velhos. Ela pediu desculpas em um lindo testimonial. Ele aceitou. As desculpas, não o testimonial. Não era pra aceitar. Passaram a trocar scraps. Ele era um figura popular, tinha criado a comunidade do Pearl Jam. Ela criou “Adoro banho quente”, comunidade popular mas não tanto quanto sua rival “Odeio banho gelado”. Combinaram de se encontrar em São Paulo. Os dois foram. Beijaram-se assistindo A era do gelo. Ou não assistindo. Começaram um namoro à distância. Foram meses difíceis de MSN, até que inventaram o Skype. A vida mudou. Beijavam a tela, dormiam abraçados com ela. Ele fez uma música para ela e postou no YouTube. Ganhou seguidores no Twitter. A caixa postal do Hotmail lotou. Migraram para o Gmail e sua caixa infinita (ou quase). Ela foi pro Rio de Janeiro fazer faculdade. Ele foi atrás. Entraram no Facebook quando ainda não tinha quase ninguém. A foto de um era a cara do outro. Moravam juntos, dividiam o mesmo computador, compartilhavam os mesmos vídeos. O Gmail e sua estranha mania de não dar logout automaticamente fizeram com que ela lesse toda a correspondência dele. Ele ficou puto com o que ela leu. Ela ficou puta com o que ele tinha escrito. Quase terminaram. Preferiram comprar outro computador. E cada um passou a ter uma senha. Riram muito no 9Gag. Recusaram-se a entrar para o Google Plus. Hoje se falam o dia inteiro pelo WhatsApp. E o Instagram deles está cheio de fotos do bebê.

 

 

 

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Gregorio Duvivier nasceu no Rio de Janeiro, em 1986. É formado em letras pela PUC-Rio. Participou de séries de televisão como A grande família, de filmes como Apenas o fim(2009) e encenou diversas peças, entre elas Uma noite na Lua, pela qual venceu o prêmio APTR de melhor ator em 2012. É um dos idealizadores do coletivo Porta dos Fundos, em que trabalha como roteirista e ator. Antes de lançar seu primeiro livro, A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora(2008, 7Letras), teve poemas publicados na revista piauí e no jornal O Globo. Gregorio colabora com a Folha de S.Paulo, assinando uma coluna semanal na Ilustrada. Publicou pela Companhia das Letras o livro de poemasLigue os pontos.

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