Fazendo coisas

Por André Conti


Esteve no Brasil o físico teórico e escritor Brian Greene. Ele veio falar no Fronteiras do Pensamento, onde apresentou a conferência “Em busca de uma teoria unificada”. Durante uma hora e meia, Greene tentou explicar o que ele faz como físico teórico, quer dizer, o que significa trabalhar concretamente, suar a camisa mesmo, na resolução das Grandes Perguntas: o que é o universo e o que há para além dele. Ele descreveu lindamente o funcionamento das coisas muito pequenas numa proporção assim: se um átomo tivesse o tamanho do universo inteiro, os fenômenos que ele estava mostrando teriam o tamanho de um lápis. Greene usou a imagem de um mar revolto para demonstrar esse mundo subatômico, com o movimento aleatório das ondas (em dez ou onze dimensões) sendo responsável pela existência de coisas diferentes: elétrons, prótons, eu e você. Alguém da plateia mandou um bilhete perguntando como é que se explicava a consciência humana em meio a tanta aleatoriedade. Ele respondeu que não era neurocientista e que entendia tanto de cérebros quanto nós; isso posto, caso o universo realmente funcione como ele imagina na menor escala possível, o provável é que a consciência seja apenas uma sensação decorrente do funcionamento desses fenômenos subatômicos. O que sentimos como a passagem do tempo, a força da gravidade, o estado da matéria e, sobretudo, a consciência de ser alguém, não passaria de um efeito colateral das engrenagens do universo.

Isso diz o sujeito que vive de forçar a própria consciência a abstrair o funcionamento do cosmos, para depois obrigar a mesma consciência a dar um sentido matemático àquilo tudo, ou seja, a usar uma segunda abstração, no caso as equações matemáticas, para tornar concreta a primeira abstração. Mas o barato é que ele faz isso no duro, como atividade do dia a dia: o processo deve ser precedido por acordar cedo, tomar banho, beber café, abrir a janela para ver se está frio.

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Mexi num computador pela primeira vez num museu de história natural, numa viagem com a família. O museu estava celebrando o Mês do Morcego, e uma das atrações era uma sala em que, usando os últimos recursos tecnológicos da época, tentava-se simular diversas habilidades dos morcegos. A ideia era mostrar que, mesmo comparados à tecnologia de ponta da época, os morcegos eram animais sofisticadíssimos, cujos sistemas de voo, detecção etc. ainda estavam à frente de nós. Na prática, eram totens de som que reproduziam as frequências captadas por morcegos, um pequeno biossonar que imitava o sistema de colisão dos morcegos, uma membrana peluda com textura horrenda que imitava a asa de um morcego. E havia também uns três computadores, todos travados no mesmo jogo de soletrar, em que você colocava à prova seus novos conhecimentos sobre morcegos. Foi uma experiência indescritível, o computador fazendo coisas. Você batia numa tecla e a letra aparecia no monitor, você completava a palavra e vinha um efeito dissolve e um morcego colorido. Ele tocava sons, mudava de tela, tinha um placar com a pontuação dos visitantes. Era melhor do que todo e qualquer morcego do planeta Terra.

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Ninguém inventou o computador. Para Walter Isaacson, biógrafo de Steve Jobs e que lança agora Os inovadores: uma biografia da revolução digital, a ideia de uma máquina que resolve problemas variados surgiu no século XIX e chegou a seu estado atual pela colaboração de centenas de pessoas ao longo das décadas. Isso não é dizer o óbvio: a tecnologia avança, cada inovação dá um passo além da anterior etc. A tese de Isaacson é que a própria natureza do computador é indissociável desse processo altamente colaborativo. O computador é uma máquina aberta e de possibilidades tão vastas porque cada inovador queria fazer coisas diferentes com ele, fosse solucionar um impasse técnico, criar um produto novo, humilhar rivais, distribuir fanzines. Ou ainda: a inovação tecnológica não nasce de um lampejo no vácuo, há sempre uma demanda que eventualmente é alcançada pela ciência de seu tempo; daí inúmeros inventos similares, criados por pessoas que não se conheciam, terem surgido nas mesmas épocas no mundo (pergunte a um italiano quem inventou o telefone, pergunte a um brasileiro quem inventou o avião).

Os personagens do livro são engenheiros, inventores excêntricos, homens de negócios, nerds solitários. Essas vidas são narradas num fôlego só, se entrelaçam, há brigas, disputas judiciais e lances dramáticos — para quem gosta do assunto, é um thriller sem assassinos, mas com placas de circuito, cabos, soldas e relés. De saída, as personalidades deles parecem diametralmente opostas a de cientistas como Brian Greene: enquanto uns criam modelos abstratos para entender as coisas, eles buscam modelos concretos para resolver as coisas. Todavia, empresas como a Bell Laboratories e a Texas Instruments investiram caminhões de dinheiro em pesquisa pura, em gente que se ocupava também de ter ideias sem aplicação concreta e imediata. Na verdade, são dois mundos que se alimentam: as pesquisas de Greene podem exigir novos aparelhos para serem provadas; quem banca esses aparelhos espera usar seus componentes e ideias em outros aparelhos, desta vez de uso comercial. Ou ainda: um avanço prático na computação feito por um eremita do Vale do Silício pode dar a Greene a ferramenta de que ele precisa para provar alguma ideia. Sem esse ecossistema de teóricos, investidores e engenheiros, ainda estaríamos inventando o ábaco.

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Saiu há duas semanas o disco novo do Shellac, banda maravilhosa de Chicago encabeçada pelo engenheiro de som Steve Albini. Ele foi produtor de centenas de discos, entre eles “In Utero”, do Nirvana e “Surfer Rosa”, dos Pixies, além de ter trabalhado com Breeders, The Jesus Lizard, Helmet, Dirty Three e outras tantas bandas sem as quais o universo estudado pelo Brian Greene seria mais silencioso e menos interessante. Como engenheiro, ele tem métodos rigorosos e intransigentes de trabalho, e costuma criar discos com pouquíssima interferência de produção, que tendem a soar como se a banda estivesse gravando ao vivo. Todavia, como esta carta espetacular que ele mandou aos integrantes do Nirvana quando queria produzir o “In Utero” mostra, ele é acima de tudo um técnico, ou seja, não se trata de impor seus gostos pessoais a um processo criativo que pertence aos artistas.

Mas ele também é músico, teve bandas fabulosas como Flour e Big Black, e mantém o Shellac desde 1992, embora os lançamentos e os shows sejam bissextos. O que importa é o seguinte: Shellac parece tudo menos uma banda de engenheiro, e decididamente não soa como os discos que ele produz. Para quem vive de trabalhar nas coisas que os outros fizeram (oi), é um respiro ouvir algo tão original partindo de alguém que, segundo suas próprias contas, produziu 1500 discos (“Alguns ótimos, alguns bons, alguns horríveis, a maioria ali no meio”). Sendo Editor com Vaidades Artísticas, ver que é possível fazer coisas suas com a mesma energia que trabalhamos nas coisas feitas pelos outros é animador.

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Randall Munroe era um jovem prodígio da NASA. Ele trabalhava no departamento de robótica, o que em termos de fazer coisas é mais do que eu posso imaginar. Munroe abandonou a NASA para se dedicar ao XKCD, uma tirinha de internet que o tornou uma das mais célebres personalidades da rede. O mesmo tipo de criatividade que movia os engenheiros da revolução digital não foi suficiente a ele: mais do que colocar robôs em Marte, ele queria colocar seus personagens de palitinhos no monitor das pessoas. Batendo o olho assim, me parece inconcebível, mas é quase óbvio — ser um entre as dezenas de cientistas que ajudaram o robô Curiosity a mexer um bracinho para a direita ou ser a única pessoa capaz de fazer isso aqui:

As tirinhas costumam tratar de ciência, computação etc., de modo que os fãs volta e meia mandavam perguntas ao Munroe (que outro ex-funcionário da NASA você conhece?). Como bons leitores do XKCD, eles queriam saber de que altura é preciso jogar um bife para que ele chegue no chão ao ponto. Ou se é possível saltar de um avião com um tanque de gás hélio e encher bexigas o suficiente para não morrer na queda (parece que sim). Ou em que ano o número de perfis de pessoas mortas no Facebook vai ultrapassar o de pessoas vivas. Ou ainda o que aconteceria se a Terra parasse de girar e a atmosfera mantivesse a velocidade. Para dar conta, ele criou o blog What If?, em que investiga essas hipóteses com rigor científico, bonecos de palitinhos e senso de humor de físico de partículas. Agora ele fez um livro baseado no blog, E se? Respostas científicas para perguntas absurdas, que o Érico Assis traduziu e que a Cia. publica no início de novembro. Acabou de sair lá fora e está, merecidamente, em todas as listas: é dos livros mais engraçados e maníacos que já passaram aqui na editora. É também uma proposta curiosa. Esse é o sujeito que seria capaz de fazer coisas realmente impactantes na linha de frente do conhecimento científico, mas ele se dedica a responder, com a mesma seriedade, às únicas hipóteses mais improváveis do que mandar um robô para Marte.

Durante os últimos meses, trabalhei nos dois livros com a Lucila, a Erika, a Marina e a Adriane (gratidão eterna). Foi bom editá-los em paralelo, você começa a ver ligações entre tudo, a achar que a pessoa calculando um salto impossível de um avião está tentando, por caminhos outros, o mesmo que o engenheiro que grava um disco ou o físico que olha uma parede igual a nossa e vê dez dimensões. Isso de fazer coisas. Um mundo de gente fazendo coisas para que os outros possam fazer mais coisas, o que for.

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André Conti é editor da Companhia das Letras.

4 Comentários

  1. Luis Narval disse:

    Desculpem se volto ao assunto, mas faz já alguns anos estive muito interessado em física quântica, e na ocasião concebi a ideia meio maluca de escrever uma série de poemas que tratasse literariamente, tanto quanto fosse possível, da complicada matéria. Escrevi cerca de um dezena de poemas que, para minha surpresa, acabaram por se encaixar noutro projeto, o qual, prudentemente, considerei mais factível de ser levado à cabo com algum, vá lá, relativo sucesso. De fato foi. Contudo, fiquei com um sentimento de frustração por não ter tido a determinação necessária para levar até o fim meu projeto original. Sei que em algum momento deverei voltar a ele. Até lá, sigo com a sensação angustiante de estar fugindo de qualquer coisa vital. Enfim, posto aqui, se me permitirem, um deles. Talvez não faça muito sentido, assim afastado de seu contexto e sem os demais para lhe emprestarem suporte.
    Antes uma breve explicação. Este poema em específico, originalmente intitulado de “Spin”, remete exatamente ao movimento oscilatório desenvolvido pelo próprio átomo quando em “repouso”, isto é, antes de ser emitido, movimento esse chamado justamente de Spin. Mas o cerne do poema, digamos, tem mais a ver com o entrelaçamento quântico, onde duas partículas “vizinhas” podem se entrelaçar, conectando na ação suas propriedades. E estas partículas, mesmo separadas por distâncias infinitas são capazes ainda assim de manter sua bizarra conecção e afetar o estado uma da outra instantaneamente. E quando digo instantaneamente, é isso mesmo que quero dizer. Ou seja, não ocorre interferência de espaço (distância) ou tempo (duração) no evento, e até onde se sabe, não há nenhum meio propriamente físico ligando-as. Sim. É assombroso! Algo que há décadas tem tirado o sono de muitos teóricos.
    Enfim, o poema joga, à semelhança das partículas atômicas entrelaçadas, com pares de eventos supostamente conectados de nossa existência ordinária, mas sensivelmente “separados” por nossa enganosa (talvez necessária) percepção de finitude, com suas inerentes gradações espaço-temporais.
    ***************
    SPIN

    Na antevisão de como serias
    se pousasses na paisagem das idades.
    Não apenas nesta face que ora estampa o impronunciável devir.
    Ao que chamamos e nomeamos, como se por simples relação
    de coincidências identificássemos forças que a natureza
    dotou de rostos.
    Ao que chamamos “Milagre”, quando sobrecai
    o que esteve apenas suspenso.
    “Amor”, à ambivalência inaudita do ego.
    “Morte”, à penosa interseção do acaso.
    “Mistério”, às obras de tua santificada simulação.
    E sempre “Deus”, “Providência”, “Eterno”
    ao que excede em um a soma do possível!

  2. Daniel Abreu disse:

    Muita vontade de ler o Isaacson, os dois últimos dele na Cia. Coincide com minha nova inclinação por procurar de todo modo aprender a fazer melhor todas as coisas que posso fazer. Digo: aprender com livros e experiências sobre o mundo das administrações.

  3. Luis Narval disse:

    Teoria Unificada?
    Trocando em miúdos, o que se deseja saber no fundo é o seguinte: O que veio primeiro. O ovo ou a galinha? Segundo a ótica da física quântica (curiosamente desdenhada pela maioria dos teóricos), esta é uma questão irrelevante, já que ambas as probabilidades seriam possíveis. O que significa dizer que tanto uma quanto a outra deteriam as mesmas chances de interferir, e logo, configurar os eventos tais como eles se apresentam em determinado “espectro” de realidade. Quer dizer, as modificações que elas operariam seriam pontuais e locais,e não gerais e universais. Isto é, válidas em todas as dimensões. Então, o mundo (a totalidade de tudo quanto existe) estaria como que rigorosamente segmentado em instâncias de realidades particulares, e que em função de certas (ainda desconhecidas) leis físicas não seriam a princípio intercambiáveis. Portanto, o fenômeno da consciência não pode ser um mero “efeito colateral” de uma, digamos, ordem mais poderosa ou abrangente de fenômenos físicos e/ou abstratos, etc., pelo simples motivo de não estarem inter-relacionados, quer em nível sub-atômico ou não.
    Segundo esta linha de raciocínio, a consciência, o sentido e a percepção de existência e individualidade assim como os conhecemos se auto-sustentariam e se auto-justificariam, independentemente do que possa ou deva ocorrer em outras categorias quânticas, já que cada uma dessas segue sua própria dinâmica, forçosamente alheia ao que acontece nas demais.

  4. Bruno disse:

    Vou comentar porque achei que não era justo um texto tão bom ficar sem (comentários). Que texto legal. :)

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