Terapia contra o vício da CCL (Compra Compulsiva de Livros)

Por Juan Pablo Villalobos


Depois de passar há uns meses por uma terrível crise das prateleiras, e logo depois atravessar uma crise bem pior ao encaixotar toda minha biblioteca por causa da mudança, pousei em Barcelona no comecinho de setembro com o firme propósito de voltar a utilizar a rede de bibliotecas públicas da cidade. Fazia, pelo menos, sete ou oito anos que eu não utilizava a carteirinha, mais que os três anos que morei no Brasil, pois depois de uma primeira fase de uso intensivo das bibliotecas, eu tinha virado um CCL (um Comprador Compulsivo de Livros), uma das espécies mais perigosas e letais de MCC (Monstros Consumistas Culturais).

Preparei minha volta às bibliotecas públicas fazendo uma lavagem cerebral, segundo a qual o importante não era ser um CCL, mas um LCL (um Leitor Compulsivo de Livros). Felizmente, e contra todo prognóstico, minha carteirinha ainda funcionava, então comecei a passear entre as prateleiras da biblioteca mais próxima de minha casa na procura dos livros que levaria. Nessa primeira visita, da qual trouxe o maravilhoso Tirana memoria, do escritor salvadorenho Horacio Castellanos Moya, um dos escritores mais interessantes da atualidade, e nas seguintes, uma vez ativada a rotina de ir à biblioteca para devolver os livros e levar novos, acabei criando uma terapia que talvez seja útil para quem, devido a motivos econômicos, amorosos, psicológicos ou de espaço nas prateleiras, precisa abandonar sua condição de CCL e entrar no mais saudável mundo dos LCL.

É o que eu chamo da “terapia jotapê contra o vício do Consumo Compulsivo de Livros”. Se você foi diagnosticado com essa doença (e se já superou a fase de negação), pode usar as seguintes sugestões. Eu garanto resultados em menos de três visitas à biblioteca pública.

1. “Todos esses livros são meus”. Esse pensamento é a base de toda a terapia. Se você não consegue acreditar verdadeiramente nele será impossível abandonar a compulsão do consumo. Tente o seguinte: passear entre os corredores da biblioteca imaginando que você está em casa e que pode pegar qualquer livro que quiser e ler. Enquanto passeia, repita mentalmente, uma vez e outra, como se fosse um mantra: “todos esses livros são meus, todos esses livros são meus, todos esses livros são meus”. Você acha que sou maluco? Nada mais longe disso: você realmente pode pegar qualquer livro e ler, a biblioteca é pública, é de todos, o que quer dizer, a efeitos práticos, que todos esses livros são meus e de todo mundo.

1.1. Muito importante: não diga que todos os livros são seus em voz alta, ninguém quer acabar no hospital psiquiátrico (onde, aliás, entre outros muitos inconvenientes, não há boas bibliotecas).

2. Leve sempre mais de um livro para casa. Se a biblioteca permite levar três livros, leve três. Se cinco, cinco. Siga a seguinte regra: levar um livro que você quer muito ler, mas muito, muito mesmo (e que, de fato, você vai ler); leve outro(s) livro(s) que você acha que gostaria de ler (aqueles livros que alguém recomendou ou que receberam boas críticas); e leve sempre, no mínimo, um livro de um grandíssimo escritor, de um clássico universal ou de um autor de culto. Assim, você conseguirá reproduzir em casa o mesmo clima criado pelo Consumo Compulsivo de Livros sem consumir: você vai ler o livro que queria muito ler, você vai dar uma olhadinha no(s) livro(s) que você achava que ia gostar de ler (e provavelmente vai ler um deles, mas só provavelmente), e (importantíssimo) você vai sentir a culpa de não ler esse Proust ou Sófocles que estará atormentando você desde algum canto da casa.

3. Quando o demônio do Consumo atacar: PEGUE OS LIVROS E VOLTE PARA A BIBLIOTECA CORRENDO. E não esqueça, assim que estiver entre as prateleiras, repita mentalmente: “todos esses livros são meus, todos esses livros são meus”.

4. Faça alguma coisinha nos livros que você lê, sem estragar o livro, por favor. Sublinhe uma frase com lápis, dobre o canto de uma folha, “esqueça” um recibo ou um bilhete entre as páginas.

5. Se você se encontrar na biblioteca com algum amigo ou conhecido por casualidade, atue como se fosse o anfitrião, mostre o espaço, faça sugestões de leitura, dê dicas. Tenha cuidado de não utilizar a primeira pessoa nas explicações (ver ponto 1.1).

6. Passe intencionalmente pela prateleira da biblioteca onde fica algum dos livros que você leu. Faça de conta que foi uma casualidade, leia as lombadas dos livros vizinhos e quando chegar ao livro lido, sinta esse arrepio de felicidade: “esse eu já li”.

7. Se você está passando por uma crise de abstinência de consumo, pegue o livro lido (ver ponto 6) e dê uma folheada: o que você tiver feito nesse livro (ver ponto 4) incrementará a sensação de que esse livro, e todos os livros da biblioteca, é seu.

8. Aproveite para socializar. Se você descobrir uma pessoa com os dedos na lombada de um Gombrowicz, de um Sérgio Sant’Anna ou de um César Aira, o que você está esperando para puxar conversa!? Não é todo dia que você encontra um desconhecido interessante passeando entre as prateleiras da sua casa.

9. Como resultado de tudo o que foi exposto anteriormente, vire um UCB, um Usuário Compulsivo da Biblioteca.

Imagino que alguns leitores desta coluna estarão pensando: claro, você disse isso porque você está morando em Barcelona, onde as bibliotecas públicas são ótimas, e na América Latina não é bem assim etc. Mas isso é uma meia-verdade: eu, pelo menos, antes de estar viciado em CCL, usei muito as bibliotecas públicas do México e também a bibliotequinha de Sousas, em Campinas, onde meus filhos tinham carteirinha e a gente ia ler.

É verdade que as bibliotecas públicas do México e do Brasil poderiam ser bem melhores, mas o jeito mais eficaz de ajudar nessa melhora é justamente esse: utilizá-las. E se não tem uma boa biblioteca perto de casa ou do trabalho, não é hora de começar a se organizar para pedir uma à prefeitura da cidade?

Já dizia minha avó, que estava além das ideologias, mas era muito sábia: a felicidade é pública, a tristeza é privada.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzido em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.

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23 Comentários

  1. Luiza Angélica Guerino disse:

    Dicas muito interessantes…lembro que meu refúgio era a Biblioteca do Centro Cultural São Paulo, na Rua Vergueiro. Morava em Perdizes, me deslocava de Ônibus e passava horas do meu sábado lendo tudo o que podia!! Na época, estudante, não tinha verba para compra de livros. Tornei-me, na faculdade, uma frequentadora assídua das Bibliotecas da FFLCH-USP e foi nesse período que me tornei uma CCL e aprofundei meu lado LCL…sem arrependimentos.
    Não há tempo de frequentar bibliotecas, na maior parte das vezes, e, quando precisamos de obras de referência para pesquisa, é melhor tê-los sempre à mão. Quem sabe um dia eu pratique o desapego, por enquanto, não consigo…

  2. Fatima Pombo disse:

    Isso até pode acontecer. Mas e se você vive em uma cidade aonde não existe biblioteca? Ou se na sua cidade a biblioteca não tem exatamente aquilo que você deseja ler?
    Eu sou assumidamente uma CCL.
    Quanto mais eu leio, mais eu compro!
    Em testamento deixarei tudo para a minha neta, que também já mostra sinais de uma CCL.

  3. Ana Lina disse:

    Vou ter que continuar CCL e também LCL pois aqui onde moro não tem uma biblioteca com um acervo tão interessante e atualizado para mim.Mas valeu a dica,

  4. Rubens Ap. dos Santos disse:

    Fala serio, indique uma que realmente tenha acervo de qualidade, não vale a Mario de Andrade.

  5. Mara Cristina disse:

    Legal a ideia de ir à bibliotecas públicas e muito interessante a terapia que criou, mas gosto de ter os livros que leio(amo ler, gosto de saborear o que leio e poder reler em outro momento.Tento me controlar para não me tornar uma CCL, mas ainda há muito que comprar e que ler, e quando a verba faltar, certamente usarei sua terapia!!!”…a felicidade é pública, a tristeza é privada”.<3

  6. Juan Pablo Villalobos disse:

    Caro Lenir,
    isso é triste mesmo, se, como falei no final da coluna, “a felicidade é pública e a tristeza é privada”, a mais dolorosa das tristezas, sem dúvida, é a tristeza pública. Máxime em Brasília…
    Prezada Letícia,
    meu novo romance acabou de ser publicado em espanhol este mes de outubro.
    Abração.

  7. Lenir Camimura Herculano disse:

    Triste mesmo, caro colunista, é quando a biblioteca pública que você frequentou desde criança e que até hoje era seu refúgio nos momentos de estudo, sofre uma intervenção da Defesa Civil e é obrigada a fechar as portas porque o prédio não tem condições mais de habitação. A pobre Biblioteca Demonstrativa do Livro, na 108 Sul, em Brasília, está desde o início do ano nessas condições. Os moradores e frequentadores fizeram movimentos, chamaram a imprensa….nada. Até hoje só tem uns aparadores do teto na porta da biblioteca, mas nenhuma solução. Tão triste, tão triste….

  8. Cynthia Morais disse:

    Ha ha ha ha! para mim não há salvação. Compradora Compulsiva da Cia das Letras(CCCiaLetras) Sem cura, a não ser que a editora comece a publicar somente livros ruins!E eu ainda não comprei tudo que quis por falta de verbas….

  9. Letícia disse:

    O autor poderia virar também um ECL (Escritor Compulsivo de Livros), pq eu já li duas vezes os seus dois publicados e estou em crise de abstinência há algum tempo.

  10. Darlan Grossi disse:

    Um texto criativo, cheio de metodos que realmente podem funcionar, como pude observar em alguns dos comentarios. Ouvi histórias de pessoas que para serem o que são andaram quilometros até uma Bíblioteca para ler tudo quanto podia, o proprio escritor Victor Hugo frequentava com afinco diário a Bíblioteca do Louvre, e nessas idas e vindas a ” CASA DOS NOSSOS LIVROS” bons contos, poemas e grandes histórias surgem. Confesso que no centro do Rio de Janeiro são muitas e muitas bíbliotecas mas isso restringe o publico, temos algumas poucas Bíbliotecas Parque nas Periferias onde chegou a Pacíficação porem é preciso de mais bíbliotecas no suburbio do Rio de Janeiro e uma reforma nas já existentes.

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