A narrativa do país dos mortos

Por Juan Pablo Villalobos


No ano passado, o escritor brasileiro Daniel Galera me convidou para escrever um conto para a antologia de “narrativa do crime” da América Latina, que seria publicada nos Estados Unidos pela McSweeney’s. A ideia era refletir sobre a realidade de nossos países explorando elementos dos gêneros policial e noir. Gostei da ideia, aceitei o convite e passei os meses seguintes pensando e voltando a pensar num problema que me atormenta a cada vez que eu quero escrever sobre a realidade mexicana: como escrever sobre uma realidade que tem ultrapassado atrozmente todos os limites da ficção?

Inspirado por um episódio futebolístico absurdo (o goleiro do América marcou um gol no último minuto da prorrogação da final do campeonato mexicano), acabei escrevendo um conto em que vários crimes se entrelaçavam e não ficava claro o que estava acontecendo. Eu pretendia reproduzir no leitor do conto a experiência de frustração do cidadão mexicano, que recebe atônito as notícias do dia sem conseguir interpretá-las e sem que as autoridades de justiça consigam explicá-las e punir os responsáveis. Para a construção do conto, minha ideia central era a de uma “história mal contada”, e isso ficou explícito num diálogo entre dois policiais. Um deles, o chefe, como se fosse o autor de um romance policial, inventa uma história para explicar uma série de crimes e o outro reclama que essa explicação é absurda, que ninguém vai acreditar, que tem que “armar bem a história”. Então o chefe disse:

– Onde você acha que mora? Este país nunca gostou das histórias bem contadas (…) Este país foi capaz de acreditar que o “cavaleiro águia” assassinou um candidato à presidência. A gente teve um procurador que contratou uma vidente para localizar um cadáver, lembra?, que acabaram desenterrando uma ossada que eles mesmos tinham enterrado? O que mais você quer? É possível ir além disso?

– O país mudou – responde o outro policial.

– Certo, o país mudou muito para tudo continuar igual.

Nos últimos meses, o México entrou numa crise terrível de violência, que é também, em muitos sentidos, uma crise sobre a maneira como a nossa realidade está sendo contada e explicada. E tudo veio através dos acontecimentos em duas cidadezinhas: Tlatlaya e Iguala.

Em Tlatlaya, no Estado de México, em 30 de junho, 22 pessoas ligadas ao tráfico morreram num enfrentamento com o exército mexicano. Essa, pelo menos, foi a versão oficial, celebrada pelo governador do Estado de México, Eruviel Ávila, que inclusive parabenizou o exército num primeiro momento. Mas a história oficial estava tão mal contada que hoje sabemos, aos poucos, que a verdade do acontecido foi outra: que essas pessoas não morreram num enfrentamento, que essas pessoas foram executadas.

Em Iguala, no Estado de Guerrero, 43 estudantes de Ayotzinapa sumiram depois de um enfrentamento com a polícia. Alguns dizem que o responsável pela desaparição é o exército. Outros, que foi a organização criminosa “Guerreros Unidos”. Isso aconteceu em 26 de setembro, há mais de um mês, e ninguém sabe nada dos estudantes. Cadê eles? Estão vivos? Foram assassinados? Ninguém sabe. Por enquanto, a busca termina encontrando fossas com cadáveres que, segundo as autoridades, não são dos estudantes. E quem são esses mortos, então?

E depois ainda chegou a notícia da morte de um estudante da cidadezinha onde cresci, Lagos de Moreno. Ricardo de Jesús Esparza Villegas morreu na madrugada do domingo 19 de outubro em Guanajuato, logo após, segundo os amigos dele, ser detido pela polícia. A morte ainda não foi esclarecida, mas já houve tempo para os amigos, a família e a memória de Ricardo serem difamadas pelas autoridades (outra história mal contada).

Ricardo, que tinha 23 anos e era estudante do quinto ano de engenharia, morreu durante uma viagem de fim de semana a um festival cultural chamado “Festival Cervantino”. Eu fiz essa viagem com meus amigos muitas vezes (Lagos de Moreno fica a uma hora de carro de Guanajuato). Mas isso foi há muito tempo, há mais de 20 anos, quando eu também era um estudante universitário. Essas histórias, as histórias de minha juventude, são cada vez mais difíceis de viver para os jovens no México. Eu lembro muito de uma viagem que fiz em 1999, de carro, percorrendo o Estado de Michoacán, com quatro amigos. Hoje, essa viagem seria uma autêntica loucura (Michoacán, junto com Tamaulipas, são os dois estados mais violentos do país) e quando eu conto a história dessa viagem para meus sobrinhos, por exemplo, eles acham que estou mentindo (a minha história, no contexto atual, ficou inverossímil).

Faz um tempo, vários anos, que a história do México parou de ser essa coisa exótica de que o estrangeiro tanto gostava. Essa história terminou, esse México morreu. A história do México virou um relato triste, sórdido, escuro e os mexicanos ainda não sabem o que têm que fazer para mudá-lo. Parece que a sociedade começa a acordar, a sair para a rua e a se organizar, porque, eu quero acreditar, a sociedade não consegue aguentar mais. Ninguém acredita mais na história oficial, mas ninguém quer aceitar a crueldade da história real. Mas justamente desse paradoxo deveria nascer a esperança: a de um país que quer aprender a contar bem sua própria história.

Por enquanto só tem uma coisa para dizer: Feliz dia dos mortos, país dos mortos.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.

 

7 Comentários

  1. Bárbara disse:

    Senti com o corpo inteiro o choque, tristeza e frustração contidos nesse texto. Muito eloqüente o seu relato.

  2. Fatima Pombo disse:

    Nós e os mexicamos gostamos de matar?
    E o que foi que fizeram os invasores europeus aqui nas Americas? CARINHOS?
    Me poupem de argumentos tão esdruxulos!

  3. Luis Narval disse:

    Retorno porque talvez tenha dado a entender nas entrelinhas de meu comentário anterior que é melhor manter as massas na ignorância, privando-as de uma educação mais apurada, porque assim diminui-se consideravelmente o número de infratores e criminosos realmente perigosos. Obviamente, a educação (conhecimento), como uma faca afiada não possui, por si mesma, característica maléfica alguma. Antes pelo contrário, devidamente manejada e dentro do contexto adequado é de extrema utilidade. Ocorre, no entanto, que o conhecimento, assim como uma faca amolada, devido a sua maleabilidade funcional pode ser direcionada na execução dos mais diversos fins, muitos dos quais indiscutivelmente prejudiciais. Posso esfaquear uma pessoa no peito ou posso, por exemplo, através de meus conhecimentos em informação e publicidade induzir determinado público a gastar seu tempo e dinheiro em tal e tal produto, ou convencer o eleitorado a delegar, por uma série de anos o destino de seu país à ingerência de tal e tal grupo político, independente da procedência (no caso do produto), lisura e capacidade que cada qual possa ter. Tudo isso é por demais sabido. Todavia, o que muitas vezes escapa à percepção é o quociente de má-fé (aqui de forma inconsciente) que está envolvido no anseio de adquirir conhecimento, seja para o propósito ou exercício da atividade que for. Esta “má-fé” não configura necessariamente uma “falha de caráter”, uma “má formação” ou ainda uma desonestidade intrínseca por parte daquele que avança sem maiores considerações sobre o direito alheio e atenta contra certas leis naturais invioláveis, é antes fruto de todo um contexto social por demais flexível e facilitador, onde coisas reconhecidamente insanas, como a fabricação de armas, formação de exércitos, são consideradas pela maioria das pessoas e governos como atividades não apenas legais, economicamente viáveis, mas necessárias para, acreditem, fins humanitários! Agora, façam a conta de quanto conhecimento técnico, de quantas horas de estudo especializado precisa ter um engenheiro para projetar um “simples” míssil balístico, granadas de fragmentação, fuzis de longo alcance que cedo ou tarde provocarão a morte de não se sabe quanta gente nas mais variadas circunstâncias. Será que, por hipótese, poderíamos acusar também esse engenheiro e toda cadeia de instrutores, fomentadores e financiadores que estão por trás da indústria bélica destes mesmos crimes? A lógica mais simples nos diz que sim. Mas é pouco provável que algum tribunal, a partir desta ilação mais óbvia e do rastreamento relativamente fácil de provas se arriscasse a incriminá-los. Isso se dá, paradoxalmente, porque a humanidade tende a desdenhar a configuração lógica mais simples das coisas e eventos. É preciso sempre uma ordem maior de complexidade, uma rede mais intrincada a separar a ação inicial de suas consequências finais. Eis aí, ao lado da já mencionada “má-fé” aquilo que possivelmente põe em xeque a licitude e pertinência da difusão e ensinamento de ciências e conhecimentos técnicos elaborados.

  4. rogério marcks disse:

    México, EUA e Brasil poderiam se reunir num seminário sobre “Problemas Humanos Problemas Contemporâneos” e podiam começar com um tema, comum a todos os três: violência. Ô gente que gosta de matar. Né não?

  5. Daniel Abreu disse:

    Pois é. Nós brasileiros também temos do que nos “orgulhar”. E imagino que os mexicanos, tanto quanto nós, fiquem de cabelos em pé ao ver o que o Estado Islâmico faz doutro lado do mundo… Ah, o outro lado, não?

  6. Luis Narval disse:

    Dizem por aí, inadvertidamente (já que se trata de uma meia-verdade), que tudo não passa de uma questão educacional. Onde essa não existe, ou não é devidamente desenvolvida o pior da condição humana encontra livre curso. Mas se repararmos bem, a educação, formal ou não, acadêmica ou autodidata, pouco vale por si mesma e até pode representar um incremento a mais (eu diria o mais perigoso)para a disseminação dos maiores horrores sociais que se conhece. O Brasil é bem o exemplo disso. 99% dos maiores criminosos do país cursaram as melhores universidades, e, possivelmente, estudaram Maquiavel, Karl Marx, Kant, a República de Platão e outros quetantos (aqui, a fórmula socrática conhecimento = virtude é seriamente abalada); ao lado disso, tiveram e têm acesso ao mais requintado e confortável que o regime capitalista pode oferecer, de empregos altamente remunerados a posições estratégicas, tanto no governo quanto na indústria, comércio, mídia, sistema bancário, judiciário, etc. Diríamos que a educação, neste sentido, supriu esta canalha de um ferramental que o pobre-diabo de um traficante de drogas insignificante, o joão-ninguém de um criminoso de menor potencial, um pau-mandado qualquer como esses arruaceiros que estão na moda hoje em dia jamais disporão. E a razão é só uma: falta-lhes educação, capacidade intelectual de compreender seu entorno e tirar o melhor partido das contingências. Em outras palavras: capacidade de infligir o maior dano possível. Portanto, o imenso contingente de ignorantes, iletrados e semi-letrados deste país, como também parece ser o caso do México não pode, em razão de sua ignorância acerca de quase tudo o que realmente importa nesta vida, ser responsabilizado por tamanho mal. Naturalmente, não é de todo inocente, já que, em última instância, sua apatia e indiferença por toda forma de justiça e direitos civis e humanos acaba por redundar em conivência, passividade e, finalmente, em cumplicidade cínica.

  7. Fatima Pombo disse:

    Muito bom te ler.
    A tristeza em que certas partes do mundo esta vivenciando dói!

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