Albert Camus, outsider da vida inteira, o maior intelectual francês

Por Tony Judt

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Página interna dos quadrinhos de O estrangeiro.

Em 2013 foi celebrado o centenário de Albert Camus. Um dos acontecimentos que marcou a efeméride foi a versão em quadrinhos de O estrangeiro por Jacques Ferrandez, um lançamento que se destacou nas listas de mais vendidos, entre os leitores e a crítica, e que agora chega no Brasil. Conterrâneo de Camus, Ferrandez é considerado um especialista incontestável na Argélia colonial, tendo vivido por muitos anos na mesma rua que o autor. A luminosidade de suas aquarelas e a riqueza de seus cenários demostram, de fato, que se trata de um profundo conhecedor da obra de Camus e de sua ambientação, capaz de reconstruir a narrativa com força e fidelidade e de dar conta de sua dimensão simbólica, sem suavizar seus mistérios.

Abaixo, leia um trecho de O peso da responsabilidade (Objetiva), de Tony Judt, em que o autor fala sobre o papel influente de Albert Camus na França.

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Em uma carta ao marido, datada de maio de 1952, relatando sua visita a Paris, Hannah Arendt escreveu: “Ontem eu vi Camus: neste momento, ele é, sem dúvida, o melhor homem na França. É claramente superior aos outros intelectuais”. À luz dos interesses comuns entre eles, é claro que Arendt tinha motivos próprios para acreditar nisso; mas para ela, como para muitos outros observadores, franceses e estrangeiros, Albert Camus era o intelectual francês. Nos primeiros anos do pós-guerra ele havia exercido grande influência em uma ampla faixa da opinião parisiense, recebendo semanalmente milhares de cartas em resposta às suas colunas de jornal. Seu estilo, suas preocupações, sua ampla audiência e sua aparente onipresença na vida pública parisiense pareciam encarnar tudo o que era mais caracteristicamente francês na interseção de literatura, pensamento e engajamento político.

Mas a avaliação de Arendt colidia desconfortavelmente com a opinião francesa em voga. No mesmo ano em que ela escrevia a estrela de Camus começava a se apagar. Quando da morte dele, em um acidente de carro em 4 de janeiro de 1960, sua reputação já estava em pleno declínio, apesar do Prêmio Nobel de Literatura concedido a ele apenas três anos antes. […] Os melhores anos de Camus, acreditava-se amplamente, jaziam no passado distante; fazia muitos anos que ele não publicava algo realmente digno de nota.

Em junho de 1947, ele entregou a Claude Bourdet o controle do jornal Combat, que tinha editado desde a Libertação. Como seus cadernos e ensaios sugerem, Camus já estava exausto, aos 34 anos, de carregar o fardo das expectativas postas sobre ele — “Todo mundo quer que o homem que ainda está à procura tenha chegado a suas conclusões”. Mas, enquanto nos anos anteriores ele havia aceitado a responsabilidade — “Devemos nos submeter”, como ele disse em 1950 —, no momento de sua última entrevista, em dezembro de 1959, seu ressentimento é audível: “Não falo por ninguém: tenho dificuldade suficiente falando por mim mesmo. Não sei, ou sei apenas vagamente, para onde estou indo”.

[…]

Albert Camus era em certos sentidos um verdadeiro espelho da França. É convencional entre os estudiosos de Camus ver nele um homem que não conseguia conciliar suas necessidades pessoais, seus imperativos éticos e seu engajamento político. Ele portanto mudou, assim diz a história, de um radical apaixonado para um reformador moderado antes de se tornar a voz da “razão” e do desprendimento, uma posição quase indistinguível da retirada para a decepção e o silêncio privados. Mas há mais do que isso, e Sartre, apesar de sua intenção maliciosa, chegou mais perto. “Sua personalidade, real e viva quando alimentada pelos acontecimentos, tornou-se uma miragem; em 1944 você era o futuro, em 1952 você é o passado, e o que lhe parece mais intoleravelmente injusto é que tudo isso aconteceu a você vindo de fora, enquanto você permanecia o mesmo”.

Pois o que Sartre disse de Camus era de fato verdade. […] O silêncio de Camus sobre a Argélia foi equiparado ao silêncio coletivo de seus contemporâneos intelectuais diante da transformação social e econômica sem precedentes que seu país estava prestes a sofrer. Eles ou não percebiam o que estava acontecendo ao seu redor, ou então viravam o rosto resolutamente contra isso, prestando atenção primeiro à promessa de revolução no Oriente e depois a seu eco no Sul e mais longe. O pensamento dificilmente agradaria a alguma das partes envolvidas, mas a trajetória de Camus — da confiança, passando pela incerteza, ao silêncio — é uma metáfora demasiado sugestiva para o conjunto dos intelectuais franceses do século XX.

[…]

Cinquenta anos depois, muita coisa mudou. Mas, na França como em outros lugares, a aposta de Camus ainda está sobre a mesa — agora mais do que nunca. Em toda a sua incerteza e ambivalência, com suas limitações e sua reticência, Camus entendeu corretamente enquanto tantos outros se perderam por tanto tempo. Talvez Hannah Arendt estivesse correta todos aqueles anos atrás — Albert Camus, o outsider da vida inteira, era de fato o melhor homem na França.

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Tony Judt estudou no King’s College, Cambridge, e na École Normale Superieure, Paris, e lecionou em Cambridge, Oxford e Berkeley. Foi fundador e diretor do Remarque Institute, dedicado a criar uma conversa permanente entre Europa e Estados Unidos. Em O peso da responsabilidade (Objetiva, 2014), ele examina questões cruciais na história da sociedade francesa contemporânea através de três intelectuais de grande influência na imprensa: Albert Camus, Raymond Aron e Léon Blum.