Cidadania se ensina “com”, não “sobre”

Por Lilia Moritz Schwarcz


Quando André Botelho e eu organizamos a coletânea de textos chamada Cidadania, um projeto em construção (Claro Enigma, 2013), imaginávamos estar fazendo muito — ou o suficiente — ao introduzir um tema de tal complexidade, dirigido, dessa vez, a um público que ia além dos muros protegidos da Universidade. Nós, acadêmicos, nos valemos de tal maneira do diálogo interno que, muitas vezes, acabamos por produzir estudos um tanto endogâmicos: entre nós e para nós.

Por isso, André e eu ficamos satisfeitos com o desafio de editar um livro que atendesse a um público mais amplo: proveniente dos primeiros anos das universidades privadas ou mesmo públicas, assim como leitores do Ensino Médio. Visando esse tipo de leitor, tentamos, então, deixar mais claro, mas sem simplificar, conceitos, histórias e facetas que envolviam essa grande questão da nossa modernidade.

Foi com esse objetivo que lançamos nosso livro, contando com a colaboração de vários professores que trataram do tema a partir de diferentes ângulos, e retomaram a questão da cidadania a partir de faces distintas: justiça e direitos; esferas públicas e privadas; religiosidade; violência; racismo; questões de gênero; movimento LGBTS. Lançado o livro, ele ganhou vida própria, e mostrou como há questões que são vocacionadas para adentrar o espaço público.

Foi assim, com um certo susto e igual grau de ceticismo, que recebi e atendi ao convite feito pelo COC SAPIENS para que participasse de um debate com alunos do Ensino Fundamental. Mais especificamente, dos 9 aos 14 anos. Ceticismo, pois, do alto de meu isolamento acadêmico, não podia imaginar que o tema fosse fazer sentido e “apaixonar” leitores que recém começavam a se experimentar na nossa vida cívica.

Ainda bem que errada estava eu ao supor que assuntos como esses têm idade certa, ou “prazo de validade”. Fui à escola com minhas anotações preparadas: pronta para dar uma aula e responder questões. O problema é que, mais uma vez, estava equivocada. Na verdade, logo que entrei no COC SAPIENS, entendi que era melhor guardar minhas notas no bolso.

Chegando a um corredor, me deparei com uma “floresta de conceitos”. O pior (ou melhor) é que além de conceitual, a floresta era também real, sendo composta por temas muito palpáveis, como: favela, saúde, desigualdade social, cultura, minorias, capitalismo, felicidade, utopia, liberdade, segurança, domínio, escravidão, fome, ambição, força, raça, suicídio e outros mais. Foi emocionante verificar como os vários domínios do livro eram pronta e corretamente “traduzidos” para se transformarem em questões que faziam sentido naquele contexto e para aquele grupo, em especial.

Mais emocionante, ainda, foi notar que a “floresta era viva”: habitada pelos alunos cidadãos, que fizeram uma espécie de “visita guiada” comigo, explicando cada um dos painéis, opinando e participando. Nada parecia exterior, tudo era incorporado ao ambiente e ao trabalho lá realizado. Naquele “bosque”, não existiam limites claros e a interdisciplinaridade reinava majestosa. Na minha frente apresentavam-se “lições” retiradas das aulas de história, de desenho, de português, de filosofia, e tudo mais que fosse possível incluir. Nesse teatro de ensino, tanto os professores — Ana Paula Peixoto da Silva Lima (produção textual), Adriana Gomes (artes plásticas), Eduardo Osti Garcia (filosofia), Diego Luiz Escanhuela (história) —, como a coordenadora Marcia Celestine Vaz e sobretudo os alunos encontravam-se igualmente motivados e dispostos ao diálogo.

Depois desse “passeio no bosque de ideias”, fomos todos para uma sala de aula. Achei que era chegada a hora de finalmente proferir minha palestra, mas, ainda essa vez, estava equivocada. Na verdade, primeiro ouvi um depoimento muito bonito, feito pelo professor de História, o qual, por conta dessas coincidências que a vida traz, conhecia meu trabalho, mas também partilhava comigo amigos muito especiais.

Já muito sensibilizada, passei a anotar questões vindas dos alunos. Se algumas eram previamente elaboradas, outras foram surgindo na ocasião, fruto do debate e do verdadeiro diálogo que passamos a travar: de igual para igual.

Saí de lá atrasada, mas esquecendo da hora. Fiquei matutando sobre como o conhecimento é infindo e sempre sujeito a novos desdobramentos. Pensei também no momento especial que nosso país experimenta, quando passamos por um processo eleitoral tão nervoso quanto participativo, e como os brasileiros deixaram de se comportar passivamente para lutar por seu próprio destino.

Mas, com certeza, o que mais mexeu comigo foi a certeza de que o país e sua juventude nada tem de alienados. Ao contrário, na minha frente vi alunos muito mais politizados do que eu me lembrava de ter sido, nessa mesma idade. Ao invés de imaginarem que esse tipo de agenda era exclusiva de um “mundo adulto”, nesse caso, eram os alunos que introduziam novas possibilidades e horizontes.

Foi o historiador P. Arriés, em História social da criança e da família, quem escreveu como não existem dados estáveis e universais para indicar os limites entre infância, juventude e a entrada do mundo adulto. Na verdade, as sociedades é que inscrevem nos corpos as cicatrizes da cultura. Talvez por isso, eu tenha estranhado esse descompasso entre a memória de “meu mundo juvenil” e esse outro mundo, muito menos ingênuo. Não há por que fazer “menos” da minha geração, e “mais” dessa. Talvez o mais relevante seja voltar — a partir de novo ângulo — ao tema da cidadania e das mudanças que vemos presenciando.

Em nosso livro chamamos atenção para como o Brasil chegou tarde — apenas nos anos 1970 — a essa vigorosa agenda dos direitos civis. Ou seja, nesse mundo legal das proteções e privilégios pessoais dados a todos os cidadãos por lei. Talvez sejam essas “novidades” que tenham gerado uma sociedade mais politizada, atenta, alerta e que não distingue gerações. Podemos prever, assim, um mundo civil e cidadão muito mais amplo, que inclua a Terceira Geração, mas também a Primeira, a Segunda e tantas outras.

Uma política virtuosa produz, também, cidadãos virtuosos e vice-versa. Um mundo cidadão feito de instituições sociais fortes produz representantes críticos e que se valem das benesses das democracias consolidadas. E, quem sabe, essa apresentação dos alunos do COC SAPIENS seja um bom termômetro para medir a alteração na nossa temperatura cidadã.

Historiadora que sou, fiquei pensando como vale à pena experimentar as voltas que o mundo dá. Quem sabe o conteúdo daquela “lição” possa ser resumido da seguinte maneira: conhecimento não se faz sobre, mas com.

Tocou o sinal, chegou o intervalo: hora de ir para casa. Diante da aula de cidadania que recebi, parti com uma certeza: a de ter aprendido muito mais do que ensinei. Bela inversão; rara oportunidade!

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.


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