Desapontamentos IV

Por Joca Reiners Terron

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1.
É impossível secar time alheio em plena temporada de chuva.

2.
Dica de escrita: uma volta no quarteirão seguida de dose de uísque resolve qualquer impasse narrativo. E o bom é que pintam vários impasses por dia.

3.
Durma-se com um silêncio desses.

4.
Para o míope, tomar banho e não lavar os óculos é o mesmo que continuar um pouco sujo.

5.
Quando criança eu achava que o cão pequinês de minha avó tinha esse nome porque era pequeno, e não porque sua raça vinha de Pequim.

6.
Para chamar o meu nome, minha mulher — assim como os esquimós ao gelo e os gatos à fome —, inventou cinquenta diferentes formas de cicios e sussurros.

7.
É muito ingênuo aquele que não acredita que os japoneses já inventaram o frango com doze corações e seis coxas.

8.
É complicado se autopremiar com um automóvel por uma vitória pessoal, pois automóveis vêm com defeito, quebram ou são roubados, enquanto a verdadeira vitória nunca tem defeito, quebra ou pode ser roubada.

9.
Tem noites de insônia em que me sinto um atum no convés de um pesqueiro japonês forrado de colchões para não me deixar hematomas.

10.
Lição de Política Atualizada: Esquerda e Direita se fundiram na Ambidestra.

11.
É impossível ler nas entrelinhas do Tuíter, no máximo dá pra ler nas entreletras.

12.
Todo aforismo que se leva a sério tem cheirinho de epitáfio. Como este aqui.

13.
Qual criança brasileira não temeu que um dia Zumbi dos Palmares lhe aparecesse e devorasse o cérebro?

14.
Um dicionário que cai da estante em nossa cabeça sempre nos deixa sem palavras.

15.
Onde foi parar a balconista? Não a moça ou a função, mas a palavra. Detrás do balcão é que não está. Terá fugido com o guarda-chaves?

16.
A cada encontro no banheiro com as exigências da fisiologia, dois ou três capítulos do Brás Cubas: esse é o ritmo do sábio.

17.
A grossura da unha do dedão do pé de um velho é a medida exata de sua teimosia, justamente a necessária para aparar a unha.

18.
Desafio contemporâneo: não se conformar ao Daltontrevisanismo semioculto e almejar a impossível Btravenidade em tempos de exposição total.

19.
Senhora do prédio me conta no elevador que passeando no bairro levou uma queda e se machucou. Quando levantou, foi assaltada. Que acontece?

20.
O fato é que Giordano Bruno está mais para prato grelhado do que para nome de dono de restaurante.

21.
Minha amiga Regina está de seis meses e trabalha doze horas por dia como garçonete. Seu primogênito acha que o irmão caçula já vai nascer cansado.

22.
Preferia o Tuíter ao Instagrã, pois sempre acreditou que cento e quarenta caracteres falam mais do que mil imagens.

23.
O toca-cd teve uma vida útil tão curta que não houve nem mesmo tempo para se criar um nome afetuoso para ele, como vitrola ou radiola.

24.
Só o cérebro consome quarenta por cento da energia do corpo. E ainda dizem que não custa nada sonhar.

25.
Piada ouvida em Belém: o prefeito ia receber uma comissão da OEA e tascou essa: “Como assim, ó é a? Pois lá na minha terra ó é ó e a é a…” E assim segue o baile da política.

26.
Há um grupo de cantores de ópera no hotel. Falam e se comportam como se o saguão fosse um palco. Batem palmas para tudo. As sopranos lembram focas. Os tenores, leões marinhos. Eu sou a sardinha espectadora.

27.
Aquele que hesita em passar adiante a nota de dez reais estalante de tão nova no fundo não acredita na existência de outras iguais.

28.
Não é no mínimo curioso criticar a acefalia política de São Paulo, uma cidade cujo padroeiro foi decapitado?

29.
Um homem é devorado por seus porcos nos EUA e todos estranham, menos os porcos. Estes só estranham quando são devorados pelo homem.

30.
Não é irônico que os grandes revisores ortográficos sempre se chamem Huendel ou Uílson?

* * *

Leia também os Desapontamentos I, II e III.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Um Comentário

  1. Suzana disse:

    Pequinês deveria ser um cachorro pequeno…Que criança nunca pensou nisso como uma obviedade?

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