Noite de Estreia #2 – Fernanda Torres e Gregorio Duvivier

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Foto: Renato Parada

No dia 13 de novembro aconteceu em São Paulo, no Cine Joia, o Noite de Estreia #2, evento de lançamento dos livros Sete anosde Fernanda Torres, e Put some farofa, de Gregorio Duvivier. Antes da sessão de autógrafos, os autores fizeram um bate-papo em que comentaram suas obras e falaram de suas carreiras. Leia a seguir os textos de apresentação de Fernanda e Gregorio.

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Por Gregorio Duvivier

O mundo tem uma relação complicada com os atores. A primeira impressão é que são idolatrados: frequentam todas as campanhas publicitárias, vivem nos castelos de “Caras”, nas ilhas de “Contigo”, nas cordilheiras da “Quem”.

No entanto, basta um olhar mais aprofundado para perceber uma relação, no mínimo, desconfiada para com (sempre quis usar “para com”) o ator.

“Não acredita nele, esse cara é um ator”. O ator está lá nos últimos círculos do inferno, ao lado dos advogados e dos atendentes de telemarketing.

A mesma desconfiança temos com a mulher, de quem a sabedoria popular diz que devemos desconfiar. “Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?” “Todo o mundo trai, a diferença é que mulher sabe trair.”

Toda mulher é vista como uma atriz: talvez seja a possibilidade de esconder a paternidade que deixe o homem paranoico. Talvez seja a possibilidade de fingir um orgasmo. O fato é que aprendemos desde cedo: mulher mente.

Fernanda Torres venceu todos os preconceitos. Mulher, atriz, filha de gênios (mais que isso: filha da nossa maior unanimidade), Fernanda é a pessoa mais genial — e confiável — que eu conheço. Sigo ela há muito tempo.

Na época, para seguir alguém não bastava clicar no “follow” — antigamente era preciso ir aos teatros, cinemas, enfrentar filas, pagar ingressos.

Mesmo que fosse na televisão: era preciso ficar acordado até tarde, perder festas, jantares, aniversários — dava trabalho gostar das pessoas.

Segui a Fernanda obsessivamente, e ela nunca me decepcionou.

Seu livro Fim é um primor. Seu livro Sete anos é uma delícia do começo ao fim. Fernanda fala de pornochanchada como quem fala de Nietzsche, enxergando metafísica na putaria e vice-versa.

Foge do óbvio como se ele fosse um atendente de telemarketing. Cada coluna tem o entusiasmo da primeira e a coragem da última. Fernanda levou para a crônica o grande trunfo da atriz, o de injetar emoção na repetição.

Camus comparava o ator a Sísifo, figura mitológica condenada a carregar uma pedra até o alto do monte e, chegando ao topo, assistir a pedra rolar ribanceira abaixo, para só aí repetir sua tarefa. A cada dia, o ator de teatro perde tudo o que faz e, no dia seguinte, retoma tudo do começo.

Fernanda, nossa melhor Sísifa, passou a vida empurrando cada rocha como se fosse a primeira, como se fosse a última. À diferença dos espetáculos, suas novas rochas já não precisam descer ribanceira abaixo. No livro, elas estão lá no alto, perfeitamente suspensas, enfileiradas, como um Stonehenge celeste — só nos restas venerá-las.

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Por Fernanda Torres

A primeira vez que eu senti que estava demodê foi com o Gregorio. Gravávamos um comercial de sabão líquido, sentados num sofá, bancando o marido e mulher.

O Gregorio é desses homens que não tem idade, nasceu com cara de velho e vai ser um velho com cara de garoto. De forma que eu estava lá, comendo pipoca em frente à TV do cenário, fingindo que eu era casada com ele. Lá pelas tantas, perguntei por perguntar em que ano ele havia nascido. 80? Arrisquei. E 6, ele respondeu, 86. Me senti pessoalmente ofendida.

Em 86, eu tinha 21 anos, eu estrelava uma novela das 8 e ganhava um prêmio de atriz em Cannes. Imaginei o bebê Gregorio, já com essa carinha de vovô, casado comigo, já de maior. A campanha publicitária de sabão líquido ganhou ares de pedofilia.

Mas o sentimento de fruta madura não se deve só à idade. O Gregorio, lá com a cambada dele, inventou o primeiro canal de Internet que deu certo no Brasil. O Porta dos Fundos faz humor ferino, com inteligência, sem intermediários. Enquanto eu não uso o Twitter, só recentemente aderi ao Facebook e ainda vivo de contrato. O Gregorio é ídolo do meu filho, que me trata como se eu fosse tataravó dele.

Os textos do Gregorio na Folha são desabusados, irônicos, irreverentes. Ele diz que fuma maconha, cheira pó, toma psicotrópicos, e isso não arranha em nada a sua reputação. Eu me sinto ameaçada nesse palco porque sei que ele vai ler aquela pintura do “Pardon Anything” e eu só tenho as minhas considerações de meia idade para oferecer. Aqui, eu sou escada de um fedelho, é duro, mas é verdade.

Como se não bastasse, o Gregorio tem voz suficiente para cantar em musical e faz poesia. Boa, o que é pior. Enquanto eu me formava em escolas experimentais do Rio de Janeiro, daquelas que dão muita importância à criatividade do aluno, ele cursava o Licée francês. O Gregório deu filosofia no ensino médio, para não usar o antigo termo: científico.

Gregorio, eu não posso dizer que quando eu crescer eu quero ser você. Porque se eu crescer muito, é a morte que me espera. Declaro, aqui, que quando eu reencarnar, eu quero voltar igual a você. Com uns vinte centímetros a mais, é verdade, um peitoral mais trabalhado, com uma cabeleira mais farta, mas com um córtex frontal igualzinho ao seu. Não sei, uma mistura sua com o Chay Suede me cairia muito bem.

Mas como eu não sou budista reencarnacionista, me contento em estar aqui do seu lado, em ler suas crônicas no jornal, em ligar os pontos da sua poesia, em rir de você no computador e em agradecer a Deus por dividir esse palco, nessa noite, com você.