O projeto como pólen: sonhamos, portanto existimos

Por Ana Maria Bahiana

gallery2
Uma das imagens do documentário Jodorowsky’s Dune. 

Para onde vão os projetos que nunca são feitos? Que tipo de limbo entre-mundos acolhe essas ideias tantas vezes nutridas por intenso amor e  gestadas com o ardor das grandes paixões e que, por algum jogo de dados da Fortuna, jamais se manifestam plenamente?

Existe a Gaveta, a proverbial e eterna Gaveta. Todos nós temos a Gaveta, nem que ela seja uma caixa, uma pasta, uma cesta. Seria a Gaveta a estação terminal, então?

Eu acho que não. Acho que, como tudo na Natureza, toda energia se transforma em alguma outra coisa.

Vendo afinal o excelente documentário Jodorowsky’s Dune minhas suspeitas foram confirmadas.

Um pouco de pano de fundo: autor, ator, mímico, artista plástico, dramaturgo, cineasta, Alejandro Jodorowsky nasceu no Chile em  1929, numa família de judeus da Ucrânia, e foi um dos luminares da contracultura graças, principalmente, a dois filmes: o western psicodélico El Topo, de 1970, e a acid-trip filosófica-esotérica A Montanha Sagrada, de 1973. Dizer que Jodorowsky usa livre-associação, com um pé em Jung e outro no xamanismo-budismo, é empregar uma definição extremamente restrita. Melhor usar as próprias palavras dele, logo no começo do documentário: “Eu sempre quis criar a sensação de estar viajando de ácido. Não que a pessoa precise viajar de ácido para ver meus filmes, claro. Eu queria criar a sensação de viajar de ácido sem precisar tomar ácido”.

Em 1974 um grupo de produtores franceses adquiriram os direitos de Duna, o épico de ficção científica escrito por Frank Herbert. Publicado em 1965, Duna rapidamente tornou-se uma espécie de O Senhor dos Anéis da sci-fi, a versão interestelar de uma busca metafísica, um Flash Gordon guiado pelo Don Juan de Carlos Castañeda. Encantados com o sucesso de A Montanha Sagrada, que havia se tornado um arrasa quarteirão entre os midnight movies, os produtores ofereceram o projeto a Jodorowsky.

E é aí que a verdadeira saga começa.

Possuído pelo espírito “messiânico” de Duna, Jodorowski começou a arregimentar a equipe que realizaria sua visão. Em pouco tempo, havia ao seu redor um dos grupos mais talentosos e interessantes do final do século 20: Jean “Moebius” Giraud realizou os storyboards, efetivamente colocando no papel, tomada a tomada, a versão jodorowskiana de Duna; o artista plástico suíço H.R. Giger, que jamais havia trabalhado com cinema, ficou encarregado de conceber as naves espaciais, as vestimentas e os prédios; Chris Foss, artista plástico e capista das maiores obras de ficção científica, criou os esboços das paisagens e planetas; Dan O’Bannon, que até então fizera apenas um curta com John Carpenter, seria o supervisor de efeitos especiais; a trilha musical foi entregue ao Pink Floyd e ao grupo francês Magma (cujos integrantes também foram escalados para interpretar os vilões de Duna). O elenco, aliás, incluía, além do Magma, Salvador Dalí, Orson Welles, Mick Jagger e David Carradine.

As histórias de como Jodorowsky chegou a essa equipe e esse elenco são contadas em deliciosos detalhes no documentário, mas para mim o mais importante é o que vem logo depois: o terceiro ato do projeto, quando, num arroubo de otimismo, Jodorwosky e seus produtores tomam o rumo de Los Angeles armados de cópias do volumoso livro contendo as minuciosas storyboards de Moebius, certos de que encontrariam em Hollywood o financiamento que necessitavam.

Claro que não aconteceu coisa alguma.

O mais doloroso e o mais fantástico da visão de Jodorowsky para Duna é que ele estava absolutamente certo. Certo demais: o tempo para que ela fosse executada ainda não tinha chegado — um problema comum a visionários e místicos.

O que aconteceu com as vastas ideias que Jodorowsky e sua equipe acumularam durante o desenvolvimento do projeto confirma minha intuição de que projetos são essencialmente energia, pólen, sementes voadoras, capazes de renascer de muitos modos diferentes. A partir de Duna, Dan O’ Bannon e H.R.Giger escreveram e idealizaram visualmente Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott. Um sem-número de ideias e conceitos de Moebius e Foss aparecem, inequivocamente, em personagens e cenas de Star Wars, Indiana Jones, Matrix e praticamente todos os filmes de sci-fi e super-herói a partir do final dos anos 1970. Jodorowsky e Moebius colaboraram numa série de graphic novels baseados em seus storyboards — o ciclo L’Incal — mas na verdade a mais ampla influência de sua obra pioneira e abortada está em praticamente todo o imaginário cinematográfico de fantasia: a confluência de orgânico e mecânico, a dimensão metafísica do espaço exterior, as possibilidades de percepções paralelas.

É uma constatação que assusta mas também conforta. Francis Ford Coppola me disse, certa vez, que todo criador é um pouco mago ou bruxa: ao focar sua energia, durante um longo tempo, sobre um conjunto de ideias, ele ou ela acaba contribuindo para que as ideias se manifestem no plano material, de uma forma ou de outra. Talvez não do modo como o criador planejou, mas esse é o risco da dança da criação: no final das contas, somos o que sonhamos.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Deixe seu comentário...





*