Quente e frio

Por Leandro Sarmatz

8499552844_8290b3f0df

Ainda não tive a sorte de ler Graça infinita, o enorme catatau (todavia assombrosamente divertido, dizem) que influenciou uma penca de escritores contemporâneos. De Foster Wallace li apenas os contos e alguns ensaios, portanto a visão que tenho de seu trabalho é penosamente parcial, uma vez que ainda não mergulhei no seu grande romance. Admiro tanto sua ficção curta quanto a produção ficcional, inteligente, divertida, irônica e formalmente brilhante. Todavia, chamar DFW de escritor engenhoso é baratear demais a expressão, pois a primeira impressão que o virtuosismo causa (seja na literatura, seja no cabeludo solando quinze minutos em sua guitarra) é de que onde há “técnica” demais falta “alma”. Salpique as duas palavras com todas as aspas disponíveis em seu teclado. Terror, né?

Claro que há escritores (e guitarristas e pintores e cineastas e dançarinos) que se movem justamente no terreno da técnica extrema. Mas estes, em sua grande maioria, costumam provocar bocejos na maioria e entusiasmar apenas alguns acólitos. Porque a técnica, por mais difícil que seja dominá-la, é apenas isso: uma forma, uma gramática, um procedimento. Há qualquer coisa de impostura quando nos deparamos com um artista que é só técnica. Sem incorrer (novamente) na chorumela da “alma”, falta ao mero virtuose um não sei o quê de próximo de nós, seus irmãos humanos, de mais cálido. Sim: trata-se de temperatura. Parece haver uma frieza inerente em qualquer demonstração extrema de perícia. Escritores “quentes” costumam ser menos atentos à técnica, escritores “frios” são os calculistas da página em branco. Esse é mais ou menos um tópico recorrente, comum, clássico.

Será? Em muitos casos, sim, porque a técnica serve para talvez escamotear alguns traços indesejáveis ou driblar até mesmo algum tipo de dificuldade. Mas é possível ter a técnica e ser quente, e para isso há uma longa fila de autores nos esperando, como Joyce (até Ulysses; depois ele torrou o coco), Beckett, Bellow e Bernhard que dominam perfeitamente os instrumentos de sua arte (o ritmo e os silêncios, a construção de vozes e a música interior da página em prosa, respectivamente) e mesmo assim continuam carne, sangue e (perdão) fezes. Atingiram o máximo com sua arte, mas estão do nosso lado, ainda que fazendo fricassê das nossas boas intenções, visão de mundo etc.

Tenho a impressão que David Foster Wallace fazia parte dessa linhagem.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.