A Sony, o inimigo invisível e as entranhas da vaca sagrada

Por Ana Maria Bahiana

a entrevista

Cartaz de A entrevista, que teve sua estreia cancelada esta semana depois de ameaças. 

Prólogo: numa madrugada fria e chuvosa em dezembro de 2012, eu estava com um pequeno mas brilhante time de repórteres e gente de TI numa sala nada charmosa do hotel Beverly Hilton, em Beverly Hills. Depois de vários testes e ensaios, estávamos pondo no ar o anúncio dos indicados ao Globo de Ouro de 2013.

Era um momento especial, a primeira vez na história da Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood que o anúncio era feito simultaneamente no mundo todo, pela internet. Tudo começou bem, sinal forte. Na marca de um minuto e 30 segundos, o streaming congelou. Dez segundos depois, o sinal desapareceu.

Estávamos sendo atacados por uma rede de inimigos invisíveis e de motivação misteriosa. Nosso webmaster e os técnicos da Amazon responsáveis por nossa rede rapidamente localizaram a origem do ataque: uma cidade dos Territórios Palestinos. Em minutos, outros pontos se ligaram ao primeiro hack: China, Tailândia, Amsterdã e, finalmente, Londres.

O ataque durou quatro horas e inutilizou todas as nossas plataformas. Até hoje não sabemos quem o orquestrou ou por quê. Imagino que tenha sido como o Everest: simplesmente porque estávamos lá.

Quando, na manhã de 24 de novembro deste ano, começaram a circular as notícias de um hack maciço na rede dos estúdios da Sony, pensei imediatamente em duas coisas: no meu contato imediato (e não-provocado) com os inimigos ocultos, dois anos atrás; e nos amigos que tenho na Sony, e como suas vidas seriam afetadas.

Um mês depois, o ataque à Sony fez muito mais do que simplesmente (e nunca é “simplesmente”…) inutilizar a rede de um dos maiores estúdios da indústria audiovisual e roubar TODOS os seus arquivos. No momento em que escrevo isto, o debate, aqui, está focado num ponto sagrado da visão norte-americana do mundo: a liberdade de expressão. O modo como uma nação governada por uma ditadura pode, à distância e sem disparar um tiro, ameaçar, limitar e finalmente impedir completamente o compartilhamento de uma forma de expressão — no caso, a comédia A Entrevista, que, com sua história em torno do assassinato de Kim Jon-Un, líder supremo da Coréia do Norte, tornou-se o pivô do ataque.

Mas vejo tantas, tantas outras implicações nesse ataque. Na escala micro da vida na bolha de Hollywood, o hack trouxe à tona uma enorme nuvem tóxica de fofocas e disse-me-disse, para delícia dos blogueiros. Muito mais interessante, contudo, foi a revelação dos processos internos do fazer cinema em larga escala nos dias de hoje: de onde vem o dinheiro (de fundos internacionais de investimento, principalmente na Ásia), para onde vai o dinheiro (para altos executivos e estrelas do sexo masculino, prioritariamente), como as decisões são tomadas (por pressões e alianças pessoais, quase sempre). Ao explodir as pastas de e-mail da Sony, os hackers fizeram um pouco como os oráculos da Grécia antiga, colocando as tripas da vaca sagrada para todo mundo ver presente e futuro.

As implicações macro são sinistras, e não apenas pela questão da liberdade de expressão (que já é enorme). Um ataque a um estúdio do porte da Sony, com seus milhares de funcionários, prestadores de serviços e fornecedores, espirala rapidamente do impacto na vida pessoal (números de documentos, endereços domiciliares, dados da família, contas bancárias) para a esfera da vida financeira e econômica da cidade, do estado e do país. Produções de cinema e TV estão paradas porque o estúdio perdeu a capacidade de gerar pagamentos (e isso envolve não apenas as pessoas “da indústria” como fornecedores de eletricidade, transporte, comunicação, alimentação, vestuário…). Números de social security — o CPF norte-americano — terão que ser substituídos, processo demorado e complicado, da esfera federal. Vários grupos de funcionários e seus sindicatos estão armando processos contra o estúdio por perdas e danos.

E, é claro, ficou óbvia a brecha de segurança não apenas na Sony como em toda a rede norte-americana. A Sony tinha, sabidamente, um dos sistemas mais fracos (senão o mais fraco) entre todos os grandes estúdios. Em 2011 a rede de games da PlayStation foi hackeada. Na investigação que se seguiu, ficou claro que o sistema da Sony estava vazando dados diariamente, por vários pontos fracos. Passou-se uma fita adesiva virtual para tapar os buracos, o CEO Kazuo Hirai disse que os reparos eram “satisfatórios” e pronto.

Neste momento fala-se na criação de uma comissão do Senado para levantar as brechas na macro-estrutura cibernética de todo o país. Os Estados Unidos já tiveram medo dos mísseis soviéticos e das sapatadas de Kruchev. Agora, o inimigo não tem rosto, nem nome, nem armas visíveis, e pode, num par de semanas, ditar o que pode ou não ser criado e compartilhado.

As entranhas foram expostas, e o oráculo é sinistro.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

2 Comentários

  1. Bruce Torres disse:

    Apesar do cara ser um ditador que ferra o país dele, é de se pensar até onde essa liberdade de expressão vai. Não vejo daqui, mas daí dos Isteites alguém que queira escrever uma obra onde o Obama é morto poderia apelar para alguma das emendas?

  2. Darlan Grossi disse:

    É realmente “As entranhas foram expostas, e o oráculo é sinistro.”, isso me faz lembrar os Reis que tomavam suas decisões com base no que os oráculos diziam, e muitas vezes não era levada em conta a vontade do Rei e sim do oráculo que tem sobre o seu domínio o presente e o futuro. Muito boa a visibilidade do seu texto uma nova perspectiva para um assunto evitado… Parabéns

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