Romances a jato, competições estranhas e a carta dos Beats

Por Carol Bensimon

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Kazuo Ishiguro escreveu sobre escrever um romance em quatro semanas. Em um texto originalmente publicado no Guardian e reproduzido neste blog, o autor conta como concebeu Os resíduos do dia em um rígido esquema que previa 10 horas de escrita diária, nenhum convívio social e a suspensão temporária de todas suas obrigações domésticas (como cozinhar e limpar a casa). Quem leu Os resíduos do dia sabe que esse é um livro ambientado no interior da Inglaterra, período entreguerras, com foco na rotina segregada de um mordomo, na acepção mais britânica e radical da palavra. Estou dizendo isso para que ninguém se iluda com essa sensação de que um-livro-ótimo-foi-escrito-em-quatro-semanas, eu também posso fazer etc.: o próprio texto de Ishiguro deixa claro que ele havia sido tragado anteriormente por uma extensa pesquisa (“livros de e sobre mordomos britânicos; sobre política e relações exteriores no entreguerras; muitos panfletos e ensaios da época, notadamente o de Harold Laski sobre Os perigos de ser um cavalheiro. Havia pilhado as prateleiras de livros usados da livraria do bairro [Kirkdale Livros, ainda uma próspera independente] em busca de guias sobre o interior da Inglaterra entre os anos 1930 e 1950”). Além disso, foi preciso tempo depois (ele não especifica quanto) para que suas “frases horríveis, diálogo dantesco, cenas que não davam em nada” fossem transformadas no romance que conhecemos hoje.

O.k., esse livro então não foi escrito em quatro semanas. Mas vamos supor que sim, que o que conta de fato é essa espinha dorsal da obra, não a pesquisa anterior, não o trabalho de formiga de depois, mas o jorro das quatro semanas em que todo o resto da vida parou. A questão que me deixa a pensar a partir disso é: por que nos importamos tanto com o fato de que esse livro foi escrito em quatro semanas? Por que o fato de Kazuo Ishiguro, ótimo, reconhecido autor de relativo sucesso comercial, ter escrito um de seus livros (não todos) em quatro semanas subitamente parece significar que qualquer um pode fazer a mesma coisa com qualquer livro? Será que não é mais fácil para qualquer um tentar escrever um livro em dois ou três anos, uma vez que esse tempo de escrita parece ter gerado mais livros significantes do que as raras quatro semanas de imersão?

Algumas coisas — escrever romances é uma delas — nos demandam muito tempo. Isso é mais difícil de aceitar hoje do que foi em qualquer outra época. É a época do TED, em que pessoas ficam num palco feito baratas tontas e com a fala acelerada tentando transmitir “uma ideia geral” sobre algo que provavelmente consumiu boa parte de suas vidas. E é como se pedissem desculpas o tempo todo por estarem ocupando tanto tempo (15 minutos?) das nossas vidas!

* * *

Existe um evento nos Estados Unidos chamado National Novel Writing Month. Ele acontece em novembro desde 1999 e convoca as pessoas a escreverem um romance de 50.000 palavras em um único mês. Segundo um artigo da crítica literária Laura Miller, que contesta fervorosamente essa competição pueril e sem sentido, 21.683 pessoas cumpriram a meta em 2013.

As considerações de Miller valem a leitura porque, além de demonstrarem o quanto é infrutífera uma ação que prevê a escrita alucinada de novelas ruins, tratam de um tipo que eu, ingênua, acreditava mais presente no mundo literário brasileiro: o aspirante a escritor que não lê.

— O que você lê?

— Ah, eu não tenho tempo para ler. Estou me concentrando na minha escrita. 

* * *

Difícil encontrar na internet o tempo que grandes clássicos da literatura universal levaram para ser escritos, mas as dicas para elaborar um romance em poucas semanas estão por todos os lados. Não tenho a mínima paciência para elas, no entanto me senti impelida a clicar em um link que listava seis romances famosos escritos em menos de um mês (de novo a lógica TED de encarar a vida: por que não nos preocupamos mais com os romances famosos que demoraram anos para chegar a sua forma final?). E lá estava On the road.

Ora, claro que eu já ouvi muitas vezes aquela história sobre o rolo de papel interminável e Jack Kerouac por sei lá quanto tempo datilografando sem parar. Mas acontece que, nos últimos meses, por conta de uma série de leituras (isso, leituras!), acho que entendi melhor uma porção de coisas envolvendo esses caras da Geração Beat. E inclusive, numa sincronia quase irreal, descobri uma história fascinante: em 1950, Jack Kerouac recebeu de Neal Cassidy uma carta. O.k., isso não era propriamente um acontecimento, uma vez que eles trocavam cartas com regularidade. Mas essa carta específica em que Cassidy descreve seu relacionamento com uma mulher chamada Joan Anderson ia entrar para a história porque a prosa de Cassidy no documento alucinado de 18 páginas causou uma pequena revolução na literatura de Kerouac e de Allen Ginberg. De repente, eles entenderam que era daquele jeito que tinham de escrever. Nessa altura, Jack já tinha escrito sobre suas aventuras na estrada. Então, em 1951, ele sentou e reescreveu tudo sob influência da Joan letter de Cassidy. Mas tudo tinha começado em 1948.

O final dessa história eu relato apenas porque é uma boa história, ainda que ela também nos diga alguma coisa sobre tempo, sobre descontrole e a aceitação de tudo isso. Kerouac emprestou a carta para Ginsberg, que estava igualmente fascinado por ela. Em algum momento, Ginsberg mandou a carta para uma editora de São Francisco. A carta se perdeu, era única, ninguém mais além de um punhado de pessoas jamais leu essa carta. E então foi achada dois meses atrás. Dois meses atrás. Alguém morreu, a filha vasculhou as coisas do pai, lá estava a carta. Depois de mais de 60 anos. A carta ia a leilão, mas há alguma discussão nesse momento a respeito de direito autoral, sabe-se lá o que vai acontecer agora. De qualquer maneira, espero que a carta esteja acessível para o grande público em breve. E que nenhum aspirante a escritor assista a uma futura apresentação do TED sobre ela em vez de ler a maldita carta de 18 páginas.

 * * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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8 Comentários

  1. thadeu disse:

    não li ‘os resíduos’ mas lembro q ‘o cheiro do ralo’ foi escrito no período de um carnaval, se n me falha a memória está assim publicado na edição da devir…

  2. Jair disse:

    Reflexões muito interessantes. Concordo sobre esta “era TED”. Saudades do tempo das cartas, quando as relações eram reais e palpáveis.

  3. […] nota foi levemente baseada nesse ótimo texto de Sérgio Rodrigues e nesse de Carol Bensimon. Aos que discordam, sugiro fazer o teste empírico: escreva um conto e um […]

  4. No fundo no fundo a profundidade de 18 páginas podem brilhar mais que cem páginas… é isso?!… ou entendi errado…

    Ps.: Eu leio mais do que escrevo e quero lançar um livrinho, mas sem escrever acho meio difícil, né?!…haha :P

  5. Que cutucada interessante, Carol.
    A ideia parece tentadora, porque se depois de grande esforço e cuidado através de muito tempo escrevendo um livro, a gente ainda é capaz de um resultado mais ou menos, por que não aceitar o que você é capaz de escrever em um mês?
    Mas não sei quem ganha com isso, ou o que ganha.

  6. Michelle disse:

    Sabe, Carol, eu sempre estive preocupada com esse tipo de coisa… Não lêem e planejam empreitadas mirabolantes. Atualmente, pouca gente lê dedicadamente. Poucos dedicam tempo à compreender um livro e arrisco dizer que alguns nem sequer sabem responder que motivação tiveram para se dedicarem a uma leitura. Se não é para estabelecer um ranking, ou para fazer um check list nos mais lidos (ou mesmo nos clássicos), esclarecer a motivação é escusada. Há tanto para ser lido em meio a esse ritmo de vida frenético que fragiliza nossa atenção… Duvido que escolher um livro seja banalidade. Não acredito na conversa dos “devoradores” de livros, leva-se algum tempo para digerir o conteúdo, não é fast food.

    Enfim, acho que aqui você foi direto ao ponto. Não poderia ser mais clara. Devemos falar mais sobre essas coisas que nos afligem… A mim, pelo menos.

    Um abraço,

    Michelle

  7. admin disse:

    Oi, Daniel!
    Obrigado pela correção. :)

  8. Daniel Abreu disse:

    Pessoal, só corrijam uma coisinha que escapou: “Algumas coisas — escrever romances é uma delas — nos DEMANDAM”.
    Abraço.

    P.S. Tenho pesadelos com a possibilidade de um mergulho tal qual esse de Ishiguro… Acho que quebraria a cabeça.

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