Desenhando Manaus

Por Gabriel Bá

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“Zana teve de deixar tudo: o bairro portuário de Manaus, a rua em declive sombreada por mangueiras centenárias, o lugar que para ela era quase tão vital quanto a Biblos de sua infância: a pequena cidade no Líbano que ela recordava em voz alta, vagando pelos aposentos empoeirados até se perder no quintal, onde a copa da velha seringueira sombreava as palmeiras e o pomar cultivados por mais de meio século”.

Não há como imaginar Dois irmãos sem a cidade de Manaus. Ao longo do livro, Milton nos transporta com suas palavras para um lugar mágico, cheio de vozes, sons e cheiros, que se transforma junto com os personagens durante o desenrolar da história. Manaus é certamente uma peça principal nesta história e se o Fábio e eu tínhamos alguma pretensão de fazer uma adaptação à altura do livro, precisávamos conhecer a cidade.

Em abril de 2011, já havíamos lido e relido o livro, tínhamos um resumo de tudo e uma lista de coisas e lugares para ver em Manaus. O Milton nos enviou uma lista de locais que aparecem no romance e outros atrativos da cidade. Também nos colocou em contato com um amigo, Joaquim Melo, o Quim, que tem uma banca de livros e cartões no Largo São Sebastião, um entusiasta da história e cultura do Amazonas, que nos ajudou muito, nos guiou nesta viagem para dentro do livro, sabendo dizer quais lugares mudaram de nome, quais mudaram de cara e quais não existiam mais.

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Quim, cuidando da banca de Tacacá da Gisela, sua mulher, no Largo São Sebastião.

Passamos uma semana em Manaus andando pelas ruas do centro, percorrendo o caminho da praça Nossa Senhora dos Remédios até a praça Heliodoro Balbi, passando pela rua dos Barés, pelo porto, pela praça da Matriz. Atravessamos a ponte metálica ao lado da cadeia e visitamos o bairro dos Educandos. Algumas vezes nos escondemos da chuva, sempre gorda e passageira. Provamos o Tacacá, o Jaraqui frito. Passeamos de barco no rio Negro, visitamos comunidades flutuantes e nos perdemos em igarapés. Tiramos centenas, milhares de fotos, registrando a arquitetura das casas do centro, o movimento das ruas do comércio, as árvores nas largas avenidas e praças. Só indo até lá para entender a relação das pessoas com o rio, os barcos de vários tipos e tamanhos, as travessias, as viagens. O rio ali é uma estrada, é o caminho de pessoas de todas as partes do país e do mundo que estão ali de passagem, ou que ficaram, decidiram ficar, encontraram ali o seu porto.

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O Milton havia nos avisado que a Manaus que ele conheceu, que vive na sua memória e ele retrata em sua obra, não existe mais. Ao conversar sobre isso com ele, há um misto de paixão, encantamento, desilusão e mágoa. Todos estes sentimentos são encontrados no livro e só indo até lá é que eu pude entender do que ele estava falando. Essa viagem foi essencial para entender a cidade, desmistificá-la, compreender o universo geográfico da trama. Mas o livro conta uma história de época, uma viagem ao passado, e nós também queríamos captar esta aura. Trouxemos vários livros da história de Manaus, cheios de mapas, fotos e cartões postais de marcos históricos, praças, prédios, monumentos, lugares que o tempo apagou, mas que nos ajudaram a entender o encantamento do Milton pela cidade.

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Mapeamento das fotos que tiramos durante nossa visita a Manaus.

De volta a São Paulo, fizemos também muita pesquisa pela internet. Em uma das inúmeras buscas no grande oráculo (o Google), caímos em uma página no Facebook chamada Manaus de Antigamente, mantida por apaixonados pela história da cidade e que traz várias fotos (as mesmas que encontramos nos livros e cartões, além de muitas outras) e depoimentos sobre o passado da cidade, a vida cotidiana em várias épocas, as mudanças que ocorreram ao longo dos anos. Como a história do livro acontece ao longo de 50 anos, esta página foi de uma inestimável valia na nossa pesquisa, pra entender realmente o que mudou na cidade e em quais épocas.

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Quando já estávamos bem adiantados na produção da HQ, dezenas de páginas já desenhadas, nos vimos algumas vezes em busca de um ângulo novo que as fotos não traziam, de mais informações sobre a cidade que pudessem resolver uma cena. Voltamos virtualmente a Manaus pelo Google Maps, para relembrar os caminhos que fizemos e quais os caminhos dos personagens, tentamos imaginar percursos, rotas. De 2011 até 2014, a tecnologia caminhou bastante e adicionaram a ferramenta de Street View ao mapa de Manaus. Com isso, pudemos nos colocar novamente nas ruas da cidade e buscar os ângulos que nos faltavam. A cidade continuava em transformação e o Mercado Adolpho Lisboa, que estava em reforma quando fomos à cidade, agora havia sido reinaugurado. A casa que escolhemos de referência para ser a casa da família, que estava à venda na ocasião de nossa visita, agora trazia um muro alto que bloqueava a vista da rua. A constante transformação da cidade e a violência do progresso que são contadas no livro continuam até hoje.

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Na primeira imagem, fotos do coreto que tiramos durante nossa visita em 2011. Abaixo, imagem do Street View do mesmo coreto na praça Heliodoro Balbi, registrada em 2014.

No final das contas, assim como o romance, nós estamos contando uma ficção e o mais importante deste trabalho todo nunca foi retratar fielmente cada tijolo que existe nos prédios do centro, fazer um documentário sobre Manaus e as transformações que a cidade passou durante todos esses anos. O objetivo é conseguir transportar o leitor para dentro da história, fazê-lo acreditar que aquelas linhas em nanquim são ruas, praças e árvores, que está de dia ou de noite, acreditar na sombra dos oitizeiros e no balançar dos barcos no porto.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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5 Comentários

  1. […] Moon falou sobre a experiência de desenhar nossa cidade na sua coluna no blog da editora, e é bem interessante. Outros textos dele sobre o processo de criação da HQ podem ser lidos […]

  2. Terminei de ler o livro e estou ansioso para ter a HQ nas minhas mãos, principalmente, porque sou de Manaus e quero muito ver minha cidade querida ser retratada nos quadrinhos.

  3. Mariana disse:

    Ai, tô amando esses posts de vocês falando como foi o processo de adaptação, pesquisa, experiência etc de “Dois irmãos”!!!

  4. Frederico Dutra Vieira disse:

    Cara, seu traço ta bem insparado no saudoso Flavio Colin. Chegou a inspirar nele mesmo ou foi coincidência?
    To doido pra pegar o livro nas maos e devorar. :)

    Um abraço;
    Frederico Dutra Vieira

  5. Wander Nunes Frota disse:

    Incrível, cara! Acho q mais e mais graphic novels deveriam ser feitas aqui no Brasil! E tem autores q bem merecem ser lembrados: Graciliano Ramos, por exemplo, com _Angústia_, o único de seus romances a ter como cenário o ambiente urbano, nesse caso, a capital de Alagoas, Maceió. A história data do início dos anos 1930 e há muitas referências visuais (fotos, desenhos etc) da Maceió desta época – até mesmo uma planta da cidade em 1932, q mostra todo o seu espaço urbano na época… Q tal vc tentar? A história é chocante…

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