Jobs

Por Fabio Uehara

apple

Lembro da primeira vez que vi um computador pessoal ser ligado, e era um Apple II. A televisão, que antes servia só para ver desenho animado, se tornou um objeto que mostrava textos, imagens e jogos. Todos naquela tela verde e brilhante. Naquele momento eu descobri com o que eu queria trabalhar na vida. Queria teclar coisas e fazer surgir aquilo que para mim, quando criança, parecia mágica na tela.

Mais tarde, depois de ter jogado muito Atari, decidi o que faria da vida: design gráfico. Na faculdade vi o primeiro Macintosh Clássico, que ficava no prédio da reitoria. Parecia um objeto tão distante e místico, com apenas alguns comandos páginas de texto saíam de lá, todas com a formatação mais linda do mundo. Era bem a mudança do fotolito, do processo mais artesanal de se fazer o livro, para o digital. Para mim era quase como um sonho que, com aquela caixa cinza, eu não precisaria ter tanta habilidade manual para recortar, riscar, pintar e colar. Bastaria entender aqueles softwares para conseguir desenhar as capas mais lindas e as páginas mais bem diagramadas. Na verdade, não era tão fácil ou simples assim, mas a revolução que isso trouxe é o que vemos hoje no mercado editorial.

Eu queria entrar nesse mundo, e o que fiz foi pedir demissão do emprego anterior, pegar todo o dinheiro da rescisão e comprar um iMac. Se não fosse por ele, estaria vendendo yakissoba até hoje. E se não tivesse entrado no mercado editorial, não estaria usando Macs profissionalmente e não teria a desculpa de ver as apresentações de novos produtos da Apple durante o trabalho.

Aí vamos para 2007. Um amigo, sabendo desta minha pequena obsessão por produtos da maçã, tinha ido para os Estados Unidos e, no meio de um almoço, disse “Olha o que eu trouxe para você também”. Era um iPhone. Lembro da emoção de tirar pela primeira vez aquele plástico da tela. A emoção era tanta por ver aquele objeto tão lindo e reluzente, e também pela minha conta bancária, já que não era um presente, mas uma encomenda não pedida. Mas não podia reclamar. Eu queria muito fazer aplicativos e a promessa de que os livros iriam se tornar digitais foi o que vislumbrei naqueles dias de lua de mel com aquele telefone.

Em 2012 a Companhia das Letras criou o departamento digital, e depois de armados com iPads — outra maravilha da maçã — começamos a fazer e-books, apps e tudo o mais. Era um mundo novo que começava na minha vida editorial, que foi marcado por outro acontecimento: o lançamento de Steve Jobs: a biografia. O livro de Walter Isaacson foi o primeiro e-book a ter uma venda representativa no Brasil, mostrando que não era apenas uma moda, mas sim um formato realmente importante. Mas ao mesmo tempo, essa foi a época em que Jobs morreu, e foi um daqueles eventos que eu lembro exatamente onde estava e fazendo o quê.

Sim, podem me chamar de fanboy, mas na minha vida há vários marcos que fazem paralelos com os produtos criados pela empresa de Steve Jobs. Na primeira vez que fui viajar para fora do país, a segunda coisa que fiz foi ir em uma Apple Store e comprar meu primeiro notebook. O meu primeiro iPad foi comprado na primeira viagem à Europa. O meu trabalho não seria assim se não fosse por este senhor que completaria 60 anos hoje. E que, com certeza, faz muita falta.

* * * * *

Fabio Uehara é responsável pelo departamento digital da Companhia das Letras.