Linhas, traços, feições: Criando os personagens

Por Gabriel Bá

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“Do cabelo cacheado de Yaqub despontava uma pequena mecha cinzenta, marca de nascença, mas o que realmente os distinguia era a cicatriz pálida e em meia-lua na face esquerda de Yaqub.”

“Ali, em mil novecentos e vinte e pouco, morava aquele magricela, um varapau que  foi encorpando até ficar espadaúdo.”

“Yaqub quis ficar até meia-noite, porque uma sobrinha dos Reinoso, a menina aloirada, corpo alto de moça, também ia brincar até a manhã de Quarta-Feira de Cinzas.”

Estas são algumas das raras descrições de personagens durante o livro. As características físicas perdem espaço para sentimentos, posturas e atitudes, metáforas e poesia na maneira que o Milton cria os personagens, o que torna a leitura do romance encantadora, mas transforma o trabalho de desenhar estes personagens em um desafio ainda maior. Como escolher um rosto para uma ideia, como dar forma a um conjunto de emoções? Ao ler um romance, cada leitor cria na sua cabeça os “seus” personagens. Na nossa adaptação, precisamos criar a “nossa” versão desses personagens, tentando respeitar ao máximo o romance para que, quem sabe, ao invés de substituir as figuras que os leitores carregam, possamos inserir um novo dado visual no seu imaginário.

O universo do Dois irmãos é muito específico e diferente dos nossos trabalhos anteriores. “Uma mistura de gente, de línguas, de origens, trajes e aparências”. Longe dos nossos personagens cosmopolitas, contemporâneos e estilosos, era preciso buscar no fundo da nossa imaginação o visual certo para esses imigrantes, caboclos e curumins. Foi só depois de dois anos lendo, relendo, escrevendo e pesquisando que nós começamos a colocar as primeiras linhas no papel.

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Desde o início, nós fizemos uma escolha estilística para o Dois irmãos. Queríamos usar um estilo de desenho um pouco mais simples, mais sintético, principalmente nos personagens, para que eles ficassem mais “icônicos”. Precisávamos de desenhos que sobrevivessem pelas centenas de páginas que estávamos antecipando para o Quadrinho, onde expressões pudessem ser desenvolvidas mais profundamente e pudéssemos contar tudo com poucas mas bem escolhidas linhas. Traços fortes, olhos grandes e expressivos.

Depois de passarmos por uma leva de rascunhos genéricos de descendentes de árabes, ficou bem claro para nós que não estávamos desenhando As mil e uma noites, nem Aladim, mas uma história que se desenrola durante o século XX, cuja atitude, o estilo e a moda da época, todos esses elementos específicos, nos ajudariam na criação do visual dos personagens.

O primeiro a ser criado só podia ser Halim, o patriarca. Ele não é o narrador da história, apesar de boa parte dela ser contada a partir do seu ponto de vista, e também não é o personagem principal, mas são os sentimentos dele os mais fortes e que ditam esta saga de paixão e desilusão do início ao fim. O pai. Ele também serviria de molde inicial para os gêmeos.

Começamos com estudos do rosto, da testa, o cabelo, a barba. Ficamos um pouco em dúvida sobre seu porte físico, sua estatura, mas acabamos optando pelo “magricela”. Tem um estudo do Halim segurando uma corrente, menção ao trecho do livro em que ele luta com A. L. Azaz. As atitudes e o comportamento dos personagens também podem nos guiar na hora de criar o seu visual.

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Quando você está criando o visual de um personagem, você tem infinitos caminhos que pode tomar. Se você não tiver ideia alguma de qual quer seguir, pode se perder. Foi com a Zana que aprendemos que podemos errar muito na escolha de personagens e que uma indicação pode fazer toda a diferença.

A nossa imagem inicial para a matriarca da história era quase uma cigana, uma mulher exótica e encantadora, uma mistura de matrona italiana com mãe judia com cartomante. Toda nossa pesquisa visual inicial foi guiada neste sentido. Veja bem, quando buscávamos na internet imagens de mulheres nos anos 20, 30 e 40 no Brasil, em Manaus, ou libanesas, não era isso que encontrávamos. Mas essa era a imagem que tínhamos em mente e fomos recolhendo referências pra construir a Zana.

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Depois de criados os pais, passamos aos filhos. Seguindo um pouco os moldes que usamos para o Halim, começamos a pensar nos gêmeos. Durante a produção da HQ, percebemos que todos os personagens envelheceriam muito, alguns mudando pouco, outros totalmente transformados. A progressão dos cabelos grisalhos e brancos em Halim e Zana, as crianças se tornando adultos. Precisávamos pensar nisso na hora de criar os personagens, com traços simples e marcantes, para que eles permanecessem os mesmos durante toda a história, mesmo mudando a idade.

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Finalmente tínhamos o núcleo central da família criado. Para colocar a máquina em movimento, fiz um desenho de uma cena com todos os personagens, na loja, já adicionando mais atitude e contexto a eles.

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Era chegada a hora do primeiro teste dos personagens, talvez o mais duro: mostrar os primeiros desenhos ao Milton. Com a calma e serenidade que lhe são bem características, ele nos recebeu em sua casa para conversarmos sobre Manaus, sobre as escolhas e dúvidas que tínhamos sobre a casa da família na história e, principalmente, para mostrar os primeiros desenhos, os personagens.

Mostramos todos os rascunhos, o processo de criação, a evolução de cada um. Víamos a alegria em seus olhos, um sorriso no rosto, a reação mágica de quem vê as imagens que existem na sua memória representadas por linhas no papel. Foi então que aconteceu o momento mais importante desse encontro. Milton olhou para nossa Zana, fez uma pausa, respirou e nos falou algo como: “Imagino a Zana uma mulher mais elegante, atraente. O Halim é louco por ela, o leitor deve se apaixonar por ela”.  Mencionou a peça de teatro que haviam feito baseada no livro e como lá, apesar de gostar da adaptação do texto, a Zana estava muito caricata. Vi em seus olhos um desapontamento e, nesse minuto, percebi o quanto a Zana era importante na história. Conversamos mais um pouco. Milton buscou uma pasta, trouxe fotos antigas de família e da infância, juventude. As imagens que ele mostrou batiam perfeitamente com aquelas imagens que consegui na minha pesquisa pela internet, mas que eu havia descartado. No final das contas, aquelas eram as mulheres daquela época e aquela era a beleza que eu devia buscar. Ao invés da sensualidade caliente de uma cigana romena, a elegância e o charme de uma senhora, mãe de família. Bastou uma indicação do Milton para que nós encontrássemos o caminho certo da personagem.

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“Halim passou a frequentar o Biblos aos sábados, depois ia todas as manhãs, beliscava uma posta de peixe, uma berinjela recheada, um pedaço de macaxeira frita: tirava do bolso a garrafa de arak, bebia e se fartava de tanto olhar para Zana. Passou meses assim: sozinho num canto da sala, agitado ao ver a filha de Galib, acompanhando com o olhar os passos da gazela. Contemplava-a, o rosto ansioso, à espera de um milagre que não acontecia.”

Quando estamos criando um personagem, esperamos um milagre, aquele momento quando se está em frente à folha de papel cheia de traços e linhas, olhando para o personagem que acabou de desenhar, e ele finalmente olha de volta pra você.

* * * * *

Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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3 Comentários

  1. Que coisa linda! Amo ver o processo de criação dessas obras. Dá pra aprender bastante :)

  2. Murilo Maluf disse:

    Pra quem é de família libanesa, esses registros estão sensacionais, dão até arrepio. Parabéns e sucesso!

  3. Cristina Melo disse:

    Que lindeza esses desenhos! Na expectativa de ver os Dois irmãos em quadrinhos.

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