Meus filhos já fizeram as pazes?

Por Gabriel Bá

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Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá escreverá todas as quartas-feiras para o Blog da Companhia sobre a adaptação de Dois irmãos, de Milton Hatoum, para os quadrinhos, que está sendo produzida com seu irmão Fábio Moon. A HQ está prevista para chegar nas livrarias em março.

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“Soube que levantou a cabeça e perguntou em árabe, para que só a filha e a amiga quase centenária entendessem (e para que ela mesma não se traísse): ‘Meus filhos já fizeram as pazes?’. (…)

Ninguém respondeu.”

Foi com estas palavras, logo no início do livro, que Milton Hatoum nos conquistou e convenceu a fazer a adaptação de seu romance, Dois irmãos, para os Quadrinhos. Que força, que premissa, que introdução. Um desafio digno de uma nova incursão nas adaptações literárias, este gênero que cresceu muito no Brasil — mais em volume e variedade, mas nem sempre em qualidade — desde que fizemos nossa adaptação de O Alienista, de Machado de Assis, em 2007.

São as palavras que nos enfeitiçam nos livros, a maneira como o escritor as escolhe e alinha formando frases, montando pensamentos, criando ações. As palavras são tudo num romance. Então como traduzir esse tudo para outra linguagem? Sim, porque o trabalho de adaptação é também uma tradução. É preciso entender a linguagem original, interpretá-la para, finalmente, dizer aquilo novamente na nova língua. Em outra língua, é preciso mudar algumas coisas para ser fiel à história.

“Trouxe a grande diversão, o grande sonho, curuminzada.”

Foi o que disse o cinematógrafo ambulante ao entrar na casa de Estelita Reinoso. Falava de filmes, mas podia estar falando de Histórias em Quadrinhos, do poder de sedução das imagens, destas linhas que colocam no papel aquilo que povoa a imaginação das pessoas.

No entanto, engana-se aquele que acha que um desenho vai limitar a imaginação do leitor em relação a um texto só com palavras. Uma História em Quadrinhos tampouco é uma leitura mais fraca, mais rasa, mais fácil. Um desenho também é uma tradução, é uma interpretação feita pelo artista e que não esgota as possíveis leituras que alguém pode ter dele. O leitor de Histórias em Quadrinhos precisa saber ler os desenhos, precisa entender estes símbolos e precisa saber juntar as informações que o desenho carrega com aquelas escritas com palavras.

“Naquela época, tentei, em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou.”

Não é da noite para o dia que se escreve um livro. O que pode sim surgir num estalo é uma ideia, um conceito tão forte que motive o escritor a escrever, durante o tempo que precisar, até que sua ideia esteja toda no papel, completa, viva, pronta pra ir de encontro aos leitores e ao mundo. Mas escrever o livro é mais importante do que querer ter o livro pronto. Queremos tudo agora, já, neste exato momento. No instante que temos uma ideia, queremos que ela se materialize. Mas escrever é um exercício de paciência, de saber esperar o livro estar pronto, sem arruinar a ideia por ter sido apressado. Uma vez pronto, o livro é eterno.

Esta foi uma das muitas coisas que aprendi com o Milton: a ter paciência, a caminhar junto com a história e, acima de tudo, a respeitar o livro.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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Um Comentário

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