Nesse Carnaval, seja marginal, seja herói

oiticica

Hélio Oiticica: qual é o parangolé? e outros escritos reúne textos que Waly Salomão escreveu sobre o artista e amigo Hélio Oiticica ao longo da vida: “Qual é o parangolé?”, publicado originalmente na coleção Perfis do Rio, em 1996, “HOmmage”, publicado em catálogo internacional de exposição de Oiticica, e “Quase heliogábalo”, ensaio publicado no livro Armarinho de miudezas, de 1993. A dicção própria do poeta vanguardista, de quem lançamos Poesia total em 2014, está presente também nestes textos que formam um mosaico crítico-biográfico e nos dão a ver tanto Hélio Oiticica quanto o próprio Waly Salomão. Da relação frutífera entre os dois artistas, múltiplos e originais, nasceu muito de uma linguagem e uma estética que marcaram época e revolucionaram a expressão artística brasileira. A nova edição da Companhia das Letras, que sai em abril, contará com caderno de fotos e aparato crítico.

No trecho recortado, Waly Salomão conta um pouco das incursões de Hélio Oiticica pelo carnaval nos morros do Rio de Janeiro.

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Hoje quem vai a um ensaio na quadra de samba nem sente necessidade de aprender, nem sente vergonha por não saber sambar. Ele [Hélio Oiticica] teve um mestre, Miro, maior passista da época, que lhe deu aulas particulares e lhe ensinou todos os passos mais acrobáticos. Até o raro e difícil passo chamado parafuso que atualmente ninguém mais pratica. Com entrar em parafuso, o corpo solta-se do solo, gira no ar sobre si mesmo e toca o chão de novo num ritmo frenético. Mas as vivências transbordaram além do nível médio de mero aluno aplicado. Hélio virou passista da ala “Vê se entende”. O aluno Hélio e o mestre Miro viraram uma dobradinha tão importante e reverteram a relação em uma inédita dobra do mesmo tecido e inesperadas dobras-dobradinhas surgiram e novas relações de amizade-parceria foram se estabelecendo em uma velocidade estonteante que efetivaram um processo de mudança equivalente ao que representou “a dobradiça (invenção revolucionária) que junta dois planos” para os Bichos da Lygia Clark, segundo Mário Pedrosa em Significação de Lygia Clark (1963). Dobradinhas e dobradiças transformaram radicalmente o panorama e o panorama das artes brasileiras. A liberdade resulta do encontro da fome com a vontade de comer, é uma junção do exterior com o interior. Assumindo resolutamente o que lhe caiu no colo pelo acaso de um convite da dupla Jackson Ribeiro-Amilcar de Castro para vir se juntar à equipe e terminar a encomenda de pintar alegorias para o desfile de Carnaval da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, Hélio aproveitou a ocasião para se liberar de suas âncoras. Para ele foi uma mudança de pele, uma transvaloração radical. No desfile das escolas de samba, Hélio, como era um passista muito bom, tinha um trio — Trio do Embalo Maluco — com Nildo e um cara chamado Santa Teresa. E, mais tarde, defende com ardor as cores da sua escola querida em Futesambol(ão), 30/11/1970: “…há gente tão boba que acha verde-rosa uma combinação feia: são burros, coitados, pois além de passista sou pintor, e ninguém vai me dar aulas sobre cor… mas me sentia tão glorioso e pensava: estou no chão da Mangueira”.

O corpo bamba tornado ginga sutil, a perna veloz para dar pinote, o tremelique na hora de expor o revertério. Ritmo das pernas ágeis que parecem comemorar eternamente a glória de dançar. “…Adoro qualquer samba: Sal, Portela, Império, escolas segundo e terceiro, blocos: a paixão do samba é igual à do futebol…”. O neto do professor severo da língua portuguesa passa a amar a gíria enquanto tição alusivo porque desvela uma potencialidade viva de uma cultura subterrânea e daí nasce o conceito Parangolé. A apropriação da usual lata de fogo nas sinalizações das estradas que se transforma no Bólide-lata (1966). O exercício experimental da liberdade do surreal-trotskista e crítico de arte Mário Pedrosa é a base para a perambulação vagabunda que resulta no programa similar de experimentar o experimental. Hélio O. tinha aprendido bem que a ação política revolucionária, como o trabalho do artista, é uma intencionalidade que gera suas próprias ferramentas e meios de expressão. Claro que isto sempre esteve acompanhado de muito fumo e mais tarde de muito pó. É mesmo que ver o Hélio vivo exclamando: — E daí? E daí? And so what? And so what? Quanta gente ficou empapuçada, stonned, e nada resultou disso? Para ele não, para ele foi um veículo propulsor, impulsionador, um propeller, que ajudou a viagem a ir mais além, a ruptura a ser maior!, o conhecimento e invenções de novas situações. Merleau-Ponty lampeja: “Se Leonardo se distingue de uma das inumeráveis vítimas da infância infeliz, não é porque tenha um pé no além, é porque conseguiu fazer de tudo o que viveu um meio de interpretar o mundo — não é que não tivesse corpo nem visão, é que sua situação corporal ou vital foi constituída por ele em linguagem”.

Entretanto, é fácil e conservador dizer “romantismo” pura e simplesmente e descartar o contexto da época. SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI se reveste de um caráter épico. Não era um romantismo inofensivo porque tinha uma agressividade política oposta aos esquadrões da morte. Com a malandragem do morro, HO aprendeu o valor da ambiguidade sinuosa. Nada pode ser julgado de uma forma maniqueísta, preto no branco. Justamente. Hélio Oiticica em Brasil-diarreia falou e disse: “É preciso entender que uma posição crítica implica inevitáveis ambivalências: estar apto a julgar, julgar-se, optar, criar, é estar aberto às ambivalências, já que valores absolutos tendem a castrar quaisquer dessas liberdades; direi mesmo: pensar em termos absolutos é cair em erro constantemente — envelhecer fatalmente; conduzir-se a uma posição conservadora (conformismos, paternalismos etc.); o que não significa que não se deva optar com firmeza: a dificuldade de uma opção forte é sempre a de assumir as ambivalências e destrinchar pedaço por pedaço cada problema. Assumir ambivalências não significa aceitar conformisticamente todo esse estado de coisas; ao contrário, aspira-se então a colocá-lo em questão. Eis a questão”. Por exemplo, Maria Helena, ex-passista da Mangueira, foi mulher de bandido, do Mineirinho, depois ela se tornou mulher do cara que matou Mineirinho, Euclides, um dos homens de ouro dos grupos de extermínio. Sobre Maria Helena, Hélio repetia dezenas de vezes, incontido:

— Maria Helena, ninguém samba como você!

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