O prêmio, essa força estranha

Por Ana Maria Bahiana

Oscars

Imprensada entre a discussão sobre o resultado dos desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro (vergonha) e a panela de pressão dos Oscars que se aproximam, no domingo (curiosidade amena), eu fico pensando que prêmio é uma coisa mesmo muito esquisita. Desde que saí da escola eu não ganhei nenhum. Já estive em alguns painéis e júris, entre festivais da canção (quando eles existiam) e de cinema. Nunca é uma situação confortável para mim, e sempre acabo aprendendo mais sobre meus colegas de escolha do que sobre as peças sendo escolhidas.

Aqui onde vivo, no olho do furacão da indústria de entretenimento, prêmios são mais que um ritual: são uma estação do ano. Assim: de setembro a novembro fala-se em quem pode ser que ganhe um prêmio; de novembro a fevereiro fala-se de quem tem mais chances de ganhar um prêmio e/ou congratula-se quem ganhou um prêmio e/ou gasta-se tempo e espaço para explicar/protestar quem não ganhou um prêmio.

De março a maio nada acontece. Em maio tem Cannes. Entre junho e agosto vende-se muita pipoca e muito refrigerante enquanto a garotada foge do calor no ar condicionado dos cinemas, na companhia de super-heróis, alienígenas e tartarugas ninja.

E aí o ciclo recomeça.

Nem sempre foi assim. O Oscar, a quem se deve a epidemia de estatuetas que se seguiu, começou em maio de 1929 como um jantar altamente etílico nos salões do Roosevelt Hotel em Hollywood (a um quarteirão de onde as estatuetas são distribuídas atualmente). Durante os comes e bebes rápido e rasteiro, distribuíam-se algumas láureas. A coisa era tão informal que os resultados eram anunciados duas semanas antes. Tudo muito simples, já que os Oscars eram escolhidos por 36 pessoas, os sócios-fundadores da Academia, e os convidados da noitada não passavam de 270.

Como esse convescote entre amigos transformou-se numa indústria dentro da indústria, dando origem a uma miríade de outros prêmios (um dos quais sou culpada de escolher) é uma longa história que não caberia, fisicamente, aqui. Simplificando: tem a ver com televisão (que entrou na história em 1953, quando os Oscars foram transmitidos pela primeira vez, apenas para os Estados Unidos); com a capacidade de renda através da televisão; e com a necessidade de encontrar novas ferramentas de marketing num mercado consumidor cada vez maior, mais complicado e mais internacional.

Cobri a cerimônia do Oscar mais de 20 vezes (perdi a conta) e a do Globo de Ouro, idem (trabalhei na festa, como parte da equipe de produção, quatro vezes). Sempre me divirto, de um modo ou de outro, e provavelmente não pelos motivos que a maioria das pessoas se diverte. É preciso certo distanciamento, o distanciamento do fã, para ter a completa experiência do glamour cintilante dessas festas. Isso eu já perdi faz tempo — o que me interessa e me diverte nessa orgia de premiações é acompanhar as marés interiores desse monstro, suas ambições, frustrações, ressentimentos, culpas, manias.

Sempre digo que esta indústria, que toca diretamente as vidas de milhões de pessoas pelo mundo afora, não é uma máquina: é um ser vivo, altamente adaptável, um primor de evolução que Darwin estudaria com afã. Ao escolher e entregar suas láureas anuais, essa criatura brevemente oferece suas entranhas à apreciação de quem sabe para onde olhar. Não importa quem ganhe, isso é sempre fascinante. (Uma exceção: em 1999, quando Roberto Benigni levou o Oscar que deveria ter ido para Central do Brasil, eu me retirei do recinto — o curral da imprensa — e fui afogar as mágoas com os colegas australianos que choravam a perda de Cate Blanchett para o vestido rosa-chiclete de Gwyneth Paltrow.)

Ainda torço: torço às vezes por amigos, ou por amigos de amigos, ou por coisas tão lindas, ou tão inesperadas, que, por seu triunfo, poderiam alimentar mudanças e aberturas. Torço sobretudo pelos forasteiros e pelos estranhos. Torci muito por Central do Brasil, Cidade de Deus e O tigre e o dragão, por Fernanda Montenegro e Marion Cotillard e Lupita Nyong’o e Javier Bardem, além do que fizeram nas telas, pelo simples fato de que suas presenças talvez possam ser agentes de transformação. O monstro, sendo vivo, muda. Como Dustin Hoffman diz no final de Pequeno grande homem, às vezes a magia funciona, às vezes não.

Prêmios são mesmo coisas esquisitas. Não creio ser possível apontar uma única entidade como melhor que todas as outras e, assim, premiá-la. É uma questão ontológica — há que se definir “melhor” e “todas as outras”. Aí complica.

Mas todos os anos, querendo ou não, entendendo ou não, lá vem ela de novo: a estação dos prêmios. Eis o melhor que consigo fazer, à guisa de definição do que realmente é um prêmio: é simplesmente a opinião de um grupo de pessoas num determinado momento. Mas como vende sabonete!

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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2 Comentários

  1. Gabriela disse:

    Boa tarde, Ana Maria! Vi em outro post ( ou foi no Twitter?) que você ministra cursos frequentemente em cidades brasileiras, tendo como base o livro Como ver um filme, então queria saber se há previsão de mais aulas em 2015. Tenho interesse particularmente em cursos realizados em Brasília/DF. Há chances para este ano? Onde você costuma divulgar? Obrigada! Abraço.

  2. Sonia Amaral Gama disse:

    Pois é, Ana Maira, esse negócio de prêmio é mesmo complicado. Cá estou eu, lendo interessada e curiosa sua coluna – de que gosto imensamente, do estilo e da abordagem – quando me dou conta de que o assunto “prêmio” per se, para mim tb é marginal… Assim, cabe-lhe todo o mérito por me atrair para a leitura de um assunto que quase nada me diz. Ah! Sim, tb torço – por motivos raramente confessáveis, mas tão lícitos quanto os seus -, e a tônica, por aqui, é mesmo a da campeã das causas difíceis, tipo… e o Oscar vai para Selma, todos os Oscars, pq esse é assunto sério, vital, para a qualidade de vida dos meus filhos e netos, e das outras gerações, por uma questão de justiça, de equanimidade, pq esse mundo WASP do qual infelizmente sou parte (com exceção do P) não caminhará tão cedo nessa direção, por livre e espontânea vontade. Aguardo, com prazer, sua próxima coluna.

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