Cores são linguagens

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Qual a diferença entre falar o idioma materno e falar um idioma que se adquire?

Regras das salas de aula de inglês, francês, espanhol, japonês, alemão, o que for, costumam funcionar bem no ambiente protegido da “escola de línguas”. Basta, porém, colocar os pés em outro país para se notar que ser estrangeiro significa, sobretudo, não dominar o manejo complicado da maneira como se fala, quando se fala e o que se fala.

E se, a começar pela fala, cada nação cria os seus próprios problemas, códigos, enigmas e desafios, a nossa não foge à regra. Não há quem desconheça que somos todos, por aqui, catedráticos no uso e na negociação em torno das cores.

No Brasil, com grande facilidade, e na linguagem do dia a dia, manipulamos cores. Por sinal, faz muito tempo que o conceito de “cor” vem substituindo a noção de raça, num uso mais fluído, mas não menos perverso.

Cor pode até ser um conceito mais elástico, mas nem por isso é avesso à delimitação de hierarquias rígidas e regimes de inclusão e de exclusão social. De um lado, dependendo da situação, da hora, da companhia, do local, do momento, um entrevistado, um amigo (e nós mesmos) mudamos de cor — como se troca de meia. De outro, sabemos muito bem que não há nada de inocente nessa cartografia de tons e meio tons.

Desde a época da “civilização da cana” — nos idos dos séculos XVI e XVII — já fazíamos um paralelo entre as colorações do açúcar e sua pureza. Quanto mais branco, melhor a qualidade; mais escuro, o oposto, sendo o produto nem ao menos digno de exportação. O mesmo tratamento recebiam os escravizados: se sua cor de pele fosse mais branqueada, tinham muito mais chance de lutar por uma alforria e de recebê-la.

Essa verdadeira lente colorida continuou vigente e se transmutou numa série de novas teorias. O primeiro concurso realizado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1845, chamava-se “Como se deve escrever a história do Brasil”. O vencedor, o bávaro K. F. Von Martius, propôs novo paralelo colorido. O Brasil seria como um grande rio (branco), banhado por rios mais diminutos (um negro e outro indígena), os quais levavam, todos, a uma grande civilização. Como se vê, aqui havia mistura, mas também hierarquia, expressa no tamanho variado dos afluentes. No século XIX, os modelos deterministas raciais previam uma evolução única e progressiva, repetindo a metáfora do doce: o branco no alto da pirâmide social; populações mestiças, bem abaixo. No início do século XX, o Brasil foi o único país da assim chamada América Latina convidado a participar do Congresso Internacional das Raças, de 1906. Levou a tese de João Batista Lacerda, “Sur les Metis”, que dizia que em três gerações seríamos brancos: gregos até. Não contente, o médico ilustrou suas palavras com a tela do artista acadêmico Modesto Brocos chamada Redenção de Can, 1895, em que, numa metáfora, dessa vez bíblica, vemos nos extremos do quadro um pai português e uma avó africana — quase uma estátua de ébano. O pai sorri com orgulho; a avó agradece aos céus. No centro, uma mãe com traços suavizados traz ao colo uma criança branca de cabelos lisos. Era a inversão da maldição de Can. No caso do Brasil, “o branqueamento”, mais esse conceito afeito às cores, nos redimiria.

redencao

De lá para cá fomos sofisticando nosso linguajar, assim como apurando nossa percepção social sobre o alcance das cores. Basta dizer que nosso censo é todo pautado nelas. Nos dividimos e classificamos assim: branco, negro, amarelo, indígena (vermelho), pardo. Se as quatro primeiras são cores primárias, a última é uma espécie de “etcétera”, um coringa da classificação, um sonoro NDA. Mas todos sabemos, com convicção, o que significa a cor pardo. Ela vem de pardal: esse pássaro de um marrom indefinido.

A partir dessa base passamos a manipular o uso das cores. Sabemos que, não raro, pessoas que enriquecem são vistas como “mais brancas”; cabelo bom, na linguagem popular, é cabelo liso; e até há pouco “pessoa de boa aparência” era uma maneira de não falar em cor.

Aliás, a polícia brasileira costuma ser “especialista” em cor. Basta dar uma olhada nas batidas no meio da madrugada, e mesmo durante o dia, para ter certeza como essa instituição carrega consigo uma régua de cor precisa.

Pois bem, para dar conta desse jogo travesso das cores, em 1976 foi feita uma pesquisa em que se perguntou aos brasileiros a sua cor. O resultado é esse grande arco-íris classificatório, composto por mais de 136 cores!

Não é o caso de analisar todos os termos, apenas destacar algumas recorrências. Em primeiro lugar, a grande incidência em torno do branco: uma espécie de símbolo local. Em segundo, as cores na fronteira — quase morena, meio branca, puxa para —, que mostram como aqui se manipulam tons e semi tons. Terceiro, diferenças de gênero: diminutivo para as mulheres; aumentativo para os homens. Por fim chamam atenção termos como “queimada de sol, tostada”, que parecem revelar que a cor é pensada como um estado transitório, não definitivo. Não se é de uma cor. Se está.

Claro que a situação é hoje muito diferente, e isso já desde os anos 1980, quando com os Movimentos Sociais o país acordou de vez para o tema do preconceito e do racismo vigentes no Brasil. Questão difícil num país que carrega a triste marca de ter sido o último a abolir a escravidão no Ocidente, ela se esconde e se apresenta a partir desse arco-íris social.

Foi justamente pensando nesse uso escorregadio das cores que a Companhia das Letras resolveu, na primeira edição de Brasil: uma biografia, apresentar capas do livro em dez cores e combinações diferentes. Esse é um tema forte neste trabalho que Heloisa Starling e eu escrevemos, e achamos que essa seria uma maneira de provocar o leitor com relação a esse difícil idioma nacional.

Cores são perversas na reposição cotidiana do preconceito e da discriminação.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lança com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.