Do início ao fim

Por Gabriel Bá

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“De onde você tira suas ideias?” 

Essa pergunta nos foi feita várias vezes por leitores, amigos e parentes, jornalistas, curiosos, artistas iniciantes querendo uma luz que aponte o caminho a ser seguido. Ela não tem uma resposta certa, definida, possível de racionalizar ou colocar em palavras. “De tudo, de conversas, de imagens, de coisas que eu escuto, eu vejo, eu leio. Do mundo, dos sonhos”. Todas estas respostas esbarram na verdade, mas nenhuma encerra a questão.

Uma ideia é o início de tudo. É aquela fagulha que aquece a imaginação do escritor e coloca todo o resto em movimento. É uma das etapas mais difíceis, verdade, justamente uma das mais preciosas, mas é preciso muita lenha e muito cuidado para alimentar o fogo, mantê-lo aceso e vivo. Uma ideia está longe de ser o trabalho pronto.

Não importa se é uma ideia para um desenho ou para um livro, ela é somente o começo do trabalho. A ideia se transformará em rascunhos, que levam aos estudos, que conduzem ao desenho pronto ou à história. E existe a emoção do processo, o valor da produção. É a jornada, a arrebentação. Existem aqueles que têm as ideias, mas não conseguem atravessar a arrebentação. É preciso muita determinação, vontade e paciência para continuar remando contra as ondas, dia após dia, durante os meses ou anos de trabalho. A sua ideia já ficou lá atrás, na praia. Foi ela que te convenceu a entrar no mar. Ao mesmo tempo, ela está lá no fundo, te chamando, te motivando a continuar dando braçadas enquanto a água te castiga e empurra para trás. Somente quem tem força para atravessar a arrebentação chega ao ponto privilegiado de onde ele pode aproveitar a experiência única de pegar aquela onda, de criar, de completar um ciclo.

A onda é o livro. Você pode enxergá-la da praia, ter uma vaga noção de como será surfá-la, você já viu outros fazendo e quer fazer também, mas é preciso nadar, remar, passar a arrebentação. A onda surfada é o livro pronto, impresso, na prateleira das livrarias, na mão dos leitores. É o sonho transformado em realidade.

Encontrei o Milton semana passada para conversarmos sobre o Salão do Livro de Paris, sobre o bate-papo que faremos juntos lá para falar da adaptação do Dois irmãos. Falamos da ansiedade de entregar o livro à editora e o tempo que demora até ele estar pronto, impresso, na sua mão. Conversamos das diferenças entre o processo de um romance e de uma HQ, das revisões, das correções, das mudanças. Quando a história está pronta? No nosso processo, a história está praticamente pronta quando terminamos o roteiro, o layout, mesmo que ainda falte desenhar centenas de páginas. A onda está lá, basta remar. Ele me contou que sempre escreve à mão, depois digita tudo para o computador e imprime, para ler e reler. Depois reescreve alguma coisa, redigita e relê. Repete esse ritual até achar que está pronto. Me disse que fez isso 16 vezes com o Dois irmãos. A paciência e determinação que levam à onda perfeita.

Agora o livro está terminado, escrito, desenhado. A última etapa é mostrar o trabalho para o mundo. Um livro inteiro feito, guardado na gaveta, não existe. Ele é tão real quanto a sua ideia inicial, quanto a onda que você imagina um dia surfar, ou até mesmo aquela onda que você surfou, diz que surfou, mas ninguém viu. É um trabalho de anos que não viu a luz do dia. O livro só está pronto quando ele é lido.

Hoje você pode mostrar o seu trabalho na internet, imediatamente e de graça, para milhões de pessoas. É uma possibilidade incrível de alcançar os leitores. Muitos autores de Quadrinhos hoje começam com webcomics, colocam suas tiras ou histórias curtas online, divulgam e são lidos. Alguns são mais conhecidos por seus trabalhos disponíveis online do que pelos livros impressos (podemos até nos incluir nesse grupo, considerando a quantidade gigantesca de pessoas que conheceram nosso trabalho através da nossa tira “Quase Nada” na internet, não no jornal, e só depois foram atrás dos livros, ainda assim nem sempre os encontrando). Isso não sustenta muita gente, mas o trabalho é visto e se torna real (até porque os livros impressos também não sustentam muitos escritores). Mesmo os e-books e versões digitais dos Quadrinhos têm sua vantagem, chegam aonde o livro físico não chega, a preços mais atraentes. É mais gente lendo, é isso que importa.

Mas eu conto histórias longas que não funcionam na velocidade da internet e sou de uma geração que quer ter o objeto livro, impresso. Ainda desenho no papel e gosto de segurar o livro na mão, de ver a história surgir na minha frente ao virar as páginas. Gosto de autografar os livros dos leitores, fazer um pequeno rascunho, uma marca para torná-lo um objeto único.

“Eu tinha começado a reunir, pela primeira vez, os escritos de Antenor Laval, e anotar minhas conversas com Halim. Passei parte da tarde com as palavras do poeta inédito e a voz do amante de Zana. Ia de um para o outro, e essa alternância — o jogo de lembranças e esquecimentos — me dava prazer.”

Adoro falar dos trabalhos, reviver as histórias, sou apaixonado pela linguagem dos Quadrinhos, por todas as etapas, e essa série de textos sobre o Dois irmãos foi um deleite, uma chance de voltar no tempo, de viajar lentamente por estes quatro anos de trabalho, olhar uma vez mais para cada detalhe e lembrar por onde nós andamos e o caminho que nos trouxe até aqui. Mas acredito que os trabalhos devem falar por si. Agora o livro está impresso, chegando às livrarias. A conversa dos leitores não é mais comigo, nem com o Fábio, nem com o Milton. É com o Halim, a Zana, a Rânia, Domingas, o narrador e os dois irmãos.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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2 Comentários

  1. Joaquim Melo disse:

    Gabriel,

    Camarada, que texto! De arrepiar!

  2. Rômulo Gonçalves Ribeiro disse:

    Muito bom saber que existe brasileiros como você! Vou anotar pra não esquecer de acompanhar seus trabalhos!

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