Infinitude do real

Por Noemi Jaffe

orquideas

Ilustração: Tereza Bettinardi

No mesmo dia em que se concluía a revisão de Írisz: as orquídeas, romance meu que será lançado em maio, fiquei sabendo da morte de Armênio Guedes, que eu entrevistei um ano atrás justamente para compreender melhor o personagem Martim — brasileiro e, como Armênio, comunista dissidente.

Eu precisava entender o que significou, para a militância de esquerda brasileira, a invasão soviética na Hungria em 1956, um dos temas centrais da narrativa do romance. Sabia, em teoria, da ruptura que essa entrada dos russos em Budapeste tinha provocado. Mas queria conhecer a subjetividade dessa frustração, o alcance pessoal e concreto da dissidência.

Armênio me recebeu em sua casa, em São Paulo, onde passava os dias ouvindo música clássica, lendo e recebendo amigos e a família. Estava com 96 anos, reclamando muito de uma intervenção médica malsucedida e culpava o médico por sua audição deficitária e alguns outros problemas de saúde. Mas não era mau humorado. Tampouco carinhoso em excesso. Altivamente generoso, talvez. E isso, para mim, foi o mais importante, porque me ajudou a compor melhor a personalidade de Martim, que, como Armênio, é um homem rigoroso, mas não rígido; fraterno, mas não sentimental; simples, mas não simplista.

A dissidência de Guedes com relação a Prestes (de quem foi amigo e assistente) nunca representou renúncia a seus ideais de esquerda. Disse que, aos poucos, foi se tornando cada vez mais um gramsciano e me explicou, cuidadosa e dignamente, o que isso queria dizer, ao menos em seu caso. Me falou de todas as dificuldades por que passou o partido comunista no Brasil, seu período áureo e os tempos de censura e repressão. Me falou de seu irmão que, preso pela ditadura e com pavor da tortura, ameaçou estrangular quem o interrogava para poder ser morto a tiros e, assim, evitar ser torturado. Mas falava tudo isso com calma; sem nostalgia nem pesar, como cabe a uma consciência política que, mesmo depois dos 90 anos, continuava ativa e confiante. Gostava muito de Dilma, de Lula e de Fernando Henrique e dizia que o país nunca esteve tão bem, mesmo acompanhando todos os problemas que vinham acontecendo. Admirava muito Juscelino, que dizia ter sido um presidente verdadeiramente democrático, durante cujo mandato Armênio e o comunismo tiveram total liberdade de expressão.

Meu objetivo, ao encontrá-lo, além de estudar a história do comunismo no Brasil, suas divisões internas e sua continuidade, era, sobretudo, o de dar consistência particularizada a Martim, na medida de uma vida em ato e gesto e não em pensamento ou especulação. Armênio Guedes achava que o comunismo gramsciano levaria o país a um socialismo maduro e democrático. Foi nisso que ele acreditou e achava, quando eu o encontrei, que a evolução dos atuais governos estaria nos levando a esse caminho.

Como todo bom socialista, Armênio era um otimista. E, nesse otimismo, na dignidade simultaneamente orgulhosa e humilde de quem ajudou a construir a história da esquerda no Brasil, eu conheci um homem íntegro.

Espero que Martim também seja assim e que a memória de Armênio Guedes resista e seja honrada num personagem que é ficcional mas que, por isso mesmo, pode nos remeter à infinitude de detalhes do real.

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irisz2ÍRISZ: AS ORQUÍDEAS
Sinopse: Com a entrada da União Soviética na Hungria, em 1956, Írisz foge de Budapeste, deixando para trás a mãe doente e um passado cheio de lacunas. Quando chega a São Paulo para estudar as orquídeas, essa mulher singular e indecifrável logo encanta Martim, diretor do Jardim Botânico. Agora que Írisz desapareceu, ele terá de preencher seu vazio com os relatórios nada ortodoxos deixados por ela, que transitam entre as particularidades da língua húngara, a crise da utopia comunista, memórias pessoais e algumas observações — bastante inusitadas — sobre as orquídeas. Com o trabalho meticuloso da palavra que lhe é característico, Noemi Jaffe oferece uma trama rica e envolvente, que investiga os limites da ideologia e as agruras do amor.

Írisz: as orquídeas será lançado em maio.

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Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Doutora em literatura brasileira pela USP e crítica literária, é autora de A verdadeira história do alfabeto, vencedor do Prêmio Brasília de Literatura, e O que os cegos estão sonhando?, entre outros.
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