O fim do capítulo

Por Gabriel Bá

capitulo-titulo-500

 “A minha maior falha foi ter mandado o Yaqub sozinho para a aldeia dos meu parentes”, disse com uma voz sussurrante. “Mas Zana quis assim… ela decidiu.”

Ao escritor cabe a difícil escolha de onde e como terminar um capítulo. Aquelas palavras, aquela frase que precisa ter cara de fim de capítulo, deixando uma impressão maior que as outras daquela página, incitando a curiosidade do leitor, introduzindo uma breve pausa para reflexão e o chamando para continuar a leitura. O fim de capítulo tem este desafio, esta responsabilidade.

Quando você escreve um texto em prosa, você não se preocupa com o espaço na página que o texto vai ocupar, somente com as palavras, com a forma da escrita, com o conteúdo; sai escrevendo, narrando, linha após linha, até o fim do seu capítulo, onde termina o texto. O fim do capítulo de um romance tem a ajuda do espaço em branco que restou na página para dar o respiro e a importância que ele precisa.

Numa história em Quadrinhos, a história é pensada espacialmente, pois você sempre tem o espaço físico da página pra considerar. Você escolhe a quantidade de informação que vai em cada página, em cada quadro, em cada balão. Assim como o desenho, o texto ocupa um espaço físico e tem diferentes pesos e importâncias dependendo do seu posicionamento na página. Todo fim de página tem a responsabilidade de chamar o leitor para a próxima página. O último quadro das páginas ímpares, da direita, têm uma importância maior ainda, pois eles precisam fazer o leitor virar a página para continuar a história. Normalmente é colocado neste quadro um “cliffhanger”, ou gancho, uma informação mais forte que agarre o leitor.

Uma HQ também pode ser dividida em capítulos, e o fim do capítulo precisa ser tão marcante quanto num romance, acumulando ainda as funções de fim de página, normalmente fim de página ímpar, com um bom gancho.

Quando pensamos no roteiro do Dois irmãos, fizemos tudo na forma de layout (como vimos no texto do dia 11 de fevereiro), assim já pensando ao mesmo tempo nos textos que entrariam, nos quadros, nas páginas. Fazíamos escolhas o tempo todo, em toda página, todo capítulo. Qual palavra vai entrar, qual será criada, modificada, onde vai entrar, qual imagem vai junto, onde acaba a página, onde vira a página, onde acaba o capítulo. Todas estas escolhas feitas neste estágio de roteiro, de layout, são, no final, as escolhas mais difíceis e as mais importantes. Depois disso, as escolhas mais específicas do desenho são mais técnicas, trabalham em função de tudo que já foi decidido no roteiro.

Ele advertia a esposa sobre o excesso de mimo com o Caçula, a criança delicada que por pouco não morrera de pneumonia.

(…)

“Fez os diabos, o Omar… mas não quero falar sobre isso”, disse ele, fechando as mãos. “Me dá raiva comentar certos episódios. E, para um velho como eu, o melhor é recordar outras coisas, tudo o que me deu prazer. É melhor assim: lembrar o que me faz viver mais um pouco.”

No trabalho de adaptação, reviramos, reorganizamos e recontamos a história. E em alguns momentos, o fim de um capítulo da HQ coincidia com o fim do capítulo no livro, podendo aproveitar a força que o texto já tinha. No fim do capítulo dois do Quadrinho, começamos a última página com um texto da última página do capítulo três do romance, terminando com as últimas palavras do capítulo dois (reproduzidas aqui, no início deste texto).

doisirmaos-layout-op1

Quando eu já estava desenhando o capítulo dois, a poucas páginas do fim do capítulo, o Fábio olhou com calma para o layout e achou que o capítulo não terminava bem. Mais especificamente, que o último Quadro não tinha cara de último quadro, de fim de capítulo. A composição não ajudava, os textos não ajudavam, a página não funcionava. Esta é a melhor parte de trabalhar com outra pessoa, pois ela vê as coisas de outro ângulo, enxerga outros caminhos. E a melhor parte de trabalhar com o Fábio, meu irmão gêmeo, é que nós podemos sempre ser honestos e dizer quando algo não funciona, quando algo podia ficar melhor, sabendo que não vamos magoar sentimentos ou ferir egos. Sabemos que o mais importante é a história. E, quase sempre, sabemos que as mudanças que o outro enxerga e pede são necessárias. Eu já sabia antes dele falar que aquele fim não estava ótimo, não tinha a força que ele podia ter, que o livro tinha.

Nessa cena, Halim está contando sua história para alguém que aparece de longe no quadro 2 e de costas no último quadro. Este outro personagem ocupa muito espaço do último quadro para alguém que não é importante nesse momento. Estamos gastando espaço à toa.

doisirmaos-layout-op2

Mudei a página, sem mudar nada no texto. O texto já era ótimo, já havia sido escolhido para terminar o capítulo. Os enquadramentos também permaneceram quase todos os mesmos, era a organização, a diagramação que podia melhorar. Principalmente, o último quadro não estava bom. Dividi o primeiro quadro, reorganizei as falas do segundo e dividi o quinto quadro, deixando as duas últimas falas sozinhas num novo último quadro, com mais respiro, o espaço para o leitor receber a informação e refletir. Foi como editar um filme, cortando alguns planos para incluir um plano que estava faltando. O último quadro era super importante para que a página tivesse cara de fim de capítulo.

2irmaos-p065-final

Antes, no último quadro, tínhamos um texto longo, de remorso e arrependimento, junto somente com o foco na expressão amargurada de Halim e um vulto cortado ocupando o primeiro plano. Agora, temos os dois personagens mais ao longe, de costas para o leitor, misteriosos, mirando o rio Negro, a revoada de pássaros, o sol se pondo no horizonte entre as gordas nuvens de Manaus, tudo isso acompanhado somente das duas últimas frases curtas se referindo à Zana, cuja importância na história é tão grande quanto seu poder sobre o Halim, e sua beleza, vontade e decisão são tão fortes quanto toda esta natureza sem fim que nos engole.

* * * * *

Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
Site — Twitter — Instagram — Facebook

2 Comentários

  1. Ganhei o livro este fim de semana e li em 02 dias. Realmente, é maravilhoso, tanto a história quanto a arte. Há muito ouvia falar dos irmãos Fábio e Gabriel, mas essa foi a primeira vez que li um trabalho de vocês. Pretendo trabalhar com ilustração e quadrinhos e achei muito interessante esse texto sobre seu processo de criação. Obrigado por compartilhar e parabéns !

  2. Lucas Henque Pereira da Silva disse:

    Ótimo texto,é muito legal saber como foi o processo de produção de uma adaptação tão complexa.Ansioso para comprar o quadrinho!

Deixe seu comentário...





*