Obrigado, Spock

Por Paulo Scott

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1.
Há muitos critérios para se apontar a presença de uma grande personagem — a aptidão que essa personagem (uma personagem de consequências irrecusáveis) tem de desfazer toda e qualquer convenção que, por ventura, sustente a realidade que a recepciona e a defina é um desses critérios.

Essa significância pode se tornar ainda mais intrigante quando decorrer de uma personagem concebida para coadjuvar, adjuvar, ajudar. No Dicionário Houaiss, na rubrica literatura, a palavra adjuvante se relaciona à função desempenhada, numa narrativa, por personagem ou força cuja atuação ajuda a realizar o desejo do herói.

2.
Talvez não haja resumo melhor para definir a infância do que a palavra procura — uma procura que será o centro, ao menos daquela existência específica, um centro que muito provavelmente não corresponderá à graça da competição (e do sentir-se confortável na competição) e da vitória (a vitória que deveria ser a decorrência óbvia da competição). É magia pura o conjunto de equipamentos, e a sua desenvoltura animal, embutidos na condição infância. Milagrosa é a efetividade desses equipamentos contra os processos de frustração, produzindo (na infância) uma espécie de imunidade contra o caos, contra a loucura causada pela avalanche de novidades e agressões.

A posição de herói é o começo de tudo, não importando o acaso, o imponderável; a criança é o altar (a singularidade) desatinado que a herdou. Valendo-me (e em seguida subvertendo-a) de uma imagem do James Wood, no Como funciona a ficção, poderia se dizer que só com a maturidade o herói é liberado da tirania de uma inevitável eloquência.

As fabulações e as leituras sentimentais que fazemos dessas fabulações podem facilitar ou dificultar o distanciamento daquela tirania.

3.
Não pretendo aqui cometer um milímetro sequer de inovação diante de tudo que já foi dito após a morte do ator Leonard Nimoy. E pouco importa que em algum momento da sua jornada esse ator, esse grande artista, tenha escrito que não era Spock (e tempo depois que era, era sim, Spock). Minha intenção é, provavelmente de uma forma muito desajeitada, dizer, dizer de novo, o quão necessárias são as fabulações e as personagens que as movimentam, não só as que protagonizam.

Metade terráqueo, metade alienígena, Spock — como foi bem destacado pela Alessandra Stanley quando escreveu sobre o ator e a personagem ao The New York Times, aqui em tradução capenga e levemente adulterada deste colunista — era insensível, insensível até mesmo em relação ao amor, mas sua mãe era humana, e isso significava que nem sempre ele conseguia evitar (suprimir) seus sentimentos. E isso foi justamente o que fez dele o mais inacessível e romântico herói imaginável.

4.
Essa figura e o seu não lugar (a condenação à procura), não tenho direito de esconder, foram alívio em diversos momentos de insegurança extrema da minha adolescência, foram minha banda de Heavy Metal, meus versos de Baudelaire, um modo de encarar que também ecoou nos primeiros anos da minha fase adulta.

Uma personagem marcante, inserida em um grupo de personagens muito marcantes, que aniquilou (não importa se metaforicamente ou não; não dá para perder tempo com isso, né?) todas as convenções que eu conhecia quando assisti à série, nas telas das tevês preto & branco, naqueles anos mil novecentos e setenta.

O mundo obrigando que fossemos Capitães Kirk, James Tiberius Kirk, e aparece Spock. A sobriedade possível, a contenção possível, a bondade que advinha do simples fato de aceitar o não lugar, da solidão e da estranheza que eram só suas e não eram motivos para lamentação.

Sem dúvida, uma nova dimensão ao processo de formação da palavra adjuvante na cabeça de uma criança, de um adolescente – um caminho que, naquele tempo de curtos-circuitos constantes de afirmação da identidade, tempo de precariedades, reforçou a importância da palavra colaboração.

5.
Escritores têm a capacidade de mitificar o que esteja ao seu redor. Escritores adoram mitificar a própria estranheza, a própria solidão. Penso que a solidão é um universo que nunca para de se expandir, penso que um escritor precisa mesmo ser capaz de suportar essa expansão.

6.

No livro Ithaca Road tem essa personagem Anna, uma garota com Síndrome de Asperger, que é um tipo de dupla-face de Narelle, esta sim a protagonista absoluta da história, que, no final das contas, também foi minha forma de homenagear o vulcano/terráqueo. Anna não compreende o trem-bala de sentimentos que é Narelle e não compreende quase nada desse campo, mas é justamente Anna, com toda sua insensibilidade, que guia Narelle à sua redenção possível. (Anna presta um pequeno tributo a Han Solo, outro coadjuvante genial, talvez ela quisesse ser Han Solo, porque era Spock.) As duas, a protagonista e a coadjuvante-primeiro-oficial-da-ponte-de-comando, são solidão, embora só Anna, deflagrada, ocupe a nave da estranheza. O segredo foi descoberto?; tenho convicção de não ter dado spoiler – o afeto entre as duas não é tão óbvio assim.

7.
O mundo de hoje é muito mais Spock do que era na minha adolescência; se você não fosse Kirk você não era nada. Não estou reclamando. Talvez tudo continue igual e eu não tenha notado.

8.
Antes de me dar conta da solidão, eu me dei conta da estranheza. São inúmeros os ínfimos detalhes que fazem de uma criança uma criança estranha. Mas chega um momento em que toda a narrativa dá um salto. Na adolescência, acabei compreendendo (ou me autoconvencendo) que todo mundo é estranho. Compreendi também que a estranheza não estava no ser uma pessoa estranha, mas no se sentir estranho.

Na sétima série, teve uma manhã, aqueles abomináveis sete e vinte e poucos da manhã, em que entrei na sala de aula do colégio marista onde estudava e tinha essa lista de nomes no alto do canto direito do quadro-negro. No topo dessa lista — até onde eu me lembro, não tinha mais do que dez nomes nela, era uma turma de cinquenta e poucos alunos — estava escrito: NERDS DA 7ª-A. E o meu nome estava entre eles. Era para ser ofensivo, era para inspirar o minicirco e o riso categoria minicirco de todos os que não estivessem arrolados na lista — naquela passagem da década de mil novecentos e setenta para a de mil novecentos e oitenta, ser chamado de nerd era receber na testa o carimbo oficial de socialmente desajustado, em caixa alta e com todas as letras —, mas eu me senti tranquilo, nem sequer cogitei algum tipo de vingança futura, o que até teria sido divertido do ponto de vista narrativo ficcional (mas vingança é sempre um troço fraco; como era bem fraca aquela turma dos que sofriam bullying sistematicamente e, para se vingarem da vida que não ajudou o titereiro a pregar em seus peitos a medalha de “Eu sou Capitão Kirk”, praticavam bullying contra os, em tese, mais fracos e expostos do que eles). Eu era um nerd — Que tal, Senhor Spock? Obrigado, Senhor Spock — e para mim estava tudo bem.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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