Sobre cadência e companhia

Por Michaela Nanni

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Antologias são sempre interessantes. Sobretudo as boas. A sensação de seguir com fôlego numa cadência é sempre agradável — e literatura é mesmo ritmo, aguçamento das percepções: léxico, construção, significância, significado. Sem, por favor, essa necessidade toda de apuração de técnicas. Aos menos, não ao leitor. A ele, o que interessa é sempre ela: a cadência da boa leitura. A leitura como companhia.

Em agosto, o selo Boa Companhia completará três anos. Antologias de naturezas variadas, com acordes assonantes a oferecer ritmos distintos a gosto do leitor. Voltado especialmente para alunos dos ensinos Fundamental II e Médio, o selo apropria-se do catálogo de autores da casa e oferece coletâneas selecionadas por tema, gênero ou autoria.

Tendo Jorge Amado como estreante, passamos por Vinícius, Drummond, Paulo Mendes Campos, Mia Couto e Millôr Fernandes para desembocar neste mês em Tchékhov, já avistando Sérgio Porto e Alice Ruiz para o segundo semestre. Se a unidade das antologias citadas se dá pelo estilo próprio de cada autor, que discorre sobre temáticas múltiplas, ainda contamos com o oposto: seleções temáticas dando tom uniforme a obras de autores diversos. Depois de agrupamentos acerca do fantástico, do amor, do horror e dos bichos, ainda em 2015 teremos o humor como elemento organizador de um novo volume do Boa Companhia.

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Capas da coleção Boa Companhia

Nestes dias, juntamente com Kaschtanka e outras histórias de Tchékhov, chega às livrarias a antologia Tempos de Escola. Contos, crônicas e memórias que varrem um período de cento e trinta anos da literatura brasileira e quebram qualquer expectativa que pretenda alimentar — ainda que sem intenção — os lugares-comuns do imaginário escolar na literatura. O lirismo sofisticado e o estilo particular dos autores dão fluidez à leitura sem deixar de fazer notar ao leitor atento as mudanças sociais, organizacionais e estilísticas que acontecem ao longo de mais de um século da literatura nacional.

Machado abre a coletânea com sua conhecida maestria, explorando o dilema psicológico de um aluno que, em contraste com as tramas e responsabilidades que a jornada na escola lhe apresenta, só anseia por seguir a sua vontade de brincar no morro ou no campo e seguir o rufo do tambor de um batalhão de fuzileiros que lhe vem ao encontro. Seguindo o panorama cronológico, encontramos Olavo Bilac acompanhando um hilário caso publicado na Gazeta de Notícias que traz a história de um menino que aprende a ler através dos programas de cinematógrafos, devido ao seu gosto pelo assunto — e o narrador faz um apelo às paixões como substitutos do mestre-escola, uma vez que já não se pode contar com os investimentos governamentais. Teremos ainda Otto Lara Resende, com a inocente raiva sentida por uma garota em relação ao seu namorado de escola por conta de seu falecimento — que a coloca em uma situação completamente marcante e inusitada. Entre narradores atraentes como Lima Barreto e Drummond, seguimos pela antologia até chegar aos nossos habilidosos contemporâneos Sérgio Sant’Anna, Antonio Prata e Fabrício Corsaletti.

Boa Companhia completa três anos proporcionando satisfação a seus editores e leitores. Cumpre seu papel de ser, sobretudo, um selo de cadência da leitura, que passeia ritmado através de toda diversidade e riqueza que as cuidadosas antologias possam reunir.

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Michaela Nanni estuda Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras.