A questão do escritor

Por Joca Reiners Terron

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O cúmulo da ambição de um leitor é desejar todos os livros publicados em todas as línguas existentes, inclusive aquelas ainda por aprender e as que nunca aprenderá, embora saiba que uma vida inteira não seja suficiente para ler a totalidade dos livros publicados em sua língua materna e naquelas que por ventura venha a conhecer.

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No entanto, dentre os maiores leitores da História, Montaigne afirmou ter uma biblioteca de não mais de cem exemplares. Tal economia de recursos não o impediu de ser quem foi. Lembro-me também de uma reportagem com o poeta Décio Pignatari na qual, após sua mudança do sítio onde viveu na região de Jundiaí para um apartamento menor em Curitiba, foi obrigado a se livrar de grande parte de sua biblioteca. Concluía a conversa afirmando que a biblioteca ideal não deve abrigar mais do que oitocentos volumes.

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O conto “A viagem de inverno”, de Georges Perec, relata a descoberta de um livro impossível. Em um final de semana entediante no campo, o professor de letras Vincent Degraël lê ao acaso um volume retirado da biblioteca de seus anfitriões. No livro desconhecido, identifica frases e versos idênticos aos de alguns dos clássicos modernos franceses. Qual sua surpresa, porém, ao descobrir que o livro que tinha em mãos era anterior a todos aqueles clássicos. Aquelas páginas minguadas teriam originado tudo o que havia de essencial na literatura francesa? Então vem a guerra, e a biblioteca da casa de campo é destruída em um bombardeio. Degraël passa a vida a buscar outro exemplar de “A viagem de inverno”, sem nunca encontrá-lo, até morrer em um hospital psiquiátrico.

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Desfecho mais comum entre aqueles marcados pela sina da leitura, a ambição desmedida de um leitor pode ser frustrada logo de início, ao não se encontrar um livro muito desejado, um título que foi traduzido em sua língua, e que em tese estaria ao alcance, dependendo apenas dos talentos de um bom livreiro. No entanto, uma vida inteira pode ser desperdiçada na caça a um volume impossível de ser encontrado, como a do pobre Degraël, e tamanha frustração, além de minar o ânimo de um leitor, pode destruí-lo.

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Ao final do conto de Perec, após a morte de Degraël, seus alunos descobrem o caderno que reunia as informações relativas ao livro “A viagem de inverno”: “as oito primeiras páginas descreviam a história de suas pesquisas frustradas; as outras trezentas e noventa e duas estavam em branco”.

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Interpreto o conto de Perec — um dos mais perfeitos que já li — como uma alegoria do nascimento do impulso criador. É, sem dúvida, uma metáfora de duplo corte, pois ao mesmo tempo que prefigura a faísca da invenção literária, sugere o fracasso que vem embutido em toda criação.

De todo modo, eis o que vem a ser um escritor: o leitor mais ambicioso que, ciente da impossibilidade de ler todos os livros, decide escrever aquele único que lhe falta, aquele único que não pode lhe faltar, preenchendo o espaço vazio da prateleira de sua estante com algo que não desapareça, que não precise ser procurado até o fim do mundo ou o limite de sua sanidade. Se vai conseguir, são outros quinhentos.

Essa busca é a própria atividade do escritor, a sua missão.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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3 Comentários

  1. Kleber disse:

    Mas não tem jeito, se se quer ser bom: HÁ QUE LER!

  2. Vou ali contar quantos tenho na estante.

  3. Este texto, sobretudo a parte sobre Montaigne, me lembrou um argumento de Alain de Botton em seu Religião para ateus (que cito meio de memória):

    A gente se sente culpado por tudo que ainda não leu, mas deixa de levar em conta que lemos muito mais livros do que Santo Agostinho ou Dante leram, ignorando que nosso problema não é bem a quantidade do que consumimos, mas o que absorvemos dessas leituras.

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