Houellebecq, ou a França de cabeça para baixo

Por Marcelo Ferroni

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Foto: Thierry Ehermann

França, 2022. Pela primeira vez na história do país, as eleições presidenciais são disputadas entre o partido de extrema direita e a chamada Fraternidade Muçulmana. Esquerda e direita tradicionais estão fora do páreo e decidem apoiar os muçulmanos. Vencem estes, com uma margem estreita, e o novo presidente, Mohammed Ben Abbes, um sujeito com aspecto de “bom e velho quitandeiro tunisiano de bairro”, mostra-se um político hábil na costura de um novo regime islâmico, virando o país de cabeça para baixo.

Em linhas gerais, esse é o ponto de partida de Submissão, o livro novo de Michel Houellebecq, que sai este mês no Brasil. Foi lançado na França em 7 de janeiro, o exato dia do atentado ao Charlie Hebdo; como se não bastasse, uma caricatura banguela do autor estampava a capa da edição naquele dia. Abalado com os ataques, Houellebecq se retirou da divulgação do livro. Submissão foi considerado uma provocação ao islã. Foi acusado de apoiar ideologicamente a extrema direita, de ser preconceituoso contra os imigrantes, de ser mal escrito. Mas, como aponta resenha do Guardian, e tantas outras que circularam desde janeiro, não é o islã, muito menos os imigrantes, o alvo do livro. Ele questiona, isso sim, nossos próprios valores, “a venalidade e a lascívia previsivelmente manipuláveis do homem urbano moderno, seja ele um intelectual ou não”. Para Emmanuel Carrère — autor, aliás, do mais marcante romance francês de 2014, Le Royaume Submissão é um livro “de uma extraordinária consistência romanesca”, comparado a 1984, de George Orwell, e a Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, obras “proféticas não no sentido de predizer o futuro (…), mas ao enunciar uma verdade sobre o presente. As antecipações de Michel Houellebecq pertencem a essa mesma família”.

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Li o romance em novembro do ano passado, antes de seu lançamento. Soube dele pela primeira vez em outubro, durante a feira de Frankfurt. Numa das reuniões do dia, ouvi de um editor americano que Houellebecq teria um livro novo para 2015, e entrei em contato com a Flammarion, sua editora na França. Depois de longas esperas e negociações, recebi um PDF confidencial, com um estranho e breve título. Perguntei por e-mail se aquele era um nome falso — ora, pensei, o livro estava sendo “submetido” internacionalmente, e sua editora não queria que o título vazasse. “Até onde sei”, me respondeu a responsável por direitos estrangeiros, “este não é um título provisório”.

Eu não tinha, enfim, a menor ideia do que encontraria ali. Não sabia, por exemplo, que a palavra “submissão” fazia uma referência direta ao alcorão. Conheço os últimos romances do Houellebecq — Partículas elementares, Plataforma, A possibilidade de uma ilha e O mapa e o território, que lhe valeu o Goncourt em 2010 — e, nas primeiras páginas de Submissão, consegui reconhecer algumas de suas marcas. Há um professor universitário solitário e ligeiramente misógino (até aí nada de novo, vindo de Houellebecq). Esse professor, François, é especialista em Huysmans e narra os fatos num texto pretensamente enfadonho. Uma situação delicada dele com alunos muçulmanos aos poucos vai se delineando (tampouco nada de novo aqui — Plataforma também trata do islã). A vida acadêmica na Sorbonne vai de mal a pior, assim como seus breves relacionamentos com alunas do primeiro ano. As eleições avançam, o resultado promete ser inesperado, o narrador foge de Paris. Há cadáveres ensanguentados num posto de estrada. Há um leve clima de ficção científica, enquanto François percorre rodovias desertas e recintos desabitados. Há um retiro religioso, e uma virgem medieval que atrai sua atenção. De volta a Paris, o narrador, cada vez mais isolado, procura garotas de programa na internet e sua esbórnia é “sem cansaço e sem alegria”. Seus pais, divorciados há anos, morrem num curto espaço de tempo, mas ele é incapaz de sentir a perda. A história vai se delineando, pontilhada de pequenas armadilhas e desvios. É pontuada também por pastiches de thrillers e mesmo por “lapsos” de tempo, em que algumas mudanças ocorrem mais rapidamente do que o realismo literário poderia admitir. Aos poucos, François entende que nem tudo mudou para pior. Ou, como diria um personagem de Cândido diante do terremoto de Lisboa, “alguma coisa eu ganho por aqui”. Entre uma e outra revelação mística ou iluminada, a realidade vai se tornando clara para François. E nos mostra o brilho de um romance que é polêmico, provocador, que sim, fala do islã, mas que é também muito mais do que isso — e vale a pena ser lido abertamente, sem ideias ou julgamentos prévios. E com uma boa dose de humor.

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Sinopse: Depois de um segundo turno acirrado, as eleições presidenciais são vencidas por Mohammed Ben Abbes, o candidato da chamada Fraternidade Muçulmana. Carismático e conciliador, Ben Abbes agrupa uma frente democrática ampla. Mas as mudanças sociais, no início imperceptíveis, aos poucos se tornam dramáticas. François é um acadêmico solitário e desencantado, que espera da vida apenas um pouco de uniformidade. Tomado de surpresa pelo regime islâmico, ele se vê obrigado a lidar com essa nova realidade, cujas consequências — ao contrário do que ele poderia esperar — não serão necessariamente desastrosas.

Submissão chega nas livrarias no dia 17 de abril e já está em pré-venda.
Veja onde encontrar: [Cultura] – [Saraiva] – [Travessa] – [Curitiba] – [Martins Fontes]

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Marcelo Ferroni é publisher da Alfaguara e autor dos livros Método prático da guerrilha Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam, publicados pela Companhia das Letras.

Um Comentário

  1. luiz schwarcz disse:

    Marcelo é muto bom ter você e os colegas da Objetiva aqui no blog. Bem-vendos. Abraços Luiz

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