Tradutor, escritor, palavrinhas, quadrinhos

Por Érico Assis

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Esses dias o Caetano Galindo esteve por aqui dizendo que considera um livro que traduz como “um livro de Thomas Pynchon/Ali Smith/James Joyce/etc. escrito por Caetano Galindo”. Não foi a primeira vez que o Galindo falou nisso, nem ele é o primeiro a dizer que traduzir é escrever. Mas dizer esse tipo de coisa, ainda mais quando vem de um tradutor, provoca reações inflamadas. E provocou de novo: olha lá na seção de comentários: “Para mim, tradutor bom é tradutor que some no texto do escritor. Aquele que não fica nem subentendido, afinal, a função dele não é adaptar ou reescrever. Perdão, Galindo, mas acho que dizer que você escreveu um livro é prepotência, pois não o fez. Você traduziu.”

Para dizer que traduzir é escrever, não é necessário abrir nem um livrinho de teoria da tradução. É uma questão da Física. Se Éric Sentadeau escreveu “je t’aime” e eu traduzi por “eu te amo”, quem escreveu “eu te amo” não foi Sentadeau. Fui eu. A frase dele começa com “j”, a minha começa com “e”. A dele tem um apóstrofo, a minha não. Sentadeau nunca aprendeu uma palavrinha de português e seus dedos não formariam “eu te amo” no teclado nem por acaso. “Eu te amo” saiu do meu teclado.

Graça infinita, segundo a lombada do livro, é de David Foster Wallace. Muito embora Wallace nunca tenha escrito Graça infinita, e sim Infinite Jest. Quem leu ou está lendo ( \o ) Graça Infinita lê palavrinhas encadeadas no computador do Caetano Galindo, conforme a capacidade criativa de encadeamento de palavrinhas do Caetano Galindo e as referências do Caetano Galindo, sendo que uma destas referências — vamos dizer que neste caso foi a principal — é um livro escrito em inglês por David Foster Wallace chamado Infinite Jest.

Repito: é Física. Se você quiser entrar nas teorias arcanas da tradução, aí vai dar umas voltas por contratos de leitura, que a gente ficciona que existe um autor por trás da tradução, que as ideias são de outro, que só é tradução porque existe um texto de base e…

Digamos que você andava por aí lendo Vício inerente e contou para todo mundo que estava lendo Thomas Pynchon. Vocês foram vistos juntos no café, vocês dividiram a cama, você contou pras amigas que trocou altas ideias com o Thomas Pynchon. Desculpe, era ilusão. Se você leu Vício inerente e não Inherent Vice, você foi ao café, dividiu a cama e trocou altas ideias com sr. Caetano Waldrigues Galindo. Ele só estava usando uma capa de Thomas Pynchon.

No fim das contas, a conclusão das teorias arcanas é a mesma: tradução é escrever (no máximo dos máximos reescrever, que ainda é escrever). E não tente trocar o “escrever” por “criar”, “inventar”, “elaborar”, “estruturar” etc. querendo justificar uma função maior do escritor do texto de partida. Tradutor também cria, inventa, elabora, estrutura etc.

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Aí parei pra pensar de novo na tradução de quadrinhos. O texto dos quadrinhos, grosso modo, é a articulação entre palavrinhas e figurinhas. Tradutores de quadrinhos geralmente só podem mexer nas palavrinhas. As figurinhas geralmente ficam intactas. Porque, né, ai do metido que quiser redesenhar o Moebius, o Paul Pope, o John Romita, o Katsuhiro Otomo.

Mas… e se não fosse assim? E se traduzir um quadrinho fosse mexer nas palavrinhas e nas figurinhas? E se os tradutores fossem desenhistas que se embasam em um quadrinho estrangeiro e refazem aquele quadrinho no seu traço, nas suas cores, no seu ritmo?

Teríamos quadrinhos do Mike Mignola traduzidos pelo Gabriel Bá. Do Frank Miller traduzidos pelo Diego Gerlach. O Rafael Grampá seria um tradutor especializado em Geof Darrow, quem sabe também em Frank Quitely. Akira Toriyama traduzido pelo Vitor Cafaggi. Crumb traduzido pelo Allan Sieber. Quantas retraduções do Eisner já teriam saído? Tiago Elcerdo traduzindo Christophe Blain. John Buscema por Danilo Beyruth. Novas traduções dos Peanuts no traço do Odyr.

Seriam, tipo, remakes? Será que ficariam como as dublagens? Timbre, entonação e ritmo de um James Spader ou de uma Judi Dench no timbre, entonação e ritmo de um ator carioca? Seriam traduções? Sim, seriam, pelo menos, traduções. Seriam boas traduções? Talvez sim, talvez não. Seriam novos quadrinhos? Seriam também.

E sim, seria uma ideia estapafúrdia, mas deixa eu me divertir com a ficção. Era só para chegar a esse ponto: pense que a tradução de prosa é uma história em quadrinhos redesenhada. Nada do que o autor original pensou para manchar a página aparece na tradução. As palavras são outras. Os parágrafos são outros. A contagem de páginas é outra. A capa, mesmo que traga o nome do autor original e que seja até aprovada por este, muitas vezes é outra. O livro traduzido é outro e foi escrito pelo tradutor.

Faz um tempo, terminei a tradução de uma HQ de Jules Feiffer. Feiffer é autor das palavrinhas e dos desenhos. Por um lado, não toquei (e provavelmente ninguém mais tocou) nos desenhos do Feiffer. Por outro, quem ler Mate minha mãe não vai ler uma palavra do que o Feiffer escreveu. Me sinto um pouco prepotente, de fato, como apontou o crítico do Galindo naquele comentário, mas o que você tem que entender ao ver meu crédito de tradutor é o seguinte: “uma HQ de Jules Feiffer com palavrinhas de Érico Assis.” Questão de física.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site — Twitter — A Pilha

13 Comentários

  1. André disse:

    Me desculpe o autor do texto (e Caetano Galindo), e não tirando o mérito do seu trabalho – um boa tradução tem muito valor – mas querer comparar as funções de criação, invenção, elaboração, estruturação, etc do AUTOR do livro com a função de traduzir o livro, soa de uma forma, no mínimo, prepotente. No mínimo. A função do tradutor não é nenhuma das funções acima. Escrever é criar. Traduzir é adaptar o que foi criado.

  2. Rodrigo Lattuada disse:

    Acredito que em outro ambiente, essa discussão teria outros rumos, e que boa parte dos que opinaram aqui têm, na realidade, visões razoavelmente parecidas sobre a questão. Não há necessidade de demonizar ninguém, nem de extremar opiniões diferentes pra que soem ridículas.

    O Érico provavelmente escolheu escrever sobre esse assunto por se tratar de uma questão com a qual muitos dos que se interessam por literatura já se depararam. Ele mesmo expõe algumas ideias conflituosas.

    Da minha parte, não se trata de desmerecer o trabalho do tradutor, nem de negar que ele é o responsável por compôr um texto em uma língua, a partir de um texto em outra. Trata-se de dizer que o trabalho dele está mais bem definido como tradução do que como escrita, por acreditar que o termo seja o mais correto pra designar a atividade. Isso decorre, também, da ideia (e, aqui, acho que reside a maior causa de divergências) de que o trabalho do tradutor deva primordialmente tentar buscar uma versão em uma nova língua para o texto original, e não uma versão que simule, na nova língua, a forma com que o texto original foi lido pelo leitor do idioma original.

  3. Cleuber disse:

    Quando é que alguns articulistas do blog da Cia vão parar de subestimar a inteligência dos leitores? Esse é o tipo de texto engraçadinho que melhor seria se pagassem ao seu autor para ele deletá-lo.