Companhia apresenta: A capital da vertigem

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O jornalista Roberto Pompeu de Toledo levou quatro anos para reconstituir em A capital da solidão a história de São Paulo das origens a 1900. Agora, após três anos de trabalho, ele lança A capital da vertigem, que conta a trajetória da cidade do início do século XX até 1954, quando ela completou quatrocentos anos, já na condição de maior metrópole do Brasil.

Neste panorama abrangente de São Paulo, aparecem personagens como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Di Cavalcanti, Washington Luís, Cacilda Becker, Prestes Maia, Antônio Prado, Francisco Matarazzo, Getúlio Vargas e Jânio Quadros. Da Semana de Arte Moderna de 1922 à gripe espanhola, da Revolução de 1924 à chegada do futebol, nada escapa ao olhar minucioso e revelador de Pompeu. Para você conhecer mais sobre o livro que chega agora em maio nas livrarias, o editor da Objetiva Mauro Ventura fez cinco perguntas para Roberto Pompeu de Toledo. Leia a seguir.

Por que a São Paulo deste período foi batizada por você de a capital da vertigem?

Ao crescimento vertiginoso e às ambições vertiginosas, somavam-se as ideias vertiginosas na cabeça dos intelectuais e artistas modernistas que moldaram a cultura do período. É pouco? Então vai mais uma razão: a acelerada verticalização, que a destacava entre as cidades brasileiras como candidata a uma Nova York ou Chicago do sul, provocava vertigem no sentido próprio, o da sensação ao mesmo tempo inebriante e amedrontadora de galgar às alturas. Continua pouco? Então vai outra ainda: a empreitada desafiadora e algo delirante como construir o Monumento às Bandeiras (de Victor Brecheret), que, ao longo de décadas, somou a religiosa aplicação do artista ao rude empenho de extrair, transportar e moldar toneladas de pedra. Para mim, essa obra representa o estado de espírito da São Paulo do período tanto quanto os arcos de triunfo, que na Europa celebraram desde as glórias dos imperadores em Roma até as vitórias de Napoleão Bonaparte na França. Só numa capital da vertigem, que São Paulo foi só naquele período e depois nunca mais, se gastaria tanto trabalho, tempo e dinheiro numa obra sem utilidade prática. Imaginava-se (ingenuamente, hoje se sabe) que não havia limites ao progresso e que um futuro igual ao do mundo desenvolvido estava ao alcance da mão.

O que fez São Paulo deixar a condição de vila do início do século XX, quando começa o livro, para se tornar a maior cidade do país, quando se encerra a obra?

Na verdade, a arrancada começa nos capítulos finais do livro anterior, com o cultivo em larga escala, no interior paulista, do café, matéria-prima para a bebida que se tornara a mais apreciada nos centros mais avançados do mundo. São Paulo, que além de capital da província (depois estado) estava estrategicamente colocada entre a região produtora e o porto de exportação, em Santos, beneficiou-se dessa riqueza súbita para, de forma igualmente súbita, passar de modorrenta vila do interior a dinâmico centro de negócios e de serviços e, no passo seguinte, a centro industrial.

O que mais o surpreendeu nesse mergulho na São Paulo da primeira metade do século XX? Foram muitas as descobertas?

As maiores descobertas, como sempre, estão nos detalhes — um livro como Madame Pommery —, de Hilácio Tácito, que trata da vida nos bordéis, ou melhor, “pensões de moças”, no início do século XX (e como havia pensões de moças!), ou os textos de um cronista social dos anos 1940. São preciosas colaborações à colagem que pretendi fazer sobre a vida na cidade. Pesquisei muito nas coleções dos jornais, hoje disponíveis online. Daí surgem relatos muito vivos, como é próprio dos relatos feitos ao calor da hora — mais vivos do que aparecem nos livros de história —, de eventos como o surto de gripe espanhola em 1918 e a Revolução de 1924.

Apesar do grande volume de informações, este panorama monumental da história de São Paulo de 1900 a 1954 é narrado de forma fluente. Como você fez para fugir ao academicismo?

Acho que a primeira condição para fugir do academicismo é não ser acadêmico — e eu não sou. Não sou um historiador — não tenho formação para tal. Considero-me um narrador da história. Como escritor e como jornalista, narrar direito, de forma precisa, mas atraente ao leitor, sempre foi para mim preocupação central.

Apesar de ser um livro sobre a história de São Paulo, ele não atrai o interesse só dos paulistas em geral e dos paulistanos em particular. Ele interessa a qualquer tipo de leitor, tantos são os personagens e as situações de alcance nacional. Você procurou desde o início buscar um público amplo?

Para um jornalista, mirar num público amplo é uma obrigação. Não tive esse objetivo nem antes nem depois de iniciar o trabalho. O objetivo é permanente. O fato de o livro poder interessar a um público maior que o paulista e paulistano não é mérito meu, mas da história de São Paulo, que corre sempre em paralelo muito estreito com a história do Brasil.

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