De cheiros e cronologias

Por José Luiz Passos

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Como esta é minha primeira vez, vale a pena começar pelo passado. O próximo homenageado da FLIP, Mário de Andrade, disse mais ou menos isto: tantos andam agora preocupados em definir a autoficção que não sei bem se o livre falar de mim é autoficção ou não, sei que é verdade.

Nasci do açúcar. No mesmo lugar, gente mais rica que eu foi morrer mais pobre do que sou; e quero dizer, inclusive, mais pobre de espírito. O açúcar sufoca por marés de altos e baixos. Aliás, Gilberto Freyre — já que mencionei Mário de Andrade — gostava de repetir um delicioso aforismo do século XVIII: todo doce se converte em cólera. No meu caso, a distância foi sempre um doce de agonias; gosto que trago de volta, bastando para isso fechar os olhos.

De olhos fechados, o que me vem não é um vidro cheio de pitombas, como em Graciliano Ramos; nem a rua da parentela infinita, como em Pedro Nava; nem o gado ruminando um quê de exílio do mundo, à Robinson Crusoé, como em Drummond; mas o cheiro acetinado, espesso, vindo da queima da cana nos partidos e dos armazéns de fabrico e estocagem, postos de frente para a minha casa, na cidade de onde sou.

Aos três anos me mudei de lá. A memória que trago — à exceção do cheiro — é indução dos álbuns de fotografia e das cautelas de pais e avós, que se escondiam do presente soprando mitos. Contar e recontar casos era mais natural do que olhar para a frente. Talvez daí venha minha sensação de que todo livro de história é de um sentimentalismo comovente; supõem que dá gosto buscar a concatenação de situações sucessivas. E hoje me perco imaginando, nessas descrições movimentadas, uma busca não de fatos, mas das vidas que alguém invoca, chamando o passado à ordem do dia.

Noutro lugar já descrevi o sujeito nostálgico como aquele que cede a um puro desejo de simetria: que o de agora seja igual ao de antes. Sou o contrário disso. Quando me volto voluntariamente para o passado, vem de lá sobretudo a companhia de amigos imaginários, que matavam o tempo comigo detrás dum grande tacho de metal, com uma palmeira-leque plantada ali dentro. Essa, para mim, é a companhia do passado. Esses amigos imaginários seguem comigo, aqui, ao lado, como um batalhão de secretas marchando na claridade do dia. Falo com eles; eles me respondem com tiradas pertinentes. Eis a saborosa inconveniência desse cultivo de sombras.

Mas as sombras também podem ser coletivas, mesmo na infância. Por exemplo, o primeiro trabalho de escola do qual me lembro é uma cronologia que fiz na quarta série — salve, tia Lucinha — para uma aula de geografia. Linha do tempo: presença holandesa em Pernambuco. A invenção dum passado compartilhado, vivido na sequência de pilares do tipo ano-a-ano, dá à consciência — digamos, à criança — a sensação dum lastro de fantasmas: antecedentes, heróis, ancestrais, origens; depois, a ligação disso tudo com gente de hoje, aqui no cume, como os brotos duma folhagem sustentada pela raiz do passado em comum.

As três partículas elementares de meu estilo são, portanto, aquele odor de fuligem doce, essa companhia dos imagináveis e a sedução de se imaginar a vida numa sequência que faça sentido para alguém mais, além de mim. E como toquei no assunto meu-estilo, que é como tocar no assunto meu-cabelo, por ora chamemos estilo o conjunto das escolhas de um sujeito na sua consideração sobre como se deve exprimir o gosto de uma vida e como, na consistência desse gosto, encontrar uma linguagem para essa mesma vida.

Um amigo que passou em revista este texto, disse: rapaz, não publique, vão pensar que você ainda está doente, vão ter certeza de que você é um nostálgico. Respondi com um só dedo, no ar. É incrível como o poder dos gestos espanta. Ele falou: bicho, você é o maior ressentido. E senti um cheiro ruim. Eu e esse amigo começamos a nos distanciar. Logo depois, ele sumiu. Já disse que o tema da data de hoje são nossas companhias a distância, não a nostalgia. Mas moro na Califórnia. Abro a porta de casa, vejo uma palmeira, vou ali detrás e imagino outro que me desaprove o passado com mais estilo. Até lá, me ocupo de cheiros e cronologias. E, talvez, de uma próxima, poste aqui alguma coisa mais social e sem sombras, com substância, que exija de mim a presença no tempo presente. Por exemplo, com gente próxima e também estranha, um churrasco.

* * * * *

José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras (1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revista Granta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

5 Comentários

  1. […] mesmo, num post anterior, defini estilo como o conjunto das escolhas de um sujeito na sua consideração sobre como se deve […]

  2. Lúcia Medeiros disse:

    José Luiz encanta a todos nós com o seu jeito único de contar histórias.
    Bom mesmo é conhecer e ter orgulho da história deste brilhante pernambucano, filho de uma grande mulher –
    Beth Ithamar.
    Parabéns ao Blog.

    Lúcia Medeiros
    Recife

  3. Luis Narval disse:

    O sujeito precisaria ser um autêntico Buda para estar plenamente sintonizado com o presente. O passado um dia já foi presente. Assim, o sentimento de nostalgia seria algo parecido com arrependimento sublimado. Essa sublimação tira-lhe a carga de pesar, conforta, justifica e restitui, ao menos na imaginação, algo daquilo que poderia ter sido concretamente apreendido/fruído e não foi. No fundo, nostalgia configura a admissão de uma espécie de mea-culpa involuntária em razão de o presente sempre parecer desconfortável, inadequado, mesmo hostil a quase toda pretensão de plenitude, seja lá qual for a ideia que cada um faça desta.

  4. luiz schwarcz disse:

    Que belo texto e que orgulho de me tornar seu editor.

  5. Valter Ferraz disse:

    Belo texto de estréia. É saudável recordar ainda mais com cheiros, sons, percepções. Nosso passado nunca nos condena. São emanações que retornam. Seu amigo estava enganado. Traga-nos mais histórias de nostalgias, desafogue o peito, tire o fogo morto. Só assim a tua literatura desabrocha, transfigurada em presente.
    No aguardo de mais histórias do passado presnete.
    Forte abraço

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