Knausgård ou Proust?

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Desde que lançou seu romance autobiográfico em seis volumes, Knausgård foi chamado ad nauseam de “Proust contemporâneo” e “Proust norueguês”. Que outro autor escreveu uma autobiografia romanceada que se estende por mais de 3 mil páginas? Mas o autor da série Minha luta não concorda com essa alcunha, ou apenas em parte. “Escrever é lembrar. Nesse sentido, sou um proustiano clássico”, declarou em entrevista à Paris Review em 2013.

No mesmo ano, contudo, afirmou à revista Época não se sentir bem com esse apelido: “Pretendi fazer o avesso de Proust e narrar minha vida sem pensar em estilo, nem em frases longas e hipnotizantes, nem em subterfúgios, como alterar os nomes dos personagens.”

Ora, muitos críticos usaram justamente o adjetivo “hipnotizante” para descrever a prosa de Knausgård. Por mais que a linguagem dele seja considerada mais direta e menos metafórica que a de Proust, o efeito sobre o leitor parece ser o mesmo. Em matéria da última semana na revista Veja, o crítico Jerônimo Teixeira faz uma comparação interessante entre os dois autores, aproximando Proust do pretérito imperfeito, o tempo do recorrente, e Knausgård do pretérito perfeito, o tempo dos acontecimentos pontuais.

Será que é tão fácil diferenciar um autor do outro? Separamos cinco trechos de cada autor para fazer o teste com nossos leitores. A cada semana, publicaremos dois desses trechos em nossa página no Facebook para você adivinhar, e a resposta será atualizada aqui neste post com os próximos trechos.

E então, Proust ou Knausgård?

1.

“Descemos a escarpa coberta de árvores que estava logo abaixo de nós. Quando chegamos ao fundo, cambaleamos de volta pela floresta, talvez uns dez metros para dentro da estrada. Paramos junto ao grande espruce com a casca cheia de resina pegajosa, que tinha uma cor parecida com a de açúcar queimado e um cheiro forte de zimbro, que ficava próximo ao córrego baixo, largo e turvo, onde todas as cores eram verdes e escuras. Por entre os galhos finos das tramazeiras um pouco mais além dava para ver a nossa casa.”

“Mas em compensação estava agora muito longe da margem, e o mar não se me apresentava com vida, mas imóvel, de modo que já não sentia força oculta por detrás daquelas cores, estendidas, como as de uma pintura, entre as folhas das árvores, e a água parecia tão inconsistente quanto o céu, apenas um pouco mais escura no seu azul.”

2.

“Tudo na escola era novidade nessa época, mas todos os dias tinham o mesmo formato, e nos familiarizamos com a rotina tão depressa que ao fim de poucas semanas já não havia mais nada que pudesse nos surpreender. O que se dizia na cátedra era sempre verdade, e o fato de que era dito na cátedra fazia com que até mesmo as coisas mais improváveis se tornassem prováveis.”

“No colégio, na aula da uma hora, o sol me fazia morrer de impaciência e tédio, deixando arrastar-se um dourado clarão até minha carteira, como um convite à festa aonde eu não poderia chegar antes das três horas.”

3.

“Afinal tornou a vir brincar quase todos os dias, pondo ante mim novas coisas que desejar, que lhe pedir, para o dia seguinte, e fazendo cada dia, nesse sentido, da minha ternura uma ternura nova.”

Essas foram algumas das noites mais felizes de toda a minha vida. É estranho, porque não havia nada de extraordinário a respeito delas, nós fazíamos o que todas as crianças faziam, ficávamos sentados jogando um jogo, ouvindo música e tagarelando sobre um assunto qualquer que nos interessasse.”

4.

“Quando acordei no dia do meu aniversário o sol mal tinha nascido. O pacote com o uniforme estava dentro do meu armário. Eu não via a hora de abri-lo. Rasguei o papel, peguei o uniforme, apertei-o contra o meu nariz… será que existia um cheiro melhor que o de roupas novas? Vesti os calções de material brilhoso, depois a camiseta, que era um pouco mais áspera, quase irregular, e as meias brancas. Depois fui ao banheiro para me ver no espelho.”

“Jamais renascerá para mim a possibilidade de tais horas, mas preservo ainda o som de meu choro, quando pude ficar a sós com mamãe. Mamãe, dominada de súbito por minha comoção, começa também a chorar. Ela me propõe, então, de abrir o pacote de livros com que vovó me presentaria pelo aniversário. Trata-se dos quatro romances campestres de George Sand. A maneira peculiar de vovó se relacionar com a arte.”

5.

“Meu avô e minha avó estavam nos visitando, então era impensável que eu não fosse jantar. Ou será que não? Meia hora depois eles subiram a escada. Alguém entrou no banheiro, que dividia a parede com o meu quarto. Não era o meu pai, notei graças aos passos, mais leves que os dele. Mas eu não sabia dizer se era a minha mãe, o meu avô ou a minha avó, porque o barulho no banheiro foi seguido por fortes batidas nos canos de água quente, que apenas o meu avô ou a minha avó seriam capazes de provocar.”

“Após o jantar, ai de mim, via-me obrigado a deixar mamãe, que ficava a conversar com os outros no jardim, se fazia bom tempo, ou na saleta, para onde todos se retiravam quando o tempo era mau. Todos, menos minha avó, que achava “uma lástima ficar-se encerrado no campo” e que tinha incessantes discussões com meu pai nos dias de chuva muito forte, porque ele me mandava ler no quarto em vez de ficar fora. “Não é assim que o tornarão robusto e enérgico”, dizia ela, “ainda mais esse menino que tanto precisa adquirir forças e vontade”. Meu pai dava de ombros e examinava o barômetro, pois gostava de meteorologia, enquanto minha mãe, evitando fazer ruído para não perturbá-lo, olhava-o com enternecido respeito, mas não muito fixamente, como para não parecer que tentava devassar o mistério de sua superioridade.”

* * * * *

Respostas: 

1- 1º trecho: Knausgård em A ilha da infância; 2º trecho: Proust em À sombra das raparigas em flor.

2- 1º trecho: Knausgård em A ilha da infância; 2º trecho: Proust em No caminho de Swann.

3- 1º trecho: Proust em À sombra das raparigas em flor2º trecho: Knausgård em A ilha da infância.

4- 1º trecho: Knausgård em A ilha da infância; 2º trecho: Proust em No caminho de Swann.

5-  1º trecho: Knausgård em A ilha da infância; 2º trecho: Proust em No caminho de Swann.

5 Comentários

  1. Caio Girão Rodrigues disse:

    A melhor maneira de identificar Proust é pelo tamanho das frases. São frases mais longas do que o normal, ele tem esse poder de sustentar uma frase coesa e coerente por linhas…
    Além disso, George Sand foi uma escritora francesa que morreu um pouco depois do nascimento de Proust, então é de se esperar que a mãe de Proust fosse leitora de suas obras, que eram publicadas em folhetins na época.

  2. Suzana disse:

    1. knausgaurd
    2. Proust

  3. Carlos disse:

    Aposto que Proust é o segundo.

  4. Eduardo disse:

    Knausgård, pelo tipo de árvore.

  5. Rui Dias disse:

    Eu acho que o primeiro trecho é do Proust.

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