Nas fileiras de Knausgård

Por Guilherme da Silva Braga

Karl Ove Knausgard copy Maria Teresa Slanzi_2014

Foto: Maria Teresa Slanzi

No fim de 2012 me juntei às fileiras de Knausgård. De lá para cá, traduzi Um outro amor e A ilha da infância, e agora estou mais ou menos na metade da tradução do quarto volume de Minha luta, ainda sem título em português. Entre uma tradução e outra, li entrevistas com Knausgård e procurei resenhas sobre os livros de Knausgård. Tive a oportunidade de fazer viagens à Noruega, onde conversei com todo tipo de gente sobre Knausgård, escrevi um pequeno artigo sobre Knausgård, ouvi autores de literatura contemporânea norueguesa falarem sobre Knausgård e vi o próprio Knausgård entrevistar e ser entrevistado por outros autores. Comecei a ler Sjelens Amerika, a interessante coletânea de artigos escritos por Knausgård, e peguei um autógrafo de Knausgård no meu exemplar. Cheguei a pedir uma entrevista a Knausgård.

Apesar de tudo isso, continuo tendo problemas para dar uma resposta firme quando me perguntam no que consiste a série de romances autobiográficos Minha luta. A pergunta é mais do que justificada: seria difícil encontrar um leitor disposto a embarcar numa jornada de mais de 3.500 páginas a não ser que saiba onde que está se metendo. E — como em muitos outros casos — o autor em pouco ou nada ajuda a explicar a obra.

Segundo o New York Times, quando Knausgård esteve dando entrevistas nos Estados Unidos durante o ano passado, um membro da plateia perguntou sobre o que era o livro. Knausgård respondeu que Minha luta era “um livro normal sobre uma vida normal”. Parece-me que seria necessário ter lido pelo menos um dos volumes da série para compreender o quanto essa resposta é precisa, apesar do aparente descaso. Afinal, seria totalmente razoável dizer que nada de extraordinário acontece no livro. Knausgård simplesmente narra os acontecimentos de sua própria “vida normal” e gasta centenas de páginas com descrições extremamente minuciosas de atividades cotidianas que ocupam a maior parte de nossa vida, mas em geral passam em branco — como ir ao supermercado, dar uma volta no quarteirão para esticar as pernas ou lavar a louça.

A rigor, Minha luta não tem história. Esse definitivamente não é um livro para quem se interessa por conteúdo em literatura: qualquer resquício de enredo que se encontre nessas páginas não deve ser muito diferente do que já acontece na vida do leitor.

No entanto, o projeto de Knausgård consiste justamente em explorar a mediocridade de uma “vida normal” para ver o que se esconde um pouco mais no fundo. Ao abrir mão dos temas grandiosos e da pretensão que em geral os acompanha, Knausgård cria um gigantesco espaço vazio que aos poucos se enche de recordações e reflexões sobre coisas pequenas, mas absolutamente definidoras do que é uma vida. E assim escreve longamente sobre como é sair para almoçar com um amigo; como é arranjar o primeiro emprego; ou ainda como é se apaixonar por uma garota. É quase impossível não se identificar com os acontecimentos narrados, porque são quase todos absolutamente corriqueiros.

O que torna Minha luta um livro singular é a maneira como Knausgård analisa essa “vida normal”: nada parece ser tão pequeno ou tão insignificante a ponto de não merecer atenção, e assim a voz narrativa se vê livre para discorrer de maneira incansável sobre absolutamente tudo o que acontece na vida do narrador ou que lhe desperta a curiosidade. O leque de temas vai desde a atração sentida por uma mulher desconhecida até questionamentos sobre a maneira como tratamos os cadáveres dos mortos, passando por observações sobre o prazer de tomar uma cerveja ou o momento em que pegamos um ovo cozido e o abrimos para descobrir se a gema está dura ou mole.

É com essa sucessão de trivialidades entremeadas por comentários muitas vezes longos de cunho mais ou menos filosófico (e aqui emprego o termo no sentido preciso que adquire em uma mesa de bar), apresentados em um estilo sarcástico e pessimista, que Knausgård se propõe a descobrir com o que se parece um espécime de vida normal quando visto sob as lentes de um microscópio. E assim o leitor é surpreendido por uma visão de contornos pequenos e banais que adquire, durante o tempo em que se dispuser a observá-los de perto, um aspecto grandioso e imponente — a visão da grandeza de nossa singela luta cotidiana.

* * * * *

Guilherme da Silva Braga é doutor e mestre em estudos de literatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Desde 2005 dedica-se à tradução literária, e nesse período traduziu obras clássicas e modernas a partir do inglês, do sueco e do norueguês para diversas editoras brasileiras. Foi tradutor residente da Magyar Fordítóház (Hungria), da Ireland Literature Exchange (Irlanda), do Oversetterhotell (Noruega) e da Übersetzerhaus Looren (Suíça). Ministrou aulas e seminários de tradução literária em nível de especialização e mestrado na PUC-RS e no Trinity College Dublin. Em 2016 foi indicado ao prêmio Jabuti pela tradução de A Ilha da infância, romance de Karl Ove Knausgård publicado pela Companhia das Letras.

7 Comentários

  1. Nico Ruivo disse:

    Traduções diretamente de línguas mais exóticas com certeza é algo enriquecedor para nossa literatura. A lusofonia definitivamente agradece!

  2. Antonio Cesar Mateos disse:

    A nós brasileiros muito nos honra o competente trabalho do Guilherme na difícil arte da tradução. A tarefa a que se propôs o tradutor foi excelentemente cumprida. Parabéns.

  3. Jorge disse:

    Olá. Adorei o teu texto. Andei lendo a respeito disso tudo, do autor e da obra, e me interessei muito em enfrentá-lo. Obrigado!

  4. Fritz Kiemle disse:

    Parabéns e obrigado pelas traduções desses livros que, por tratarem de coisas simples e corriqueiras, de fato nos fascinam. Aguardo cada lançamento ansiosamente.

  5. Lilian Caldeira disse:

    Guilherme,
    Tenho que te parabenizar pelas traduções do livros de Knausgård. Adorei os 2 primeiros livros e estou com o terceiro para ler. É um livro maravilho e muito se deve a tradução bem feita.
    Beijos

  6. Flávia disse:

    Guilherme,

    Li os dois primeiros volumes e estou ansiosa para ler o terceiro.
    Acho que todo encanto dessa obra está mesmo na banalidade, no relato da vida cotidiana, escancarada e crua. Não tem de fato como não nos identificarmos com vários momentos descritos por ele.

    Eu mergulhei de cabeça e lerei com prazer essa obra de 3500 páginas.

    Abraços e parabéns pelo excelente trabalho de tradução.

    Flávia.

  7. Deve ter alguma coisa na fluência da sua tradução, Guilherme, que me permitiu ler os dois primeiros quase numa talagada só. Fui ler o terceiro, em inglês, e essa banalidade de que você fala pareceu mais explícita, e de alguma maneira tudo estava menos bonito. Vai ver é que em português a gente se sente sempre em casa, mas fica aqui a desconfiança de que o teu trabalho é muito bom.

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