Nossa Fierro

Por Érico Assis

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Quadrinho de Lucas Gehre para a Nébula.

A Nébula surgiu no mês passado como um espaço novo para HQs brasileiras, associado à plataforma de publicação online Medium. Tem uma história nova a cada dia útil. Dentro da proposta maior do Medium — criado pelos cabeças do Twitter para que se faça tuítes mais compridos (entenda-se: textos) e para melhorar o nível da discussão do tema que se quiser —, a Nébula se identifica como “quadrinhos, jornalismo e cotidiano”. Os autores costumam pegar um tema e destrinchar em uma pequena HQ, às vezes do tamanho de uma charge. A referência é o Nib, espaço de HQ-reportagem, charges e crônicas em HQ no Medium em inglês.

Até aí nada de novidade, porque o Brasil sempre teve e ainda encontra nos jornais uma tradição de chargistas que consegue resumir a discussão nacional do dia em um desenho. Mas os “quadrinhos, jornalismo e cotidiano” da Nébula são mais.

A série Relatos da Greve em Curitiba, de Guilherme Caldas, é uma HQ-reportagem com o cuidado estético que dá mais cor às notícias que circularam do Paraná para o país nas últimas semanas. A ironia devastadora do Bruno Maron em Sabe qual é o seu problema? O jogo desproporcional no porte de armas conta em 16 quadros o embate entre direita pragmática x esquerda acadêmica no Brasil. Pacha Urbano tem tratado das suas desavenças (não só dele) com o Facebook. Mesmo quando a LoveLove6 faz algo que é mais próximo de uma charge — Um bebê de $2 bilhões e 200 mães que não valem nada — não se tem uma charge comum. Não no tamanho, no mínimo.

E vai mais. A publicação mais forte no site até agora, Cão cego, rei monstro, de Pedro Franz, segue o “quadrinhos, jornalismo e cotidiano” misturando fascismo, história do Brasil, black blocks, racismo e donos de cachorro com seus cachorros. Mas não é uma crônica usual, pois já são três capítulos que misturam realidade e ficção e, mesmo que cada capítulo proponha um argumento, percebe-se que vai sair uma narrativa maior. Jesus Carlos, de DW Ribatski, também se anuncia como algo maior e parece que não se encaixa necessariamente no tom jornalístico/cronístico da Nébula. Parece mais uma história, no sentido ficcional, desligada da obrigação de comentar alguma coisa.

A Nébula é bastante nova e sempre se tem receio quanto à durabilidade de iniciativas assim. Mas pode ser muito. E se liga a uma conversa que tive há poucos dias: por que a gente não tem uma Fierro?

A Fierro, no caso, é a revista mensal que sai há quase dez anos encartada no jornal argentino Pagina/12. É uma antologia, que reúne HQs dos melhores quadrinistas argentinos em atividade. Lucas Nine, Ignacio Minaverry, Fernando Calvi, Lucas Varela e outros estão lá com frequência; o lendário Juan Gimenez voltou para uns números, Liniers tem participações esporádicas e de vez em quando desenterram um roteiro perdido do Carlos Trillo. É a segunda encarnação da revista, na verdade. A primeira surgiu nos anos 80 e durou cem edições. A versão atual, nascida pós-crise, em 2006, recentemente superou a predecessora: está no número 103.

O interessante da Fierro, como comentou um amigo, é que os quadrinistas de lá aproveitam a revista para publicar capítulos de obras maiores. É o modelo que se tem há décadas no Japão e na França-Bélgica, às vezes nos EUA: depois de sair na antologia, junta-se uns dez capítulos e você faz um álbum. Serve inclusive de auxílio financeiro durante a produção. Alguns autores aí publicam o álbum direto na Europa, aproveitando um intercâmbio que já é velho entre argentinos e as editoras francesas, espanholas, italianas — e lá, é óbvio, paga-se melhor e vende-se melhor que na América Latina. Aspecto bônus: para saber o que é o quadrinho argentino no momento, basta ir a uma banca argentina e comprar a Fierro do mês.

A Fierro é uma revista impressa e a Nébula é digital. Essa diferença rende uma longa discussão sobre alcance e relação com o suporte. Por outro lado, parece que alguns autores na Nébula estão se ensaiando para aproveitar o site como espaço de desenvolvimento paulatino de álbuns, como acontece na Fierro. E as duas remuneram os colaboradores — ou seja, dão algum apoio financeiro para a produção — o que não é realidade para toda publicação de quadrinhos.

Acessar a Nébula é saber o que é o quadrinho brasileiro atual? A estatística pede pra dizer que não: tem uma cambada de autores e de estilos que não estão lá. Mas se um argentino ou outro gringo me perguntar onde se vê o quadrinho brasileiro atual — ou qual é a nossa Fierro — eu citaria a Nébula com todo orgulho ufanista.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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