Os primeiros passos

Por Gabriel Bá

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Dois meses. Duas línguas. Nove sessões de autógrafos em cinco cidades na França, mais de 4.000 livros vendidos nas primeiras quatro semanas. Oito eventos em cinco cidades do Brasil, todos com bate-papos e longas sessões de autógrafos. Quase 6.000 livros distribuídos. Contratos assinados para lançar edições em inglês e italiano ainda este ano. Nunca imaginamos que este livro pudesse ser tão brasileiro e, ao mesmo tempo, tão internacional.

Quando penso no Dois irmãos, parece que minha cabeça se transforma no Biblos, restaurante do viúvo Galib, com sua algaravia de vozes e línguas. Formulo frases em francês pra explicar a história, resultado do lançamento no Salon du Livre de Paris e da pequena turnê pela França, em março, promovendo a edição do Deux Frères, publicada pela Urban Comics simultaneamente com a edição brasileira. Na semana passada, terminei a revisão do livro em inglês e passei os últimos dias discutindo o livro com o editor, pensando na edição e no lançamento nos EUA. Mas quando penso nas frases do livro que mais me encantam, as palavras ainda vêm em português.

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Depois de uma gestação de quatro anos, finalmente temos um livro novo no Brasil. Durante esses quatro anos, pudemos trabalhar em silêncio no Dois irmãos, não falamos ou mostramos nada do livro, assim como não fomos questionados sobre ele, pois as pessoas ainda estavam descobrindo o Daytripper. Incrivelmente, nosso último livro sobreviveu no interesse do público, nas prateleiras das livrarias, na boca do povo. Viajamos o mundo por causa do Daytripper. Sempre questionados sobre novos trabalhos, respondíamos que estávamos trabalhando nesta adaptação e a conversa parava por aí. Com o livro finalmente pronto e em mãos, surgem agora as razões para sair do isolamento produtivo e encontrar o público, falar da história, falar do trabalho, essa conversa entre leitor e autor só possível quando intermediada pela obra.

A curiosidade em cima do livro é enorme, cheia de “comos” e “porquês”, e o público presente nos lançamentos é muito diverso, incluindo nossos leitores, leitores do Milton, e até pessoas que se interessaram na obra depois de ver uma matéria na imprensa. Muitas pessoas descobrindo a história. Muitos não sabem nada do nosso trabalho, muitos não conhecem o Milton, mas a beleza desta adaptação está na união dessa gente toda, na ampliação de ambos os públicos.

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O Daytripper foi publicado inicialmente nos EUA, já ganhou edições em 12 línguas e tem nos levado para convenções ao redor do mundo, mas ele também nos aproximou mais do público brasileiro. O Dois irmãos pode reforçar ainda mais esses laços. As duas histórias poderiam se passar em qualquer outro lugar do mundo, mas por se passarem no Brasil elas ganham mais autenticidade, mais camadas de leitura, dão mais ferramentas de reflexão ao leitor brasileiro. O livro do Milton apresenta uma cidade encantadora, mas praticamente desconhecida, isolada geograficamente e perdida no tempo.

Depois de trabalhar por tanto tempo com essa história, criamos uma ligação muito forte com Manaus, uma relação que só o tempo traz. Poder retornar à cidade para lançar o livro foi uma enorme honra, uma chance de voltar no tempo e reviver a história do livro, pois a cidade que conhecemos há quatro anos também não existe mais, continua mudando. O inusitado lançamento de uma adaptação para os quadrinhos da maior obra do autor mais celebrado da cidade tomou conta do largo São Sebastião, mobilizou a grande mídia local, e várias pessoas pararam para escutar os dois gêmeos que respondiam perguntas, hipnotizando a todos com a novidade, com o circo. Alguns ali também não conheciam o Milton nem o romance, mas ficaram admirados com aqueles artistas de São Paulo, que haviam pintado tão belo retrato da sua cidade. Ninguém reparava no desenho em preto e branco. Viam uma cidade de avenidas largas, praças amplas e arborizadas e lindos sobrados. Uma cidade que alguns poucos presentes conheceram, mas todos sentem saudade. O poder que a ficção tem de falar da realidade.

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E finalmente, temos o Milton. Este trabalho nos apresentou e nos aproximou do Milton, um sábio, um mestre, um amigo. Ouvir o Milton falando do nosso livro é como ouvir um professor elogiando o desempenho do seu filho na escola, nos infla o peito de orgulho. Ele não está se gabando ou falando bem de sua própria obra, mas fala como maior conhecedor do assunto. Ele podia não saber nada da profissão de quadrinista, mas entende o trabalho e fala do nosso livro, da complexidade da história, dos personagens como se não tivessem saído da cabeça dele. Como ele mesmo disse, os dois livros são irmãos, mas não são gêmeos.

Nossos trabalhos são semelhantes e diferentes e o livro nos uniu, criou uma relação de respeito mútuo. A relação do Milton com a escrita, com a literatura, nos ensinou muito sobre os quadrinhos.

Este livro tem tudo que nós sempre acreditamos ser possível de fazer: uma história incrível, com a intensidade e poesia da literatura e o poder narrativo dos quadrinhos. Ele já nasceu falando mais de uma língua e viajando o mundo, e esses são só os primeiros passos.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo, e em 2015 lançaram pela Quadrinhos na Cia. a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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2 Comentários

  1. Ramon de Córdova disse:

    Há previsão de lançamento do livro em Brasília?

  2. luiz schwarcz disse:

    Com autores assim a vida de editor fica fácil e mais prazeirosa ainda.

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