Rasuras

Por Paulo Scott

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Imagino que, neste meado de segunda década do século XXI, ainda se poderia dividir o mundo entre pessoas que toleram rasuras e as que não toleram. Um documento rasurado é, em tese, um documento sem valor. Não é, entretanto, de documentos incapazes de produzir efeitos específicos para isto ou aquilo que pretendo tratar – embora desse contexto dos acordos surjam sempre intrigantes a noção de vínculo e a possibilidade de vontades, que externadas, produzam vínculos que poderão ser cobrados, inclusive pelo uso da força, para permanecerem: vínculos.

Um bom poema, um poema bem resolvido, assentado sob um punhado de rasuras não perde o seu valor – a rasura não o impede. Um roteiro de cinema não ganha alma se não tiver rasuras. Um esboço, mesmo sem rasuras, é o jardim das rasuras. Rasura é risco e é raspagem. A ação, não importa a técnica, é incapaz de eliminar a letra (a letra está lá, restando com sua própria unificação; mina enterrada, armada). Rasura é litura, e litura é letra que se tentou eliminar, letra não desejada que, no máximo, desfragmentou.

Não desejar, paradoxalmente, é uma forma de proteger; tirar dos olhares alheios, dos olhares que não entenderem o código, a implosão, o mapa da mina – quando essa mina for outra, mineral, quando for um tipo de capelinha da memória.

Quando reviro os poemas que escrevi à mão, perco minutos tentando refazer o que escondi sobre as rasuras; duvido que alguém se aflija diante desses (meus) resquícios tanto quanto eu.

No mundo dos sonhos, aquele do qual tratam os horizontes cênicos – o das projeções e molduras desobedientes que expõem a carne da existência, começando justo pelo que a existência tem de menos prático –, as rasuras podem ser caprichos e podem ser a quebra que concertará.

O computador acabou com a rasura, reduziu minhas chances de me reencontrar no futuro nisso que faço de melhor: errar. Mesmo as máquinas elétricas da IBM, a seu tempo suntuosas, nos davam a chance de rasurar e elas próprias rasuravam, se não estivessem bem reguladas. Talvez um dia alguém invente um aplicativo para rasurar digitalmente/eletronicamente – e até ganhe muito dinheiro durante algum tempo com isso.

Às vezes os poetas fingem rasuras nos seus textos publicados usando aquela ferramenta do Word que coloca uma linha ou duas no trecho selecionado. Nunca será a mesma coisa.

Acho mais grave quando, num romance, se prossegue com personagens rasuradas. Como se sabe: personagens jamais serão pessoas reais. Pessoas reais, e a vida, elas sim, são rasuradas; pecinhas de sonho viciadinhas da silva em reinvenção. Já falei sobre isso aqui nesta coluna, só que de outra forma. Essa é, portanto, a prova, regra de todas as brincadeiras (logo eu que estava inclinado a falar hoje sobre personagens planas e personagens modeladas), resistente, mudar de rumo, igual cidade, rasura.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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