A carta de Stieg Larsson

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Foi numa quarta-feira, 18 de junho, que Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander se encontraram pela primeira vez. Os homens que não amavam as mulheres foi lançado originalmente em 2005, e Stieg Larsson nem viu o sucesso que os seus livros fizeram no mundo todo – o autor faleceu em 2004. Dez anos depois, David Lagercrantz dará continuação à série Millennium, levando adiante a ideia de Larsson de publicar mais livros protagonizados por Lisbeth e Mikael, e não só uma trilogia.

A seguir, leia a carta enviada por Stieg Larsson à sua editora pouco antes de entregar o manuscrito do terceiro livro, A rainha do castelo de ar. Para quem ainda não leu a série, atenção: a carta contém spoilers.

* * *

Sexta, 30.04.04, 21:44

De: Stieg Larsson

Oi Eva,

Acabo de me dar conta de que hoje é Noite de Santa Valburga. Eu tinha me esquecido completamente. Estou ouvindo os jovens conversando, ansiosos para voltar pra casa ou sair para tomar uma cerveja, e prometi que ia liberá-los depois das nove. Coitado do Daniel Poohl – ele é o nosso editor-chefe assistente e faz umas duas semanas que vem dormindo no escritório. Eles estão conversando sobre abrir uma filial do sindicato. Hmm.

Você vai receber o livro III assim que eu amarrar umas pontas soltas.

Estou ansioso para me encontrar com Elin. Não confio totalmente na minha habilidade de transformar minhas ideias em palavras: meus textos geralmente ficam melhores depois que um editor os mutila, e estou acostumado tanto a editar quanto a ser editado. Com isso eu quero dizer que não costumo ficar melindrado com esse tipo de coisa. Vamos discordar de algumas coisas aqui e ali e, claro, assim como todo mundo, eu também tenho as minhas obsessões das quais não estou disposto a abrir mão. Acho que os primeiros capítulos estão um pouco prolixos, e demora até que a história comece a engrenar. Mas a ideia era criar uma galeria considerável de personagens e construir um cenário antes de começar a história. Etc.

Fico feliz de saber que você acha os livros bem escritos. Isso fez esta velha máquina incansável de produzir textos muito feliz.

Talvez você se interesse em saber algumas ideias que tenho sobre os livros:

Em muitos aspectos, me esforcei ao máximo para evitar a abordagem tradicional usada nos romances policiais. Fiz uso de algumas técnicas que normalmente são proibidas – a apresentação de Mikael Blomkvist, por exemplo, é baseada exclusivamente no estudo de caso feito pessoalmente por Lisbeth Salander.

Tentei criar protagonistas drasticamente diferentes dos tipos que costumam aparecer em romances policiais. Mikael Blomkvist, por exemplo, não tem úlceras, problemas com a bebida, ou um transtorno de ansiedade. Ele não gosta de óperas e nem tem um hobby excêntrico, como o aeromodelismo. Ele não tem nenhum problema real, e sua principal característica é o fato de agir como uma “vadia” estereotipada, como ele próprio admite. Eu também inverti deliberadamente os papéis sexuais: de muitas maneiras, Blomkvist age como uma típica “mulher-objeto”, enquanto Lisbeth Salander possui características e valores estereotipicamente “masculinas”.

Um princípio básico que adotei foi jamais romantizar o crime ou os criminosos, bem como não estereotipar as vítimas desses crimes. Criei meu serial killer do livro I me baseando numa mistura de três casos autênticos. Tudo que é descrito no livro pode ser encontrado em investigações policiais verdadeiras.

A descrição do estupro de Lisbeth Salander é baseada num incidente que realmente aconteceu há três anos no distrito de Ölstermalm, em Estocolmo. E assim por diante.

Tentei evitar que as vítimas fossem pessoas anônimas – portanto, por exemplo, passei um bom tempo apresentando Dag Svensson e Mia Johansson antes que seus assassinatos ocorressem.

Eu abomino romances policiais em que o protagonista se comporta como ele ou ela quer, ou faz coisas que pessoas normais não fazem sem que essas ações tenham consequências sociais. Se Mikael Blomkvist atira em alguém com uma pistola, mesmo que seja para se defender, ele vai acabar sendo preso.

Lisbeth Salander é uma exceção a essa regra basicamente porque é uma sociopata com traços de psicopatia, e não funciona da mesma forma que uma pessoa comum. Ela não compartilha com as pessoas comuns os mesmos conceitos de “certo” e “errado”, embora também tenha de lidar com as suas consequências.

Como você provavelmente deve ter notado, eu dediquei um espaço tremendo para personagens secundários que, em diversos aspectos, possuem um papel tão importante quanto os protagonistas. A intenção, é claro, é criar um universo realista em torno de Blomkvist/Salander.

No livro I, Dragan Armansky foi apresentado de forma bastante minuciosa: obviamente ele será um personagem secundário que fica aparecendo diversas vezes. No livro II, o grupo de policiais às voltas de Bublanski e Sonja Modig recebe papéis de destaque. E no livro III, Annika Giannini e Erika Berger ganham muito mais importância do que nos livros anteriores. No livro III, aparece uma outra pessoa que será um membro regular da galeria de personagens dos próximos livros. Isso é totalmente intencional de minha parte. Acredito que os personagens secundários frequentemente podem ser muito mais interessantes do que o protagonista.

O único personagem com quem eu tive dificuldades foi Christer Malm. Na minha ideia original, ele desempenharia mais ou menos o mesmo papel de Erika Berger, mas a trama não funcionou com ele no papel de editor-chefe. Então, eu fui obrigado a criar Erika Berger, que se tornou um personagem muito mais interessante.

Vou acabar tendo um problema com Miriam Wu mais para frente – eu realmente não sei o que fazer com ela. A dificuldade aqui, é claro, é que Lisbeth Salander não pode ganhar uma confidente e, ao mesmo tempo, permanecer isolada. Vamos ver o que acontece. Quanto a Paolo Roberto, vou ter uma conversa com ele muito em breve. Kurdo não é um problema. Ele é meu “irmãozinho”, afinal de contas. Nós nos conhecemos há muitos anos.

Tudo de bom,

Stieg

* * * * *

A garota na teia de aranha, quarto livro da série Millennium, chega às livrarias no dia 27 de agosto.

3 Comentários

  1. […] A carta de Stieg Larsson Foi numa quarta-feira, 18 de junho, que Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander se encontraram pela primeira vez. Os homens que não amavam as mulheres foi lançado originalmente em 2005, e Stieg Larsson nem viu o sucesso que os seus livros fizeram no mundo todo – o autor faleceu em 2004. Dez anos depois, David Lagercrantz dará continuação à série Millennium, levando adiante a ideia de Larsson de publicar mais livros protagonizados por Lisbeth e Mikael, e não só uma trilogia. Fonte: Blog da Companhia. Continue lendo […]

  2. MARIA ALICE disse:

    AGUARDO O LANÇAMENTO COM ENTUSIASMO …
    NÃO ME CONFORMAVA COM O FIM DA SÉRIE…
    QUANDO SOUBE DA MORTE DE STIEG LARSON, FIQUEI TRISTE DEMAIS.
    BOM CONTINUO TRISTE PELA SUA AUSENCIA,
    MAS FELIZ POR LISBETH TER TIDO UMA SOBREVIDA !!!

  3. William disse:

    Achei interessante a descrição que ele faz da Lisbeth. Normalmente não é essa a imagem que as pessoas fazem dela.

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