A questão do ditado

Por Joca Reiners Terron

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Estávamos sempre de chegada ou de partida. O  intervalo entre esses dois extremos, nossa casa, durava pouco, enquanto viagens de mudança pareciam não ter fim. É o que me lembro dos primeiros tempos até os meus 14 ou 15 anos. Nosso recorde familiar de residência foram três anos em uma cidade, Bela Vista. E foi lá que ganhei a ilusão de que, assim como a maioria das outras pessoas, um dia tive amigos de infância.

A culpa era do Banco do Brasil. Eu amaldiçoava o presidente do Banco do Brasil toda vez que meu pai chegava na porta da sala e dizia: vamos mudar, hora de levantar acampamento. Tínhamos poucos dias para nos despedir dos amigos, antes mesmo de merecer chamá-los assim. Mas talvez a informação nos fosse calculadamente sonegada apenas para não sofrermos mais do que o necessário.

Os primeiros objetos da casa a serem encaixotados eram os livros, outro motivo de ódio pelo presidente do Banco do Brasil. É claro que estou forçando a barra aqui ao dizer que odiava o presidente do banco, alguém que eu nem sabia que existia nos anos 70, e de quem nunca soube o nome: eu odiava o Banco do Brasil como um todo, como a uma Entidade Metafísica do Mal, porém hoje sou correntista (“cliente bancário desde 01/97”).

Bela Vista era uma cidade com rio, o que costuma ser coisa boa para qualquer cidade. Não é bom só para a cidade, claro, mas para os habitantes da cidade, e principalmente para as crianças da cidade, se o rio não for poluído. Era meu caso, o de meu irmão e dos amigos que fizemos por lá. Esqueci de dizer que eu tinha um irmão, mas ele era muito menor, mal tínhamos assuntos a conversar. Era dois anos mais novo do que eu, o que equivale a cem anos quando se é criança.

O rio nos ajudou a fazer amizade com os garotos Palmieri e Garibaldi, que calhavam de ser primos. Com os Palmieri e os Garibaldi, ombro a ombro, nós travamos algumas batalhas fluviais contra inimigos reais e imaginários. Além do rio, existia a fronteira, e além da fronteira, existiam paraguaios. Os paraguaios estavam ali para que nossa autoestima ficasse bem no alto. Eram tempos de ingenuidade, aqueles, e acreditávamos no que líamos nos livros, que éramos descendentes dos heróis que venceram a Guerra do Paraguai. Até então não sabíamos que os verdadeiros heróis se encontravam na outra margem do Apa.

A ditadura então se confundia com o ditado, que podia levar uma aula inteira, nem sempre sendo concluído com um ponto final (às vezes o ponto final era uma régua partida pelo professor em nossa cabeça). O ditado não melhorou minha letra nem minha cabeça, além de se confundir com certa ideia de tortura que me acompanha até os dias de hoje, e cujo efeito colateral é o seguinte: para memorizar um texto, qualquer texto, preciso copiá-lo.

Por sorte, a oralização teve seu contraponto lúdico através dos Garibaldi, na verdade por causa do Garibaldi, pai do Flávio e do Guto, marido da Suely e amigo de meus pais. O Garibaldi era gaúcho e também chegara a Bela Vista amaldiçoado pelo Banco do Brasil, mas lá conheceu a Suely, filha de seu Tibi, um fazendeiro, e por ali ficou, imitando o sogro. Nos finais de semana, o Garibaldi nos levava com os filhos para sua fazenda repleta de lendas, desconfio que em boa parte criadas por ele.

De noite, o palco se armava na varanda do casarão: uma fogueira se acendia, pelegos se esparramavam pelo chão, onde os meninos se deitavam à espera do Garibaldi. Ele aparecia depois de algum suspense, a cuia de tereré na mão, e sua entrada era sempre cercada por inevitável pompa trazida pelo chacoalhar das esporas. Suas histórias falavam de mitos regionais como o Pé-de-Garrafa, noivas que se perderam na mata no dia de seu casamento, tesouros enterrados na selva e escravos assassinados que voltaram para se vingar.

O contador de histórias também era rigoroso encenador, e orientava os peões que fizessem ruídos na escuridão da mata ao redor da varanda, e que em determinado momento da narrativa — marcado por um sinal invisível para a audiência aos seus pés —, eles surgissem ao longe, envergando lençóis brancos. Após aguardar com paciência os efeitos de sua história, Garibaldi se erguia assim que um de nós apontasse os fantasmas, buscando a espingarda e disparando tiros para o alto. Acredito que aquelas encenações foram meu primeiro contato com o teatro. As histórias do Garibaldi representavam a liberdade coibida pelos ditados escolares.

Soube, anos depois, que meu amigo Guto, filho do Garibaldi, morreu em uma fogueira diante daquela mesma varanda. Relato aqui apenas o que me contaram, não sei se foi bem assim: na noite de seu casamento, enquanto deveria estar com sua noiva na lua de mel, Guto apareceu na fazenda, bêbado e confuso. Depois de lamentos incompreensíveis, sacou a arma e se suicidou diante dos peões, colocando um ponto final em nossas infâncias.

José Garibaldi da Rosa Neto morreu no último dia 25, aos 74 anos, de infarto. Deixou boas recordações.

PS.: Meu livro Curva de Rio Sujo (2003), cujas histórias se passam em Bela Vista, foi adaptado para o cinema pelo diretor e roteirista Felipe Bragança (de A Alegria, entre outros). A rodagem acontece na cidade nestes meses de junho e julho, em co-produção com a Globo Filmes.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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2 Comentários

  1. Thais Pompeo disse:

    Sou de Campo Grande, MS, e foi uma delicia ler seu texto. Conheço Bela Vista, a fronteira, alguns lugares do Paraguai. Como precisamos de literatura para recontar nossas histórias, atualiza-las, nos olhar… Desejo muitos Joca Terrons por aqui. O filme do livro já rodou em Bela Vista? abs, Thais

  2. Que delícia ler os textos do Joca! Sempre espero ansioso pela coluna dele por aqui.

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