Amigos escritos

licao-do-amigo2

Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade se conheceram em Belo Horizonte no distante abril de 1924, durante a expedição dos modernistas que Mário, junto com Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, o escritor suíço Blaise Cendrars e outros, empreendeu pelas cidades históricas de Minas. Àquela altura o poeta paulista era uma figura de proa da cultura brasileira, enquanto o itabirano ainda não havia publicado seu primeiro livro —  Alguma poesia só iria sair em 1930. A correspondência entre os dois poetas tomaria corpo pelos vinte anos seguintes, até às vésperas da morte de Mário, em 1945, e as suas cartas foram reunidas e anotadas pelo próprio Drummond no início da década de 1980 em A lição do amigo, que agora reeditamos como um tributo ao autor homenageado da edição da FLIP, que começa amanhã.

Pois A lição do amigo é um desses livros aparentemente singelos que, na verdade, encerram uma série de leituras: o relevo dos afetos na constituição de um cenário cultural, a relação entre dois artistas decisivos de nosso país e o processo de amadurecimento de um jovem poeta que, como saberíamos mais tarde, seria um dos mais importantes nomes da lírica de língua portuguesa. Além disso é uma deliciosa viagem por um tempo de livros e delicadezas.

Leia a seguir trechos selecionados da carta que Mário de Andrade enviou quando Drummond publicou Alguma poesia, já percebendo a importância e o enorme poder de permanência desse livro que, oitenta e cinco anos depois de sua publicação, continua um dos mais importantes da nossa lírica.

“A primeira vitória do seu livro e a decisiva, que assegura o valor extraordinário e permanente dele e da sua poesia, é não dar a impressão de passadismo. Me explico. O que eu mais temia, diante da evolução rapidíssima da poética no século XX, é que os poemas de você, muitos antigos e refletindo processos de cinco, seis anos atrás ou mais, e já abandonados, produzissem mau efeito reunidos em volume. Dessem a impressão de adesismo retardatário ou de carneirismo a certos assuntos poéticos que os moços de todo o Brasil se encarregaram de vulgarizar ao excesso, abastardar com a precariedade dos jovens de vinte anos e ficaram reduzidos a pó de traque. Assuntos como recordações de infância, descrições rápidas haicaizadas, a temática nacional, paisagismo sensacionalístico etc. são assuntos já revelhos na poesia modernista e de todos você usa. Compreende-se: o perigo era enorme. (…) Ora, o que me surpreendeu mais foi a integralidade segura, bem macha, com que seus poemas reunidos e em tipografia vencem os perigos que atravessavam. É inútil a gente datar de cinco anos atrás um poema como “Infância” pra que ele readquira o valor qualitativo. Podia ser datado de 1o de julho de 1930. Vence da mesma forma pela quantidade das anotações sensíveis e pela qualidade do todo. Não fazia mal ser de adesão a um assunto rebatido, porque era melhor que os outros sobre o assunto. Seu livro é de hoje, de ontem e de amanhã. Não tem valor episódico. Vale pela força intensíssima do lirismo de você, pela originalidade dele dentro do assunto mais batido. É a melhor vitória dele e de você: livro que ficará entre os melhores do lirismo brasileiro.

(Araraquara, lo de julho de 1930)”