Ao teu lado

Por Paulo Scott

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1.

Muitas vezes a pessoa com quem você divide a sua vida é a primeira a ler seus textos, a primeira a opinar, o primeiro agente de um processo de exposição que vai se ampliando, porque, afinal de contas, você é um escritor e um escritor, não importa o veículo, escreve para ser publicado.

A condição excêntrica dessa possibilidade está no fato de existir um leitor com o qual você divide a sua intimidade.

Aviso que estou longe de escrutinar aqui a mecânica da intimidade. Como anotou o escritor português Miguel Esteves Cardoso no romance O amor é fodido, as coisas da intimidade “não têm graça quando são contadas porque foram feitas para não poderem ter graça fora de nós” — no mesmo parágrafo ainda afirma: “a verdadeira intimidade tem de ser ou inexplicável ou desinteressante”.

2.

A minha rotina de escritor se preenche (e é órbita dela) na presença de Morgana. Nós dois trabalhamos em casa. E quando leio em voz alta dentro do quarto que uso para escrever, porque a porta sempre fica entreaberta, sei que ela escuta da sala, que é onde fica a mesa de trabalho dela, ou do nosso quarto, que, por causa da melhor acústica, é onde ela ensaia quando precisa passar texto em casa.

Boa parte da minha disciplina, hoje em dia, está associada à presença dela e até ao seu olhar surpreso nas vezes em que levanto e vou até onde está só para perguntar se uma ideia qualquer que tenha me passado pela cabeça não é louca demais ou inverossímil demais. Faço isso já sabendo que a resposta dela será “como tu mesmo diz, faz o que tu acha que tem que fazer”, mas faço, é parte de nossa cadeia de rituais não planejados, inexplicáveis e até desinteressantes aos olhos de quem está de fora.

3.

No início deste mês, o site Homo Literatus publicou declarações de dez jovens escritores brasileiros (Ana Cristina Rodrigues, Antônio Xerxenesky, Eric Novello, Jéferson Tenório, Luis Eduardo Matta, Luisa Geisler, Marcos Peres, Rafael Gallo, Sérgio Tavares e Simone Campos) formuladas a partir da pergunta: o que é ser escritor brasileiro em pleno ano de dois mil e quinze?

As declarações são bem legais, maduras. Dentre elas me chamou atenção a do Sérgio Tavares, talvez a mais lúdica, porque ele falou sobre acordar cedo e ajeitar a casa enquanto a esposa se ocupa com as coisas da filha ainda criança, sobre preparar o almoço que será servido ao meio-dia em ponto depois de dar banho na filha e vestir o uniforme da escolinha, sobre tentar encontrar, depois das onze da noite, o tempo para encarar a tela do computador e crer que escreverá algo de relevante.

Um relacionamento que envolva alguém disposto a se tornar escritor (e, sendo escritor — considerado escritor, como observou Jéferson Tenório, numa das dez declarações que referi acima, o que assuma publicamente a tarefa de expor uma experiência estética ao mundo —, permanecer escritor) pode chegar ao estado encantado, à simplicidade poderosa das rotinas, como o que foi narrado pelo Sérgio Tavares — nunca se sabe, não há mapa, não há bussola e para quem olha de fora pode parecer apenas inexplicável e desinteressante.

4.

Então: feliz dia dos enamorados, Morgana, e feliz dia dos enamorados para os que acham que intimidade ainda é coisa que vale a pena, é algo que vale buscar.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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7 Comentários

  1. Paulo Scott disse:

    Reflexão pertinente, Denise. Obrigado. Abraço.

  2. Denise Argemi disse:

    Às vezes a “baboseira romântica” pode dar o tempero do equilíbrio na crítica. Na verdade, muitos se surpreendem quando percebem a possibilidade de haver um outro olhar que não o seu para o próprio trabalho. Já quem crítica procura ser leal ao próprio pensamento e ao mesmo tempo oferecer a dúvida generosa, ainda que pungente, de que algo poderia ser alterado na produção do outro.
    Por outro lado, ainda que às vezes tente negar, no criticado fica a sensação de “como é que não me dei conta do óbvio? Ou, simplesmente pensa:mas não foi isso que escrevi.
    A pergunta que deve ser feita ao escrever é: quero traduzir o que penso ao leitor ou escrevo o que gostariam de ler?
    Dependendo da escolha a critica se revela.

  3. Paulo Scott disse:

    Oi, Mara. Como vai, minha cara amiga? Obrigado pelo comentário, pelo retorno. Beijo.

  4. Deu vontade de ler mais sobre essas rotinas. Vou procurar o texto. Bj

  5. Paulo Scott disse:

    Muito obrigado pelos comentários, Luis e Marcelo. Abraços.

  6. O escritor sempre é mais interessante para si mesmo (porque lida com sua intimidade?). É uma sorte quando interessa também a outros. Por isso é talvez a literatura antes de tudo uma capacidade de convencer.

  7. Luis Narval disse:

    Essa coisa de intimidade, mesmo abstraindo toda a baboseira romântica, é sempre uma questão delicada, principalmente em se tratando de literatura, pintura, etc, já que uma crítica injusta em relação ao trabalho de um artista é mil vezes preferível a um elogio injusto. O que ocorre é que as pessoas mais próximas, por razões erótico-afetivas, tendem a ser complacentes, inclusive quando se trata de pessoas entendidas no assunto. Nesse caso, a crítica até pode surgir, mas normalmente de uma forma terna, acariciante que, por ser justamente terna, acariciante/atenuante (atitude essa que deve ser reservada para outros assuntos que não a da busca e aprimoramento estético), tem o efeito exatamente oposto ao desejável, dado que não gera reavaliação alguma, impasse algum. Ora, mas que escritor, excetuando os masoquistas e os verdadeiramente vocacionados deseja isso! Algo que pode levar, na menor das hipótese, a um bloqueio criativo!

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