Fritz The Cat na livraria infantil

Por Érico Assis

fritz

Na semana passada, o Dicionário de Inglês de Oxford registrou a palavra comix. A definição do substantivo plural é: “Histórias e tiras em quadrinhos, especialmente as escritas para adultos ou de natureza underground ou alternativa”. Na mesma semana, encontrei Fritz the Cat numa livraria infantil.

Veja bem: não era seção infantil de livraria. Era uma livraria infanto-juvenil. A livraria matriz chama-se Xis. Você anda mais alguns metros na mesma galeria e chega na filial, que se chama Xiszinha. A Xiszinha só tem livros para crianças e adolescentes, prateleiras de várias cores, mesinhas com lápis de cor. Xiszinha tem uma pequena seção de quadrinhos. Ali que eu vi Fritz the Cat, de R. Crumb, da editora Conrad, formato álbum, 132 páginas, lançado em 2002.

O gato foi criado por Crumb nos anos 1960. Foi estrela de várias histórias e tinha personalidade adaptável: foi beatnik, pop star, poeta hippie, agente da CIA. A consistência estava na personalidade: mulherengo, arrogante, hipócrita, drogado, indigno da confiança de namoradas e amigos, às vezes meio racista. Era um canalha gozando a/da/na revolução sexual. As gatas, pombas, raposas que Fritz pega têm os peitos e coxas grossas típicos de Crumb. Quase sempre acabam nuas. Em uma das primeiras histórias, ele seduz a irmã. Em 72, Fritz virou um longa animado que inclui cenas das HQs e uma suruba zoológica na banheira. Teve continuação. Fez tanto sucesso que Crumb se irritou e matou o gato nos quadrinhos.

Não que a livraria Xis ou Xiszinha precisem saber o histórico de cada livro que vendem. Mas a capa da edição da Conrad dá dicas: Fritz com a mão enfiadas na blusa de sua gatinha, umas coisas caídas no chão que parecem baganas. A quarta capa deixa tudo bem claro. Fritz the Cat é tão marco dos comix que podia ilustrar o verbete do Oxford. Será que eu devia informar a Livraria Xiszinha?

Óbvio que o meu eu de 20 anos me xingou pelo ataque de moralismo. Mas o caso é que eu não tenho 20 anos e tenho uma filha de quatro anos que gosta de gatinhos. Ela também ama dinossauros, então a levamos para assistir Jurassic World e no final ela resenhou: “Não me tragam mais nesses filmes assustadores”. Fritz não tem dinossauros comendo gente, embora tenha bichos comendo bichos. Não sei o que ela ia achar.

Por coincidência, no mesmo dia eu tinha lido uma declaração do Neil Gaiman: “Sou absolutamente, cem por cento a favor do direito do pai ou mãe dizer: ‘Não quero que meu filho leia isso.’ Sou absolutamente, cem por cento contra o pai ou mãe que diga: ‘Não quero que meu filho leia isso e não quero que outra criança leia.’ São duas coisas bem diferentes”. Ele falava de pais que tentam proibir livros em bibliotecas. Vale para livrarias também, Gaiman? Como eu disse, a matriz da Xis fica a poucos passos da filial Xiszinha, e era só questão de passar o Fritz da Xiszinha para a Xis. Além disso, ninguém proíbe crianças de entrar na Xis-matriz, que tem sua própria seção de HQ.

Tem um ensaio do Alan Moore sobre erotismo e pornografia onde ele diz que “culturas sexualmente progressistas nos deram a matemática, a literatura, a filosofia, a civilização e coisas desse tipo, enquanto culturas sexualmente restritivas nos deram a Idade Média e o Holocausto”. Entre os exemplos, ele fala das estátuas de Pã ostentando ereções nas praças da Grécia antiga e os anéis penianos, com espigões voltados para dentro, que os pais alemães e austríacos no início do século passado prendiam em adolescentes para evitar pensamentos impudicos.

Tem também aquela entrevista maravilhosa do Colbert com o Maurice Sendak, quando este diz que: “Eu não escrevo para crianças. Eu escrevo. Aí vem alguém e diz: ‘Isso é para criança’”.

Também lembro de uma conversa com um amigo que reclamava da Disney, a qual insiste em colocar cenas tristes nos filmes que a filha dele gosta. Justifiquei (mal, muito mal) que filmes também podem ser um aprendizado. Que podem render uma ou duas noites mal dormidas, mas que ajudam a criança a entender o mundo, inclusive coisas ruins do mundo. Tomei: “Minha filha já aprende as coisas ruins do mundo vivendo no mundo. Ela não precisa aprender num desenho”.

Minha vó repetia que só gostava de filmes onde podia ver “coisa bonita”. Dor, sofrimento, tristeza não era coisa pra cinema. O filme preferido dela era Uma linda mulher.

Mexi um pouco mais na seção de quadrinhos e vi que também tinham a adaptação de O estrangeiro para HQ. De repente o problema não é moralismo, imoralismo, nem desorganização ou falta de conhecimento. De repente é só porque gibi é tudo para criança e esse tem um gatinho. Enfim: não avisei nada à Xiszinha. Ainda não sei se devia.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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