Hornby, o rei do pop

Por Pedro Henrique Neschling 

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Todo artista tem um certo prazer egoico quando se depara com uma obra criada por outro que gosta muito. Uma sensação instintiva que o faz pensar “nossa, queria eu ter feito esse negócio!”. É incontrolável. Toda vez que leio um texto do Nick Hornby passo por isso.

Já nem me lembro qual foi o primeiro romance que li dele. Provavelmente Alta fidelidade, esse clássico instantâneo sobre (e d)a cultura pop contemporânea, talvez tenha sido Febre de bola. Não importa. O fato é que cada vez que seguro um novo trabalho do Hornby nas mãos sinto um comichão. Um desejo de virar logo para a próxima página que só diminui à medida que a história vai acabando e começo a sofrer antecipadamente com a ideia de me separar daqueles personagens que sempre me parecem tão próximos, mesmo já sabendo que eles nunca mais me abandonarão ao fim da leitura. Até hoje queria ser amigo do Rob Fleming e sua turma e comprar discos na Championship Vinyl. Me envergonho com algumas desconfortáveis semelhanças com o fanático Duncan, de Juliet, nua e crua, no dia a dia. E toda vez que entro numa conversa sobre arte contemporânea morro de ternura pelo segurança Dave, protagonista do delicioso conto “JesusMamilo”, parte da coletânea Falando com o anjo, que Hornby organizou em prol da Tree House, uma escola especializada em crianças autistas, como o seu filho.

A crítica do The New York Times Book Review ao seu mais recente romance, Funny girl, lançado pela Companhia das Letras aqui no Brasil, diz que “Hornby é um escritor que ousa ser, ao mesmo tempo, engraçado, inteligente e generoso com as emoções”. E é exatamente isso. Uma ousadia. Porque lidar com o universo pop sem abrir mão de profundidade dos assuntos retratados e ainda abusar do humor e da possibilidade de tocar o leitor sem jamais resvalar na pieguice é proporcionalmente uma tarefa tão complicada para o escritor quanto deve resultar imperceptível para quem lê o resultado final. E ele acerta na mosca.

Funny girl é uma leitura leve e deliciosa que faz as quatrocentas e tantas páginas passarem voando. Você se encanta com o furacão Sophie Straw, a carismática protagonista que sai de Blackpool em 1964 para conquistar a Inglaterra, ri do aparvalhado galã Clive, torce pelo correto produtor Dennis, se envolve com as idiossincrasias dos roteiristas Bill e Tony (que dupla!), e, assim, perpassa toda a vida dessa trupe num piscar de olhos.

Entretanto, o grande trunfo de Hornby aqui — como em toda a sua obra — é conseguir em meio a uma estrutura bastante técnica (e previsível até, no caso de Funny girl), além de aprofundar os sentimentos dos seus personagens, destilar uma crítica cruel ao universo que retrata através de camadas sutis de sarcasmo pinceladas em seu texto. É isso que o diferencia. Hornby sempre diz mais do que está na cara num primeiro momento, sem jamais soar pretensioso ou desacelerar o ritmo da história para isso. No fim, te apresenta seus personagens de forma tão carinhosa em suas complexidades (e excentricidades) que invariavelmente soa como aquele cara com quem você gostaria de sentar num bar para conversar sobre a vida — e sobre música! — sem medo de expor suas fragilidades. E é assim que eu acredito que a literatura pop deve ser.

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Pedro Henrique Neschling é ator, diretor, e em setembro lança seu primeiro livro pela Editora Paralela. Fã de Nick Hornby, no livro ele constrói um retrato deliciosamente carioca de uma geração passando pela zona cinzenta do fim da adolescência ao começo da maturidade, usando como pano de fundo a cultura pop do Rio de Janeiro.