Imagem não é ilustração ou lustro

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Lilia Moritz Schwarcz durante a visita guiada no Museu de Belas Artes.

No dia 2 de junho deste ano, Heloisa Starling e eu fomos lançar Brasil: Uma biografia no Museu de Belas Artes, no Rio de Janeiro. O lançamento contava com um programa vasto e, além do debate com o Professor José Murilo de Carvalho, fazia parte da atividade uma visita ao acervo do museu carioca, conhecido, entre outros, por sua excelente coleção de arte acadêmica brasileira.

Às 17h daquele dia, lá estavam sessenta professores para discutirmos juntos algumas pinturas expostas no Museu, e assim “lermos imagens”.

Impressiona como, muitas vezes, essas instituições passam quase que despercebidas no nosso cotidiano, como se os portões solenes e a arquitetura imponente, ou até mesmo os vigias sempre guardando a entrada, cumprissem o papel de desanimar todo aquele que passa por esses verdadeiros patrimônios nacionais, mas infelizmente pouco conhecidos de todos nós.

O MBA possui em seu acervo algumas das obras mais emblemáticas da nossa cultura visual. Até porque, muitas vezes, nos acostumamos a pensar num evento do passado a partir de uma imagem — seja ela uma foto, uma pintura, um mapa, uma gravura —, que se cola na cabeça de cada um de nós feito tatuagem.

Por exemplo, por que será que A primeira missa, do pintor Victor Meireles, consta sempre nos capítulos sobre História Colonial dos nossos livros didáticos? Por que será que acabamos sendo socializados com a ideia de que ela seria a nossa verdadeira “certidão de nascimento”? Pois ela é, mas também não é!

Na verdade, essa imensa tela fala mais sobre o Segundo Reinado do que sobre nosso descobrimento. Afinal, se muitas vezes somos “afiados” e queremos saber tudo sobre um documento escrito — sua data de origem, autoria, conteúdo, recepção —, já no caso das imagens ficamos com a falsa e ingênua sensação de que elas falam por si só. Mais uma vez, elas falam e não falam.

É claro que podemos avaliar uma tela a partir do que ela nos revela como experiência estética. Mas é também possível perguntar sobre as “razões” de um quadro, os problemas que ele carrega e as muitas histórias que fazem parte da produção da obra.

A primeira missa é resultado de uma encomenda do mecenato de Pedro II e foi seguida à risca, no sentido de manter coerência dentro das diretrizes determinadas pelo Paço. “Lê Caminha e caminha”, aconselharia Paulo Barbosa, o poderoso mordomo do Imperador, a Victor Meireles, revelando como a ideia era recuar ao momento fundador do país — quando o Brasil era Brazil, ou melhor, uma América portuguesa —, como já carregávamos, mesmo nessas priscas eras, “um destino pré-determinado”: o de sermos um povo pacífico, irmanado e cordato. Nada de guerras, nada de conflitos, apenas uma grande consagração — um encontro fortuito nos idos de 1500 —, com a Igreja rodeada pelo Estado e os indígenas a tudo assistindo. Aliás, não é coincidência o fato do Império ter criado um indigenismo de fundo romântico e ter se voltado para um período sem tempo, data e local — um tempo mítico —, onde sobretudo não existiriam escravos, ao menos africanos.

A escravidão era a grande contradição desse império, que divulgava no país e fora dele a imagem de uma nação tropical e civilizada. Difícil, porém, garantir essa (boa) representação e ao mesmo tempo justificar um sistema de trabalhos forçados, pautado na violência de um homem sobre o outro.

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Não é preciso andar muito pelos corredores do Museu para se chegar a outra tela, ainda maior em termos de dimensão e de investimento por parte do Segundo Reinado. Praticamente lado a lado, como sempre estiveram originalmente quando foram apresentados na Exposição Geral da Academia Imperial de Belas Artes de 1872, encontram-se dispostas duas outras telas igualmente simbólicas quando se quer narrar a história do Brasil.

Batalha do Avahy, de Pedro Américo, e Batalha de Guararapes, de Victor Meireles. Dois artistas comissionados por Pedro II — e seus diletos —, os pintores produziram dois trabalhos encomendados ao mesmo tempo, no final da Guerra do Paraguai, nos idos de 1870, mas que apresentam ambientes basicamente opostos.

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No primeiro, Pedro Américo figurou o exército imperial brasileiro — sempre uniformizado, leal e a cavalo — como a “civilização”, e o comando paraguaio — com os dorsos nus, patuás aos pescoços, e cometendo atos vis, como roubar carteiras dos mortos ou não proteger colegas indefesos — como a representação do outro lado, o da “barbárie”. Assim, depois de uma Guerra que prometeu ser breve e durou cinco longos e custosos anos; de um conflito que dizimou quase uma geração masculina paraguaia inteira e cuja aliança foi chamada de “Tríplice Infâmia”, o Império tentou “caprichar” na sua imagem a partir da encomenda e comissionamento de duas grandes pinturas históricas e patrióticas.

Mas era tarde demais: sabe-se como a Guerra do Paraguai marcou o apogeu mas também o começo da decadência do Império, e isso fica claro na própria crítica de época. O público aclamou a arte presente na imensa tela de Pedro Américo, mas julgou-a, igualmente, muito violenta. Também sobraram comentários à boca pequena contra o fato desse pintor colocar negros lutando e em situações heroicas bem no meio da batalha. Não era desconhecido o procedimento de alguns senhores que libertaram e enviaram ex-escravos para o cenário da guerra — livrando-se assim, eles próprios, de participar do combate. Mas essa era uma cena muda: pouco comentada.

Muito diferente era a tela de Meireles. Prudente, e diferente de Pedro Américo, o artista preferiu não tratar de uma batalha recente. Isto é, se Batalha do Avay fazia parte do ciclo de eventos sangrentos que marcou o final da Guerra — as famosas Dezembradas —, já nosso moderado Meireles optou em recuar à época da expulsão dos holandeses. Nada como afastar o tempo e assim ganhar uma perspectiva mais “equilibrada” ou ao menos distante.

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A tela, no entanto, é igualmente ideológica ao figurar a vitória brasileira contra os “estrangeiros holandeses” a partir da união de três raças: brancos, negros e índios.

Mas dizem que a pintura era tão artificial que padeceu de sorte oposta. O público que afluiu à exposição achou que ela era pacífica demais, artificial demais e que os cavalos mais lembravam brinquedos ou um carrossel de parquinho de diversões.

Tanto é verdade que o cartunista Angelo Agostini ironizou a disputa, à época, dizendo que os combatentes da “Batalha do Avahy” haviam resolvido sair da tela de Américo e invadir a de Meirelles.

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Para além da batalha pictórica interna, vale mais comentar qual a ideia que organizou esse passeio pelo Museu. Quadros, fotografias, desenhos, mapas não são documentos ingênuos. Ao contrário, contam suas próprias histórias.

Historiadores e cientistas sociais não são críticos de arte — sabemos bem — mas podem ajudar nesse debate, mostrando os bastidores das telas, a autoria das imagens, a importância do contexto.

Mais do que “ilustrar”, no sentido de trazer lustro a uma argumentação prévia, mais do que reflexos inertes, as imagens povoam nossas verdades, nossos costumes, nossa imaginação e as teorias mais arraigadas. Elas não são produto da realidade, mas ajudam a produzi-la. Nada como rever nossas imagens que muitas vezes se tornam uma memória fácil e habitam nossos livros como se fossem meros adereços. Não são!

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13865_gComeçamos aqui, Heloisa Starling e eu, uma espécie de “Diário dos lançamentos”  que temos feito pelo Brasil afora, sempre conversando com professores. Nossa próxima “parada” será uma aula show na próxima FLIP, que foi chamada de “Brasil: uma aula”. O evento ocorrerá na sexta-feira, dia 3 de julho, às 13h30 na Tenda dos autores. No dia seguinte, dia 4 de julho, teremos uma sessão só para professores na Casa da Cultura de Paraty, às 14h30.

Os ingressos para a mesa “Brasil: uma aula”, na FLIP, estão à venda. Saiba mais.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

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