Leia um trecho: O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro

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Uma terra marcada por guerras recentes e amaldiçoada por uma misteriosa névoa do esquecimento. Uma população desnorteada diante de ameaças múltiplas. Um casal que parte numa jornada em busca do filho e no caminho terá seu amor posto à prova — será nosso sentimento forte o bastante quando já não há reminiscências da história que nos une?

Dez anos após a publicação de seu último romance, Kazuo Ishiguro, autor de Não me abandone jamais e Os resíduos do dia, volta às livrarias com O gigante enterrado. Ele não só nos presenteia com um novo romance, mas também se reinventa enveredando pela fantasia para tratar de temas universais como o amor, a guerra, a morte e a memória. Entre a literatura fantástica e o lirismo, Ishiguro se aproxima de autores consagrados da fantasia como George R. R. Martin e J. R. R. Tolkien, sendo um dos lançamentos mais elogiados de 2014. Leia a seguir um trecho de O gigante enterrado, que chega às livrarias brasileiras em junho com tradução de Sonia Moreira.

* * *

Axl continuou a olhar para a chuva. Algum tempo depois, ouviu a esposa dizer atrás dele: “Esta casa devia ser magnífica antigamente, senhor”.

“Ah, era mesmo, boa senhora. Quando menino, eu não tinha ideia do quanto ela era magnífica, pois não conhecia nenhum outro lugar. Ela era cheia de quadros e tesouros maravilhosos, cheia de empregados sábios e gentis. Logo depois daquele corredor ali, havia uma sala de banquetes.”

“Vê‑la assim deve deixá‑lo triste, senhor.”

“Na verdade, boa senhora, eu me sinto grato por ela ainda continuar de pé, mesmo que esteja assim. Pois esta casa testemunhou tempos de guerra, quando muitas outras como ela foram totalmente destruídas por incêndios e agora não passam de um ou dois montes cobertos de capim e urzes.”

Então, Axl ouviu os passos de Beatrice vindo em sua direção e sentiu a mão dela no seu ombro. “O que é, Axl?”, ela perguntou em voz baixa. “Eu estou vendo que você está aflito.”

“Não é nada, princesa. É só esta ruína. Por um momento, foi como se fosse eu que estivesse me lembrando de coisas que aconteceram aqui.”

“Que tipo de coisas, Axl?”

“Não sei, princesa. Quando o homem falou de guerras e de casas incendiadas, foi quase como se algo estivesse voltando a minha memória. Deve ter sido antes de nos conhecermos.”

“Existiu mesmo um tempo antes de nos conhecermos, Axl? Às vezes tenho a sensação de que nós estamos juntos desde que éramos bebês.”

“Eu também tenho a mesma sensação, princesa. Deve ser só alguma maluquice que me deu neste lugar estranho.”

Ela ficou olhando para Axl, pensativa. Depois, apertou a mão dele e disse baixinho: “Este lugar é muito esquisito mesmo e pode nos causar mais malefícios do que a chuva. Estou ansiosa para ir embora daqui, Axl. Antes que aquela mulher volte ou aconteça coisa pior”.

Axl fez que sim com a cabeça. Então, virando‑se, disse para o homem do outro lado do salão: “Bem, barqueiro, como o céu parece estar clareando, vamos seguir nosso caminho. Muito obrigado por ter nos dado abrigo”.

O barqueiro não falou nada, mas, enquanto os dois botavam suas trouxas nas costas, ele veio ajudá‑los, entregando‑lhes seus cajados. “Façam uma boa viagem, amigos”, disse ele. “Espero que encontrem seu filho em boa saúde.”

Eles agradeceram de novo e já estavam atravessando o arco quando Beatrice parou de repente e olhou para trás.

“Já que estamos partindo, senhor, e talvez nunca mais tornemos a vê‑lo”, disse ela, “será que o senhor permitiria que eu fizesse uma pequena pergunta?”

Parado no seu lugar de costume, perto da parede, o barqueiro a observava com atenção.

“O senhor falou de seu dever de interrogar todo casal que esteja esperando para fazer a travessia”, Beatrice continuou. “Falou da necessidade de descobrir se o vínculo de amor entre os dois é forte o bastante para permitir que eles morem juntos na ilha. Bem, senhor, eu fiquei pensando sobre isso. Que tipo de perguntas o senhor faz para descobrir o que precisa?”

Por um momento, o barqueiro pareceu hesitar. Depois, disse: “Para ser franco, boa senhora, não me cabe falar sobre esses assuntos. Na verdade, nem deveríamos ter nos encontrado hoje, mas algum curioso acaso nos uniu e não lamento que isso tenha acontecido. Os senhores foram bondosos e ficaram do meu lado, e eu lhes sou grato por isso. Então, vou responder da melhor forma que me for possível. Como a senhora disse, é meu dever interrogar todos que desejem fazer a travessia até a ilha. Se é um casal tal como a senhora falou, que acredita que o vínculo entre eles é forte o bastante, tenho que pedir a cada um deles que me relate suas lembranças mais caras. Eu peço a um e depois ao outro que faça isso. Eles têm que falar separadamente. Dessa forma, a verdadeira natureza do vínculo que existe entre o casal logo se revela”.

“Mas não é difícil, senhor, ver o que realmente há no coração das pessoas?”, perguntou Beatrice. “As aparências enganam com tanta facilidade.”

“É verdade, boa senhora, mas nós, barqueiros, já vimos tantos viajantes ao longo dos anos que não demoramos muito a perceber o que está por trás das aparências. Além disso, quando os viajantes falam de suas lembranças mais caras, é impossível para eles ocultar a verdade. Um casal pode declarar estar unido por amor, mas nós, barqueiros, podemos ver em vez disso ressentimento, raiva e até ódio. Ou um enorme vazio. Às vezes, só o medo da solidão e mais nada. Um amor infinito, que resistiu à passagem dos anos, isso nós só encontramos raramente. E quando encontramos, temos enorme prazer em transportar o casal junto. Boa senhora, já falei mais do que devia.”

“Eu te agradeço por isso, barqueiro. Era só para satisfazer a curiosidade de uma velha. Agora nós vamos deixá‑lo em paz.”

“Que vocês tenham uma boa viagem.”

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