O menino que amava os livros de Stieg Larsson

Por Raphael Montes

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Eu tinha dezoito anos quando Os homens que não amavam as mulheres, primeiro livro da série Millennium, chegou ao Brasil. Na época, eu já era apaixonado por literatura policial e escrevia os primeiros rascunhos de Suicidas. Ao encontrar Os homens que não amavam as mulheres na livraria, lembro-me com clareza que o elogio do Luiz Alfredo Garcia-Roza na contracapa me fez correr ao caixa e levar o livro para casa. Devorei as 522 páginas em um final de semana e, ao concluir a leitura, tive a certeza de que estava diante de algo grandioso.

Em seu romance de estreia, Stieg Larsson realiza literatura em sua plenitude. O volume permite várias camadas de leitura: na superfície, uma trama instigante que entretém o leitor desde o prólogo elegante até o final. Em observações mais atentas, o livro revela uma linguagem apurada, traz críticas sociais pertinentes e questões políticas contemporâneas pouco abordadas pela literatura. Sem dúvida, Stieg Larsson foi o primeiro autor a fazer um “romance policial do século XXI”, num estilo pop e vibrante, explorando todas as possibilidades tecnológicas que nosso tempo permite.

Ao mesmo tempo, Stieg Larsson se revelou um profundo conhecedor da tradição de crime fiction: em suas primeiras páginas, Os homens que não amavam as mulheres lembra um whodunit tradicional de Agatha Christie, com um desaparecimento misterioso, suspeitos em um local fechado e um detetive contratado para investigar o crime ocorrido anos antes. Partindo dessa premissa clássica, a obra ganha contorno e ritmo modernos, principalmente graças a seus dois protagonistas, o jornalista Mikael Blomqvist e a problemática hacker Lisbeth Salander.

Enquanto Os homens que não amavam as mulheres homenageia o romance policial clássico inglês, os dois livros seguintes da série Millennium abraçam outros subgêneros da literatura policial. Com trama ágil, A menina que brincava com fogo faz lembrar um thriller noir norte-americano, com ganchos em cada capítulo e um vilão implacável que ameaça a vida dos protagonistas ao longo das páginas. Neste segundo volume, Mikael e Lisbeth são levados ao submundo da sociedade sueca e precisam enfrentar seus inimigos não apenas com o cérebro, mas com os punhos. Já o terceiro livro, A rainha do castelo de ar, tem referências ao romance de espionagem e certas pitadas de livros de Ian Fleming, criador de James Bond, e de John Le Carré.

Merecidamente, a série Millennium vendeu mais de 80 milhões de exemplares no mundo e rendeu quatro filmes: Os homens que não amavam as mulheres, A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar, todos lançados em 2009 na Suécia, e o americano Millennium: Os homens que não amavam as mulheres, estrelado por Daniel Craig e com direção de David Fincher, de 2011.

Pelo que se diz, Stieg Larsson pretendia escrever dez livros protagonizados por Mikael e Lisbeth. A mim, parece claro que, em cada volume, Larsson pretendia homenagear um subgênero do romance policial. Infelizmente, o autor não teve tempo de ver todo o sucesso que seu trabalho alcançou: ele faleceu em 2004, aos cinquenta anos, vítima de um ataque cardíaco, antes que seu primeiro livro tivesse sido publicado.

A própria história de vida de Stieg Larsson parece uma trama policial: o autor foi um dos mais influentes jornalistas e ativistas políticos de seu país. Fundou a revista Expo, onde denunciou organizações neofascistas e racistas. Quando Larsson morreu, por questões jurídicas, Eva Gabrielsson, companheira do escritor por 32 anos, não teve direito a nenhum tostão da fortuna obtida com a série Millenium — isto porque ela e Larsson nunca se casaram oficialmente. O pai e o irmão do autor foram considerados os únicos herdeiros à luz da lei sueca, claramente obsoleta.

Ansiosos por continuar a série, os editores contrataram David Lagercrantz, coautor de Eu sou Zlatan Ibrahimovic, a biografia do atacante sueco, para a insana tarefa de escrever o quarto livro da série a partir do zero. De início, fiquei ressabiado com a ideia de alguém escrevendo um novo livro com base nos personagens de outro autor. A verdade é que só existe um único Stieg Larsson e isso não tem mais volta. No entanto, agora que se aproxima a publicação de A garota na teia de aranha (27 de agosto nas livrarias), mal posso conter minha expectativa para viver mais algumas aventuras ao lado de Mikael e Lisbeth Salander. Vou conferir.

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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5 Comentários

  1. Bruce disse:

    Também acho que não há sentido em continuar a série com outro autor. Se eu fosse o falecido Larsson, estaria me revirando no túmulo! Como podem mexer nos meus personagens?
    Agora uma dúvida: Pq o nome o 3° livro é a rainha do castelo de ar? Li a trilogia, e acho o máximo quando é “desvendado” o título do livro. Mas não entendi o último. Seria uma alusão À Olaria? Ao apartamento enorme de Lisbeth, ou Ao tribunal fechado ao público? Fico com essa dúvida.

  2. Excelente artigo. Estou curioso para ler o novo livro que, mesmo não sendo de Stieg Larsson, pega na história onde ela terminou.

  3. Wanessa Camara disse:

    O que mais instiga em todos os outros três livros, é a suspeita de que Lisbeth seja portadora da síndrome de Asperger, que é o grau mais baixo de autismo. Deixa no ar que muito da engenhosidade de sua personagem seja por causa disso, mostrando o lado desconhecido dela. Fazendo-a parecer real. Os pensamentos, o cuidado em arrumar a casa com equipamentos de segurança modernos, dão realmemte um ar de livro de mistério. Os três livros são mesmo bem diferentes na ambientação, por isso não cansam. Só deu raiva no fim do terceiro livro, por ser o fim. Mas agora não! Agora ela está de volta! Mais Lisbeth do que nunca!

  4. Renata Ambrósio disse:

    Rafael é um autor fraco. Fico tentando entender qual foi o real motivo para publicação do último livro dele pela Companhia. Vendas? Só pode. Porque esse menino precisa trabalhar muito ainda…

  5. Lilian Caldeira disse:

    Que texto lindo! Eu sou fã dos livros de Stieg Larsson e estou na expectativa para ler o 4º livro. Eu também fiquei com um pé atrás quando ouvi falar do lançamento de um livro do casal Mikael e Libesth Salander sem ser do escritor Stieg Larsson, mas por outro lado eu também estou super curiosa!

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