Um complexo e conturbado personagem

Por Wander Melo Miranda

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1. O livro

Uma grafia da vida de um personagem, no caso o Brasil, do seu nascimento à maturidade — ou do seu longo e inconcluso nascimento. Como sabemos, nação vem de natio, “nascer”. Mas, diferentemente das biografias comuns, a vida continua em aberto — pode-se, então, sempre recomeçar: dizem as autoras no final — “feita a opção democrática, também a Republica pode recomeçar” (p. 508).

Em contraste com sua vida, cheia de percalços, avanços e recuos, a grafia do Brasil: Uma biografia corre solta, flui, surpreende e estimula o leitor a seguir adiante, com a leveza e o humor de um texto que se marca pela sua natureza ensaística, pela incorporação de quem narra ao narrado, a léguas de distância das insossas “histórias” do Brasil que temos habitualmente de enfrentar. Por exemplo, ao concluírem a análise da construção de Brasília e da vocação modernista que a cidade representa, as autoras assinalam: “[Brasília] também sustentou as condições para tornar o poder da República mais asséptico, mais isolado, mais vaidoso, mais arrogante” (p. 428). A adjetivação é deliciosa na sua ousada gradação! Outro exemplo: um capítulo sobre a independência do Brasil recebe o título de: “Quem foi para Portugal perdeu o lugar: vai o pai, fica o filho” (p. 7), apropriando-se com ironia de um aforisma popular.

Tudo nessa biografia foge ao comum, em se tratando do biografado: o texto se constrói por figuração narrativa dos eventos, o que quer dizer que são várias as perspectivas de abordagem de um acontecimento, que vão do público às suas reverberações no privado, na vida de cada um, e vice-versa. Assim, para se falar da chegada de D. João, fala-se das ruelas que vai encontrar no Rio, dos escravos que circulam pelas ruas, das casas de pau a pique — enfim, da desajeitada monarquia nos trópicos, já se tem desde o início um índice iluminador.

Há também um conjunto de imagens significativas, com legendas com textos explicativos. Não são meras ilustrações, são um outro conjunto narrativo que suplementa o conjunto maior e nele se dissemina com força icástica. Isso sem falar na cronologia final, que começa em cerca de 30.000 a.c. com o início do povoamento do continente americano e vai até 2013, tratando de Brasil, Portugal e do mundo. É importante ressaltar também a extensa e atualizada bibliografia que sustenta a argumentação e lhe dá estofo teórico e metodológico incomum. Sem que o texto perca a graça, vale repetir.

2. As autoras

Em “Apesar de dependente, universal” (1980), Silviano Santiago diz o seguinte:

“O intelectual brasileiro, no século XX, vive o drama de ter de recorrer a um discurso histórico, que o explica, mas que o destruiu, e a um discurso antropológico, que não mais o explica, mas fala do seu ser enquanto destruição (…) Como ‘explicar’ a ‘nossa constituição’?. Nenhum discurso disciplinar o poderá fazer sozinho. Pela História universal, somos explicados e destruídos, porque vivemos uma ficção desde que fizeram da história europeia a nossa estória. Pela Antropologia, somos constituídos e não somos explicados, já que o que é superstição para a História, constitui a realidade concreta do nosso passado.” (p. 17-18)

A aporia resolve-se, felizmente, no século XXI com trabalhos como Brasil: Uma biografia. Lilia e Heloisa, uma antropóloga-historiadora e uma historiadora-antropóloga, superam o impasse colocando-se e nos colocando em cheio entre o “não ser e o ser outro”, na notável expressão de Paulo Emílio, não mais como um estigma, mas como um elemento mobilizador da nossa identidade sempre em diferença. Por isso, talvez, nossa cidadania corra sempre o risco de ser postergada, como se houvesse um gap intransponível entre desejo e realização.

A quatro mãos, as experientes pesquisadoras conseguem passar para o leitor — qualquer leitor, categoria em que me incluo — o enfrentamento problema que é o nosso complexo e conturbado personagem. A síntese não compromete o detalhe, a reflexão acirrada não é obstáculo para a fluidez do relato: um equilíbrio difícil de obter, mas que nossas duas escritoras conseguem alcançar com a tranquilidade de quem sabe onde pisa, ou o que escreve.

3. O personagem

Terminada a leitura do livro, o Brasil se revela múltiplo nas suas demandas — muitas delas ainda não satisfeitas — e carente de um traço distintivo forte o bastante para torná-lo uma das forças decisivas em jogo no mundo globalizado. Será por que ainda estamos presos à equação oswaldiana Tupi or not tupi that is the question, epígrafe (e elas são um outro relato) da conclusão do livro? Há aí certa melancolia, ou me equivoco, quando se cita junto outro trecho de Oswald de Andrade?

Quando o português chegou

Debaixo duma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português. (“Erro de português”)

A certa altura se diz que entre nós “a democracia convive perversamente com a injustiça social” (p. 502). Talvez essa equação paradoxal defina nossa difícil contemporaneidade, a que a biografia que estamos lendo oferece inúmeras possibilidades de resolução. É ler para crer!

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Wander Melo Miranda é professor de teoria da literatura e literatura comparada na Universidade Federal de Minas Gerais e diretor da Editora UFMG.

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