Uma entrevista honesta

Por Luisa Geisler

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[soa o alarme de ironia]

Eu tenho um arquivo com um FAQ, um Frequently Asked Questions, perguntas consideradas frequentes. Foi uma dica dada por um colega de Prêmio Sesc de Literatura, uma das primeiras coisas que ouvi num monte de informações sobre o meio editorial na primeira Flip a que fui. Acho que era uma brincadeira.

Mas eu sou uma pessoa muito séria. Isso resultou num documento de Word com várias respostas prontas. Há perguntas que, por um motivo ou outro, sempre me são feitas. Podem ser temas que estão em voga no momento (resultado polêmico de um prêmio literário, dados recentes de leitura) ou que saltam aos olhos no release (minha idade). Não que sejam perguntas erradas, porque eu não sou uma pessoa popular. Mas são perguntas que já respondi muitas vezes para as quais eu não tenho respostas boas, apenas “o de sempre”.

Agora, com exclusividade para o blog da Companhia das Letras, divulgo não o meu FAQ, mas, sim, o meu FAQ dos sonhos. O FAQ sincero. As perguntas que eu mais ouço, respondidas como eu mais quero.

Vamos a elas.

P: Você acha que tem idade suficiente pra escrever sobre problemas que não são da sua idade?
R: Não. Eu sequer tenho maturidade emocional pra lidar com o botão “soneca” do despertador.

P: Você é tão jovem, jovem anos 90, Muro de Berlim, 20 anos, “shovem”, jovem. Como é ser uma escritora jovem? Jovens.
R: O grande lance de ser jovem é que posso ser meio idiota porque sou jovem. Por outro lado, gasto muito tempo pensando em motivos para justificar a idiotice futura, quando não puder usar idade como desculpa.

P: Você se considera parte da geração que muitos autores chamam de Geração Nintendo 64?
R: Oi?

P: Geração Nintendo 64.
R: Acho que não.

P: Você jogava Nintendo 64?
R: Sim.

P: Você escreve?
R: Sim?

P: Então é a sua geração.
R: Espera, qual é o critério—

P: (anotando) “A Geração Nintendo 64 parece desinformada e autocentrada…”

P: Sobre o que são seus livros?
R: Luzes de emergência se acenderão automaticamente é sobre um cara que escreve uma carta pra um amigo, mas não dá muito certo pra ele.
Quiçá é sobre um cara que tentou se matar e não deu certo.
Contos de mentira é um livro de contos, que no Brasil não dá certo.

P: Dá pra viver como escritora no Brasil?
R: Eu te responderia, mas meu unicórnio de diamantes precisa ser alimentado regularmente e preciso checar agora. Meu contador pode te responder melhor.

P: Seus personagens são seus filhos?
R: Sim, pois sou mulher. Mulheres só pensam em filhos.

P: Seus personagens têm algo de autobiográfico?
R: Não, pois são meus filhos.

P: Como é ser mulher e escrever?
R: É realmente difícil digitar com o útero, isso posso adiantar.

P: Quando você começou a escrever?
R: Em algum momento da primeira série.

P: Quem são suas influências?
R: Então, eu releio muito Guimarães Rosa, mas é difícil dizer. Tem fases. Às vezes leio muito de um autor, como foi o meu caso com Nabokov recentemente. Mas nem sempre. Quero evitar os autores de sempre — Hemingway, Machado, Virginia Woolf —, eles soam como referências já muito batidas.

P: (anotando) “A Geração Nintendo 64 é promíscua e participa de encontros sexuais que envolvem violência corporal…”

P: É chato ser vista como uma autora jovem?
R: Não, porque nem sempre acontece. Muita gente já superou o tema.

P: Mas não dificulta a carreira ser uma mera autora jovem?
R: Não, porque nem sempre.

P: Os e-books vão dominar o mundo?
R: Não. Cthulhu vai dominar o mundo. Favor se informar melhor.

P: As oficinas de criação literária são fábricas de autores idênticos?
R: Com licença, tenho que fazer uma ligação.

R: (ao telefone, tapando a boca com a mão) Migos, nos descobriram…

P: Da onde vêm suas ideias?
R: Ora, Robin, que pergunta idiota.

P: Como é escrever um livro de contos e um romance? Você começou com o livro de contos porque contos são sempre mais fáceis de escrever, né?
R: Não.

P: O que te levou a fazer literatura?
R: Por favor, não.

P: O que você diria pra quem está começando a escrever?
R: Não. Mas boa sorte.

[soa o alarme de ironia]

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

8 Comentários

  1. Obrigado pelos textos pirados e inspiradores. Gostaria de contribuir para seu repertório cultural com meu projeto de 2 anos, ainda em construção. Continue assim, xará da minha irmã e inspiradora. http://www.catarse.me/ultimanota

  2. Carolina disse:

    válido criticar a preguiça de alguns jornalistas e entrevistadores, mas achei o tom da autora um pouco arrogante e antipática mesmo, em vez de engraçada. ironia: tem que saber a hora de parar.

  3. Ricardo disse:

    Uma sinceridade muito engraçada. Ri muito.

  4. Abraão Aisten disse:

    Quem elabora as perguntas?Um bebê?

  5. piriripororó, escritora zovem, WHISKAS SACHÊ.

  6. Elizabeth disse:

    Apenas tenho a dizer que MUITO BOM!

  7. Stelmaria disse:

    “R: É realmente difícil digitar com o útero, isso posso adiantar.”

    maravilhoso.

  8. Giuliana disse:

    Algumas perguntas são bem idiotas, mas outras não são tão óbvias ou impertinentes assim e abrem a possibilidade de uma boa resposta (escrever e ser mulher/ quando começou a escrever/ o que levou a fazer literatura). Estou longe de defender o que se faz muitas vezes sob o nome de jornalismo cultural, mas não posso evitar de pensar que muitas respostas foram apenas antipáticas. Mas, como sabemos, ela é jovem – isso explica alguma coisa. Taí o porquê de pensarmos em parar de tratar escritores jovens como gênios e valorizarmos o início da escrita em diversas idades.

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