Booktubers

Por Socorro Acioli

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Há alguns anos acompanho o fenômeno dos booktubers — leitores que criam canais no YouTube para postar vídeos sobre livros. A proposta é simples: eles sentam diante da câmera e conversam informalmente com a audiência sobre impressões de leitura. São vídeos opinativos, em sua maioria, e que não pretendem fazer o papel de critica literária especializada. Ao contrario, muitos costumam reforçar que são apenas leitores e que fazem o canal por diversão, nada mais.

Sempre que vejo esses canais, penso no Sr. Hans Robert Jauss, que no dia 13 de abril de 1967 proferiu sua famosa conferência na Universidade de Constanz, “A história da literatura como provocação à teoria literária”.

Jauss propôs uma mudança de enfoque na arte e na literatura e nascia ali a Estética da Recepção em seu berço alemão, difundida e ampliada por vários pesquisadores na mesma universidade e por outros países.

O enfoque de Jauss era pesquisar e atentar não só para o autor e texto, mas sim para o que ele chamou de “terceiro estado”: o leitor. Nas suas famosas sete teses, ele provoca a abertura de uma nova vereda de pesquisa sobre como a leitura é recebida pelo público, como modifica sua existência. Os frutos das investigações que abraçaram a Estética da Recepção no mundo são inúmeros.

Fico imaginando o quanto o Sr. Jauss gostaria de viver um dos movimentos mais positivos da internet. Acompanhando os canais dos booktubers nacionais temos um retrato da leitura do jovem brasileiro. Um retrato recortado, é claro. Estamos falando de um grupo grande de pessoas com boa escolaridade, acesso à compra ou empréstimo de livros, de faixa etária mais ou menos homogênea e com poder aquisitivo razoável. Ainda não é um espectro amplo, mas uma fonte impressionante de informações.

Os booktubers costumam contar o motivo da escolha de cada livro, a forma de aquisição, tempo de leitura, além de opinar sem reservas sobre o texto, capa, projeto gráfico. Descobri, por exemplo, o hábito de comprar vários livros iguais porque a editora lançou uma capa mais bonita. Os gêneros preferidos de cada canal pode variar muito. O grupo mais jovem foca nos livros Young Adults, mas existem booktubers que determinam metas de ler e reler clássicos, ou autores nacionais, ou só mulheres. Os canais conversam entre si e criam as famosas tags, que são roteiros pré-estabelecidos para os vídeos. E maratonas, desafios, encontros ao vivo, clubes de leitura, participações de um nos canais dos outros e outros tipos de parcerias, formando uma forte rede de leitura.

Quanto ao estilo, existem os seríssimos, os engraçadinhos, os que resumem os livros, os que arriscam uma análise mais profunda, os organizados, os caóticos e os chatos, é claro. A qualidade técnica, de vídeo e edição, também varia muito. É difícil listar os melhores, porque certamente você vai gostar mais daqueles que escolhem livros parecidos com as suas leituras.

O fato é que o movimento dos booktubers é um material precioso para quem tem interesse na literatura e nas diversas facetas do mundo editorial sob o ponto de vista de quem compra e lê muito. Nesse momento confuso, quando o mercado precisa se reinventar, nada mais importante do que ouvir os leitores reais. Atentamente. Canal por canal. Sem preconceitos, sem torcer o nariz para uma bobagem ou outra que escapa de vez em quando, sem pose. Afinal de contas, livros precisam de leitores. Eles estão falando e vale a pena parar e escutar.

* * * * *

Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu(editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santo.
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9 Comentários

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  4. […] Booktubers Há alguns anos acompanho o fenômeno dos booktubers — leitores que criam canais no YouTube para postar vídeos sobre livros. A proposta é simples: eles sentam diante da câmera e conversam informalmente com a audiência sobre impressões de leitura. São vídeos opinativos, em sua maioria, e que não pretendem fazer o papel de critica literária especializada. Ao contrario, muitos costumam reforçar que são apenas leitores e que fazem o canal por diversão, nada mais. Fonte: Blog da Companhia. Continue lendo […]

  5. Eu comecei o canal há pouco tempo porque não tinha com quem conversar sobre as minhas leituras na minha casa. Eu gosto de ler de tudo e tenho a impressão que meu canal vai virar uma miscelânea de indicações, mas estou fazendo como uma terapia. Achei muito legal seu artigo. Paz e beijos

  6. Thiago Rodrigues disse:

    Gostei muito do texto, muito antenado com o que vem acontecendo no universo literário, que cresce exponencialmente com o surgimento dos booktubers. Parabéns, Socorro. Bem que você poderia ter uma coluna mensal por aqui.

  7. Paty Argachof disse:

    Ótimo texto!
    Realmente, sou Booktuber (Canal Borogodó Literário) e acredito que o trabalho que fazemos de maneira espontânea acaba deixando os leitores atualizados e ajuda muito na divulgação dos livros. Eu particularmente uso como termômetro pra compra de livros alguns canais que sigo e muita gente, assim como eu, segue a mesma linha de raciocínio.
    O Youtube é a proposta do momento!

  8. Mr Montmorency disse:

    eu gosto muito de assistir, mas não consigo ter um canal. Falar para uma câmera parece que faz de mim outra pessoa, o que cria um outro leitor e outra leitura.

  9. Camila Melo disse:

    Adorei a matéria e sou viciada em vários canais dos booktubers, pena que nem todos entendem a importância e a influência que eles tem nas mídias sociais e no universo literário.

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