Desapontamentos V

Por Joca Reiners Terron

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1.
Em vez de anteciparem o final de semana, anteciparam o fim do mundo. Mas que cousa.

2.
Cena matinal: homem de boné com seu cão na coleira descem do táxi. Assim que o táxi parte, ambos saem correndo atrás do automóvel. Só o cão late, o que não deixa de ser estranho.

3.
No verão tropical todo cidadão deve estar compromissado com este épico decisivo para o futuro da humanidade, a guerra contra as baratas.

4.
Teoria: a abreviação “bj” é usada em emails de trabalho devido à lascívia da palavra escrita por extenso (geraria mal entendidos). Mas sem acaso (por acaso) existiria o amor?

5.
Palavra-valise de ocasião: bibliotencaixotamento.

6.
Estou de mudança. Dá trabalho se despedir dos cantos amados do bairro. A parte mais complicada é explicar as lágrimas diante do bife à milanesa da esquina, do hidrante simpático, da pitangueira generosa, do garçom amigo.

7.
Cena vespertina: pardal iça lagarta sem sucesso. Gorda demais (folhas da amoreira verdejam de tanta chuva), acabou no bico do bem-te-vi.

8.
Agora que tô encaixotando 5 mil livros eu concordo que o e-book é uma boa ideia. Que puta dor nas costas!

9.
De furadeira na mão, seu Lima, marceneiro e filósofo, diz: “No fim, tudo dá certo, seu Joca”. Ou termina em um buraco negro na parede, penso eu.

10.
Escrever resenha não é como andar de bicicleta. A primeira do ano é um parto.

11.
A pessoa que você ama é composta de 7.000.000.000.000.000.000.000.000.000 (7 octilhões) de átomos e você ainda acredita em monogamia?

12.
SP, verão — 2ª fase: chuvas e trovões às 17h. Nessa fase dá pra adotar a cantada do pessoal de Belém: “nos vemos antes ou depois da chuva?”

13.
A resposta mais romântica, claro, deve ser “e por que não DURANTE a chuva?”

14.
Cena vespertina do centro de SP: um homem sozinho na rua acena para os balcões vazios da padaria.

15.
Cena noturna na Zona Oeste: uma jaca se espatifa na calçada. Silêncio, tudo volta ao normal. Então a jaca espatifada começa a exalar seu cheiro e o mundo se transforma, mergulhado em ilusão.

16.
Descubro que Fred Vargas, romancista policial, não é mexicano nem cubano e sim francesa, além de mulher. O enigma já começou no nome da capa.

17.
Na rica Bananalândia o preço da banana tá pela hora da morte. Eis um paradoxo.

18.
Sonhei com pessoas a quem devo trabalhos. A todas eu repetia a máxima de seu Lima, 85, marceneiro e filósofo: “No final, tudo dá certo.” (o buraco negro pisca duas vezes seu olho cego pra mim.)

19.
O meteorito que cai na Rússia derrubou a NET em São Paulo, explicou o atendente. Tá tudo interligado, tá ligado?

18.
Li no jornal que, aos 98 anos, morreu o maquiador que criou o visual do mestre Yoda. Então Yoda não era real? Desisto da vida, quero morrer.

19.
Triste constatar, mas o mendigo gato se internou, desintoxicou-se e perdeu a linha. Sua boa aparência famélica já não serve aos editoriais de moda.

20.
Tem dia de 12 horas que só almoçando coxinha, mesmo.

21.
Oscar Pistorius. Reeva Steenkamp. Hilton Botha e o detetive Vinesh Moonoo. Com esses nomes misteriosos já antecipo o livro, o filme, as cifras. (Que paródia de policial não daria se escrita por Thomas Pynchon — assassino velocista com próteses, detetive serial killer afastado do caso etc.).

22.
Quanto mais podres os dentes, maior a fome.

23.
Limpador de para-brisa só dá problema quando chove.

24.
Vivian Whiteman já disse na Folhinha que Dilma é a Mônica crescida (dentuça, brava e vestida de vermelho). Isso ainda faz sentido, inconsciente brasileiro?

25.
Ter de ir à Eletropaulo do Anhangabaú para alterar titularidade da conta é a forma que SP arranjou para a classe média encarar a realidade.

26.
Estou tão cansado que sentei na poltrona e me transformei na própria poltrona.

27.
A lição de vida que tenho a dar hoje é: nunca coma três burekas seguidas. Até mais ver.

28.
A Louca da Tok&Stok: quem não esteve casado com ela, nem sequer por uma hora?

29.
Sons noturnos do Centro de SP: caminhōes escangalhados, sirenes, alarmes disparados, pedidos de socorro, discursos incoerentes de alguém fritando.

30.
Dicas para uma vida longa: nunca arranje encrenca com o sujeito que faz a manutenção do seu fogāo velho.

* * *

Leia mais Desapontamentos I, II, III e IV.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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