É um clássico? Então chamem a polícia

Por Vanessa Ferrari

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“Quem lê o romance de sr. Flaubert? Serão homens que se ocupam de economia ou política social? Não! As páginas levianas de Madame Bovary caem em mãos mais levianas, nas mãos de moças, algumas vezes de mulheres casadas.”

Ernest Pinard, advogado de acusação durante a sustentação oral no processo contra Madame Bovary, em 1857.

Como disse certa vez não sei quem, é fácil prever o passado quando a coisa está consumada. A Penguin completa oitenta anos neste mês e alguns clássicos do catálogo que hoje são unanimidades tiveram uma estreia pouco gloriosa. Madame Bovary deixou o advogado de acusação muito angustiado por não haver um único personagem que pudesse controlar os impulsos daquela mulher. A petição de apreensão de Ulysses foi indeferida depois de o juiz considerar o livro sem tendências a “excitar impulsos sexuais ou pensamentos lúbricos”. Em 1960, a Penguin inglesa foi processada por ter publicado O amante de Lady Chatterley. O argumento jurídico era que o romance de D.H. Lawrence estimulava a depravação. Um dos episódios mais famosos talvez seja o de Lolita, de Nabokov, que saiu com a chancela de lixo pornográfico e ainda hoje provoca calafrios nos leitores. Há também 1984 e A revolução dos bichos, ambos de George Orwell, igualmente conhecidos por engrossar a lista dos encarcerados; e Os versos satânicos, de Salman Rushdie, em que a Fatwa “em nome de Deus Todo-Poderoso” condenou o autor (e os editores) à pena de morte.

Por aqui, apenas para ficar em um exemplo, Rubem Fonseca teve seu Feliz Ano Novo confiscado por retratar “personagens portadores de complexos, vícios e taras, com o objetivo de enfocar a face obscura da sociedade na prática da delinquência, suborno, latrocínio e homicídio”.

Peças jurídicas à parte, nem mesmo os leitores mais experientes estão imunes a julgamentos equivocados. Graciliano Ramos elogiou a autora Rachel de Queiroz no lançamento de O quinze usando um raciocínio extraliterário que hoje pegaria muito mal ao afirmar que a obra “fez nos espíritos estragos maiores que o romance de José Américo, por ser livro de mulher e, o que na verdade causava assombro, de mulher nova”. O autor de S. Bernardo, por sua vez, recebeu críticas que diminuíam o seu romance por ele não ter dado voz aos oprimidos.

Mário de Andrade, em carta a Manuel Bandeira, confessou se divertir com as angústias provocadas com a publicação de Macunaíma: “está tudo sarapantado, está tudo inquieto, está tudo não gostando com vontade de falar que não gosta porém meio com medo de bancar o bobo por não ter gostado duma coisa boa”.

E no meio desse emaranhado jurídico-intelectual estamos nós, leitores, às vezes defendendo declarações alheias, às vezes duvidando em silêncio, porque, convenhamos, ninguém gosta de apanhar à toa. Por isso, sugiro ao leitor que ao mergulhar em um clássico siga a regra infalível da preferência pessoal, se gostar, siga em frente, do contrário, eleja outro bom autor. E, no caso das narrativas contemporâneas, para apoiar-se em uma fonte confiável, consulte a polícia moral mais próxima, pois ela costuma ter um ótimo faro para obras-primas.

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Vanessa Ferrari é editora da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana.