O paralelo do visitante perfeito

Por José Luiz Passos

A Nondescript (large)

Ilustração: “A Nondescript”, gravura de I.W. Lowry a partir de um desenho de T.H. Foljambe, publicada emWanderings in South America (Londres, 1825), de Charles Waterton.

1.

Berkeley criou a cátedra de engenharia de viagens faz pouco mais de um ano. “A colheita foi feita, o verão passou e ainda não fomos salvos” (Jeremias, capítulo 8, versículo 20). Essa foi a epígrafe que doutor Kalfayan, pai de Hani, amiga minha, escolheu para a conferência de inauguração.

Ele defendeu a criação da cátedra numa palestra no teatro do campus. Mas na hora de começar não estava presente. Em vez de doutor Kalfayan, baixou uma tela entre a boca de cena e os primeiros assentos. Ele tinha partido às 20h20 da estação El Pueblo de Los Angeles, onde há um mural pintado por Diego Rivera, e, usando um telefone celular, da cabine do trem-bala transmitiu a palestra quase toda, com as vinhetas e suas sensações. Antes de projetar um holograma no vão do teatro, doutor Kalfayan entrou pela porta principal, por trás da plateia, e desceu o corredor entre as fileiras, até o palco. Tinha feito o trajeto de Los Angeles a Berkeley em quarenta minutos, de porta a porta, sem voar, sem filas nem espera, andando, falando, comentando as sensações com centenas de pessoas que esperavam por ele sentadas. A mesma viagem, de carro pela antiga Highway 1, margeando o Pacífico, podia levar nove horas. Kalfayan encerrou sua fala pontualmente às 21h.

A última vinheta que mostrou foi a imagem azul fosforescente de um busto cabeludo, em 3-D, que ora parecia um homem colonial, ora um macaco de olhar tristonho, meio volto, num perfil a três quartos. A legenda embaixo da figura, flutuando acima das nossas cabeças, dizia apenas: A Nondescript. Um indefinível.

2.

Engenharia de viagens é um título que dá a ideia errada da teoria do pai de Hani. Na palestra ele explicou que “Um indefinível” era o busto de um macaco empalhado pelo naturalista Charles Waterton, em 1818, para se parecer a um lorde das primeiras eras ou um cavaleiro arturiano. Na volta da América do Sul, de posse do macaco, Waterton ficou preso na aduana de Liverpool sem conseguir explicar a coleção bizarra dentro dos seus baús.

Doutor Kalfayan falou que numa visita uma coisa tenta se parecer outra, o sucesso está na imitação do conviva. Quem se senta à mesa, usa os talheres como o seu anfitrião. Viaja para fora, quer saber aonde os dali vão. Em Roma como os romanos, doutor Kalfayan disse, a visita é uma arte da cópia. Um brinde deve ser prontamente acompanhado. Apertos de mão, tom de voz e risos pedem reciprocidade. Qualquer um quer ser bem-sucedido no trato e causar boa impressão. Sucesso é controle, e controle é uma boa reprodução, com toda a consciência de ser reprodução. Imitar não seria a forma ideal de se trair?

No começo, o pai de Hani não era considerado um cientista sério. Mas seus algoritmos davam resultados mais próximos à intenção dos usuários. Digite urso de pelúcia e receba de volta links, banners e vídeos com sugestões a seu gosto. Perfil, língua, localização, histórico, quem busca nas redes se torna passível de cópia cada vez mais perfeita. Uma agência do governo contratou Kalfayan para desenvolver um protocolo de contato entre estranhos. Dois diplomatas adversários, soldados inimigos, um homem e um organismo não identificado, o industrial e seu operário rebelde, as diferenças podem ser incomensuráveis, Kalfayan disse. E pensei no velho Brasil, tão longe e sempre aí, tão perto. Se um ladrão viesse me forçar, e eu falasse usando o sotaque dele e mostrasse que gostava do que ele gosta, tudo ficaria bem: A foe at home is no longer a foe. Ele pensaria que, estranhamente, já éramos conhecidos. Nessa igualdade está a força de uma constante. E essa foi a contribuição dele, k, conhecida apenas como a constante Kalfayan. O pai de Hani encerrou a palestra com o tal indefinível: “Attention, ele disse. A maior arma de todas não é um foguete, mas a aparência de uma completa semelhança. Por isso, o verdadeiro amigo deve ser nosso mais perfeito oposto.

* * * * *

José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

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