O restabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos

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Passadas mais de cinco décadas de inimizade e tensão entre Estados Unidos e Cuba, as duas nações retomam oficialmente hoje, 20 de julho, as suas relações diplomáticas. Foi reaberta pela manhã em Washington a embaixada cubana no mesmo casarão de 1916 que ocupara antes do rompimento ocorrido em janeiro de 1961. A cerimônia de abertura teve a presença do chanceler cubano, Bruno Rodríguez, que também tem um encontro com o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, para um pronunciamento à imprensa. O marco histórico consolida o intenso processo de negociações entre os dois países, iniciado em dezembro do ano passado.

Em entrevista ao Blog da Companhia das Letras, o jornalista e escritor Jon Lee Anderson comemora o que considera uma “grande vitória do governo Obama”, avalia o impacto da retomada dos laços diplomáticos entre Cuba e Estados Unidos para a América Latina, incluindo o Brasil, e defende que o retorno à normalidade na vida de milhões de cubanos só estará completo com o fim do bloqueio econômico à ilha.

Jon Lee Anderson é autor Che, uma biografia, publicado originalmente em 1997 pela Objetiva, e eleita, na ocasião, o livro do ano pelo New York Times. A obra ganhou uma reedição revisada em 2012, que inclui uma nova introdução, mapas revistos e uma cronologia atualizada do ícone latino americano. No epílogo, Lee Anderson reflete sobre a América Latina nos dias de hoje e avalia a imagem de Che quase quarenta anos depois de sua morte. Em 2016, o jornalista entregará seu próximo ambicioso projeto, a biografia de Fidel Castro, que, no Brasil, será também lançada pela Objetiva.

Leia a entrevista.

O presidente Obama tem recebido críticas nos Estados Unidos e no exterior em relação à sua política internacional para a Rússia e o Oriente Médio. Como você avalia o impacto do restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba dentro desse contexto?

Acredito que o restabelecimento da relação entre Cuba e os Estados Unidos é, de imediato, benéfico para os dois países. Os benefícios econômicos para Cuba são óbvios e representam também uma melhora no ânimo da população em geral. Ocorrerá o mesmo, é claro, quando o embargo for totalmente derrubado. A reaproximação deu também um novo impulso ao governo cubano, por ter sobrevivido à política de isolamento imposta pelos Estado Unidos. Em termos internacionais, o restabelecimento é simbolicamente muito positivo para a imagem dos Estados Unidos — que há décadas é visto, na maior parte do mundo, como o valentão que usa sua política internacional para fazer bullying com a “pequena” Cuba.

Em relação à visão que se tem sobre o governo Obama, se ele é encarado como fraco ou obstinado, não se pode abordar a abertura entre Estados Unidos e Cuba sob o mesmo prisma com que se avalia a relação com o Oriente Médio ou com a Rússia. Cuba já não oferece mais perigo em potencial aos Estados Unidos, o que não é possível argumentar em relação ao Iraque, ao Irã, à Síria ou à Ucrânia. A reaproximação foi uma grande virada do governo Obama. A Casa Branca não só surpreendeu os adversários republicanos dentro do país, como também os estrangeiros. Países como a Venezuela e a Rússia vieram correndo desesperados para Havana para assegurar que seus interesses e seu relacionamento com Cuba ainda estão em boas condições. Para o governo Obama, trata-se de uma grande vitória.

A retomada dos laços diplomáticos entre Cuba e os Estados Unidos, anunciada em dezembro de 2014, vem recebendo grande atenção da imprensa latino-americana. Qual será o impacto na América Latina? Você acredita, por exemplo, que a influência do atual governo da Venezuela no continente perderá força? O Brasil mantém uma relação próxima com Cuba e realizou grandes investimentos nesse país. O Brasil perderá sua influência na ilha?

Para o resto da América Latina, a reaproximação entre os Estados Unidos e Cuba é, de modo geral, algo positivo. O retorno de Cuba à família das nações das Américas com a aprovação dos Estados Unidos, levando em consideração o sectarismo e a politicagem barata que persistiram em decorrência do quadro anterior, é uma ótima notícia. De fato, isso representa um desafio para os países que tentaram se beneficiar econômica e diplomaticamente do status quo anterior.

Cuba não será mais o alvo fácil de governos latino-americanos que procuram difamar levemente Washington sem arcar com nenhuma consequência. E, no que diz respeito ao tratamento preferencial concedido por Havana para comércio ou projetos de investimento, haverá um novo espírito de competição que só pode favorecer o país, ao dispor de mais opções de escolha. É provável que os Estados Unidos também se beneficiem dessa situação, como se fossem um novo pretendente belo e rico ocupando a mesma varanda em Cuba que os antigos noivos, como Brasil, Argentina, Venezuela e México. À luz das revelações em andamento sobre corrupção, se você for escolher hoje um parceiro estrangeiro para um projeto prioritário de infraestrutura, ainda escolheria a Odebrecht? Países da América Latina, como o Brasil, terão que melhorar consideravelmente para permanecer no jogo. Mas, conhecendo os cubanos, especialistas em hospitalidade, duvido que alguma das partes saia perdendo completamente.

A reabertura das embaixadas de Cuba nos Estados Unidos e vice-versa está programada para 20 de julho. Quais serão as mudanças na vida de milhões de cubanos a curto prazo? E a longo prazo?

A curto prazo, cubanos e americanos estarão, de repente, em pé de igualdade tanto do ponto de vista político quanto do diplomático, e não serão mais “inimigos”. Americanos e cubanos poderão circular com bastante facilidade, como vizinhos “normais”. Isso representa uma mudança incrível para os cidadãos de ambos os países, especialmente para os cubanos, que já viveram tão isolados, a ponto de, para chegar a qualquer lugar na região, vamos dizer o Brasil, terem que voar primeiro para Praga.

Enquanto o embargo ainda estiver em vigor (isso terá que ser votado no Congresso dos Estados Unidos), a transformação será incompleta, mas as etapas desse processo que dependiam do governo Obama já foram realizadas, e a atividade econômica em Cuba já aumentou consideravelmente diante do iminente término do embargo. A ilha, já em tendência de alta econômica, tem experimentado um impacto psicológico impressionante na expectativa dos cubanos sobre o futuro. Os cubanos saíram de uma situação em que não tinham expectativa alguma de futuro próspero para agora contarem com um, e isso já vale muito.

A longo prazo, ainda haverá muitos desafios, mas de forma geral, acredito que os efeitos que acabo de descrever como de curto prazo passarão por uma evolução, um amadurecimento e um aprofundamento e se tornarão efeitos de longo prazo decorrentes dessas mudanças momentâneas. Acredito que uma das principais questões para os cubanos será manter a abertura e ainda assim permanecer fortes e unidos para preservar um senso nacional de equilíbrio e soberania cultural, enfrentando face a face o monstro destruidor americano.

É pública a informação de que planeja lançar em 2016 a sua biografia sobre Fidel Castro, que, no Brasil, será editada pela Objetiva. Fidel desempenhou algum papel relevante durante esse processo histórico? Qual?

Fidel desempenhou o papel do antigo chefe de Estado cético diante da última reviravolta do drama na história cubana ao expressar sua lealdade ao irmão e aos guardiões recém-indicados da revolução que ele ajudou a guiar por tanto tempo, mas também exprimiu seu receio em relação aos americanos. Nesse sentido, Fidel é o maior representante da voz da velha guarda conservadora de Cuba, que teme perder o controle da situação como resultado do retorno dos americanos à ilha. A presença persistente de Fidel e seu enorme simbolismo, ainda que com menos autoridade, permitem a Raúl justificar certa precaução em proceder tão rapidamente, e também, é bem possível, em pisar no freio de quando em quando.